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Livros que cabem no bolso

21 Outubro, 2009 - 4:30 pm

Para felicidade geral do público leitor e de seus desvalidos bolsos, mais uma grande editora brasileira entra no segmento das edições populares, mais conhecidas como pocket books ou livros de bolso. Pertencendo, desde 2005, ao poderoso grupo espanhol Prisa-Santillana, a Editora Objetiva aproveita os braços internacionais a que se encontra ligada para trazer para o país mais um selo, o Ponto de Leitura (que se une às tradicionais marcas Suma de Letras e Alfaguara).

A fornada inaugural apresenta 12 títulos, de Stephen King (Carrie, A Estranha, O Iluminado e A Zona Morta) a James Redfield (A profecia celestina), passando por Nelson Motta (Noites Tropicais) e Luis Fernando Verissimo (O clube dos anjos), entre outros, com preços que vão de R$9,90 a R$29,90.

No final de 2007, a Objetiva havia manifestado interesse nesse nicho de mercado bastante explorado sobretudo nos EUA e Europa, mas que no Brasil somente há pouco tempo vem recebendo investimentos significativos. Com exceção da pioneira L&PM, cuja força repousa justamente no livro de bolso, apenas nos últimos anos os dois maiores grupos editoriais brasileiros — Companhia das Letras e Record — lançaram selos específicos para pockets (Companhia de Bolso e BestBolso, respectivamente). A princípio, os planos da Objetiva apontavam para a aquisição da Martin Claret, mas o interesse levantou antigas suspeitas acerca da qualidade das traduções da pequena editora. A Objetiva/Santillana recuou, esperou 2 anos, para agora entrar com força total no mercado. Como a editora possui autores importantíssimos em seu catálogo, o leitor pode esperar bons lançamentos para os próximos meses.

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Pitada de Sal #11

20 Outubro, 2009 - 8:07 pm

“Os marqueteiros transformam Peter Pan em seu flautista de Hamelin, fingindo libertar os jovens das restrições da disciplina adulta para lhes impor a disciplina do mercado de consumo. O flautista de Hamelin atraiu para longe as crianças da vila porque seus pais não lhe pagavam para livrá-los dos ratos. O flautista de Hamelin do mercado atrai as crianças porque seus pais são ‘guardiões’ que ficam no caminho da indução das crianças ao hall dos consumidores. Assim como o flautista da história fez, o mercado hoje em dia finge capacitar as crianças que seduz dizendo-lhes que elas ficarão potentes com a descapacitação de seus pais. Libertadas de pais possessivos, elas estão, na verdade, encarceradas nos corredores do shopping da mente juvenil.”

Benjamin R. Barber dissecando o mundo do hiperconsumo em seu Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos (Rio de Janeiro: Record, 2009, p.131; na tradução de Bruno Casotti).

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Gerais de Minas

18 Outubro, 2009 - 9:08 am

Cada vez que vou a BH, percebo uma nova faceta da capital mineira que minhas visitas anteriores simplesmente não me tinham mostrado. E cada vez me apaixono mais com a cidade. Neste post, resolvi deixar registradas algumas brevíssimas impressões e observações desta última jornada belorizontina.

Finalmente conheci a UFMG, ainda que numa visita relâmpago. Em meio ao ambiente charmosamente bucólico do campus, nada surpreendente notar que ao desmazelo das instalações da FAFICH, uma decadência cuidadosamente mantida nos limites da subsistência, corresponda a exuberância quase alienígena dos novíssimos prédios da Faculdade de Ciências Econômicas — tal qual acontece na USP e em tantas estaduais e federais país afora, a César o que é de César. Não quis me impor o desgosto de conferir se por lá também existem as “salas patrocinadas” como no torpe modelo da congênere paulistana FEA, mas poderia apostar a moedinha número 1 que tem dedo da iniciativa privada por lá.

E foi no prédio da FAFICH (mais precisamente numa pequena livraria chamada Quixote) que, depois de quase 3 anos de procura, consegui finalmente um exemplar novinho em folha do primeiro volume dos Ensaios Reunidos, do Otto Maria Carpeaux, que está esgotado há algum tempo e que, até em sebos, estava sendo difícil de achar. (Aliás, quem tem notícias de a quantas anda o projeto de resgate dos escritos de Carpeaux? A última coisa que ouvi, por parte da Topbooks, é que não havia qualquer previsão para um novo lançamento…).

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Duplicação da Antônio Carlos: soluções urbanas e photoshop, uma parceria que dá certo.

BH segue investindo pesado em algumas adequações urbanas, como a duplicação da avenida Antônio Carlos, mas fico sabendo que nesta metrópole de quase 2 milhões e meio de habitantes, a expansão da malha metroviária (que, hoje, conta com apenas uma linha de pouco mais de 28km de extensão) tem sido bastante tímida — e isso mesmo com a “pressão” trazida pela Copa de 2014. De novo, a prioridade é o automóvel. Lógico, temos grandes montadoras instaladas no estado, como a Fiat. Abrir mais espaços para os carros é aumentar a capacidade de absorção do mercado (ao menos em termos físicos), é estimular a produção industrial; e estimular a produção é gerar emprego, gerar desenvolvimento… Até quando vamos insistir nessa cadeia equivocada de raciocínio? Perguntar não ofende (ou não deveria): investir em transporte público sobre trilhos não gera empregos nem desenvolvimento?

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Torre AltaVila, por Henriqueta Marques

Fala-se muito em Varginha, mas parece que os ETs têm posto avançado é em Nova Lima.

Quando você for a BH, algo que recomendo enfaticamente é uma visita à torre AltaVila. Localizada no município de Nova Lima (colado à capital), a torre é parte de um centro comercial que tem entre suas atrações o Hard Rock Café e um restaurante japonês instalado no ponto mais alto — a torre em si tem 101 metros de altura, mas como está fincada no topo de um morro, você acaba ficando 432 metros acima do centro de BH. Numa estrutura que propositalmente lembra um disco voador, é possível avistar boa parte de Belo Horizonte. Não sei como é durante o dia, mas à noite posso garantir que a vista é belíssima!

- Ω -

Outro lugar que adorei ter conhecido foi o Palácio das Artes, que fica no Parque Municipal Américo Renné Giannetti. De 6 a 12 de outubro o Palácio abrigou a 6ª edição do FIQ! (Festival Internacional de Quadrinhos). O festival prestou homenagem ao artista gaúcho Renato Canini, e trouxe nomes como Liniers (o segundo álbum Macanudo acaba de ser lançado no Brasil pela espertíssima editora campineira Zarabatana, de Cláudio Roberto Martini), Craig Thompson (Retalhos) e Guy Delisle (de Crônicas Birmanesas, Pyongyang e Shenzhen, todos da Zarabatana) para conversar com o público. Abaixo, uma pequena amostra do FIQ! nas fotos da Queta.

FIQ! 2009

FIQ! 2009 - Belo Horizonte, MG

canini_picapau

Pica-Pau vs. Pinóquio, por Canini

Canini, no FIQ! 2009 (pastorinha e ovelha)

A pastorinha, por Canini

Canini no FIQ! 2009 (sertão)

FIQ! 2009: homenagem ao artista gaúcho Roberto Canini

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A estrada

8 Setembro, 2009 - 8:44 am

Começam a ser divulgados os primeiros trailers e imagens do filme A estrada, do diretor australiano John Hillcoat, adaptação do romance homônimo de Cormac McCarthy. A distopia que apresenta um mundo distruído e o choque entre a busca pela sobrevivência e a permanência do amor em meio à barbárie traz Viggo Mortensen à frente de um grupo de grandes atores. A previsão para a estreia no Brasil é 05 de fevereiro de 2010. Se o filme tiver apenas 1 décimo da força do livro, será imperdível.

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Julgue o livro pela capa #1

19 Agosto, 2009 - 9:57 pm

A partir deste mês, a editora Companhia das Letras apresenta ao público a nova roupagem de sua extensa Série Policial. O visual sóbrio, em que predominavam fotos em preto e branco sobre um lay-out quase totalmente negro dá lugar a um design mais arrojado, com cores vivas e maior destaque para o nome dos autores. As bordas coloridas, que foram — e ainda são — surpreendentes, e constituem um dos traços diferenciais da série, foram mantidas. Ao que tudo indica, a editora pretende, com esta modificação, dialogar com um público maior, flertando com jovens que, hoje, dificilmente procuram de forma espontânea os livros da coleção. Se o projeto anterior, assinado por João Baptista da Costa Aguiar, evocava cenas de mistério, com uma abordagem mais clássica; o novo, criado por Elisa V. Randow, parece apostar em um clima pop soturno — se é que me faço entender…

Abaixo, uma amostra dos dois primeiros livros a estamparem o novo projeto: O último caso da colecionadora de livros, de John Dunning, e Paciente Particular, de P. D. James. As capas dos demais títulos da série serão substituídas aos poucos, assim que novas tiragens forem sendo impressas.

ultimo_caso

paciente_particular

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O mundo e o indivíduo, segundo Roth

9 Agosto, 2009 - 10:19 am

Indignação, de Philip RothIndignação (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 171p.; tradução de Jorio Dauster), o mais recente livro do escritor norte-americano Philip Roth, apresenta a história de Marcus Messner, um jovem norte-americano, filho único de uma família judia que tira o sustento de um açougue kosher na cidade de Newark, Nova Jersey. Marcus transita para a vida adulta no início da década de 50, quando seu país está envolvido na Guerra da Coréia, em que milhares de jovens como ele perdem a vida a cada dia.

A passagem para o mundo adulto traz certa liberdade e muitas descobertas para Marcus, mas também a crescente consternação de seu pai quanto ao futuro do filho. Num mundo tão perigoso, como garantir a segurança de todos os sonhos e esperanças materializados na figura de seu único herdeiro? O medo do senhor Messner é difuso: toda e qualquer coisa ameaça seu menino, põe em risco a continuidade de sua família. Já para o jovem, o receio é ir para a guerra e perder a vida, como seus primos ou tantos outros conhecidos. Sentindo-se sufocado pelos cuidados do pai — que Marcus considera à beira da neurose —, o jovem põe em execução seu plano de transferir-se do curso superior que frequenta em sua cidade para outro, desde que seja a quilômetros das trancas da porta de sua casa.

Meio ao acaso, escolhe Winesburg, no estado de Ohio, sem saber que este será apenas o primeiro passo rumo a uma sucessão de armadilhas. Ao chegar à faculdade, além da estranheza natural de novato, Marcus passa a protagonizar uma série de desentendimentos: com colegas de quarto, com membros de fraternidades que a todo custo querem trazê-lo para suas esferas de influência, com o diretor; com o anti-semitismo velado ou escancarado de boa parte dos alunos, com o conservantismo religioso que é a espinha dorsal da instituição.

Marcus não se dá bem com instituições. Não as compreende e não é compreendido por elas. Família, igreja e universidade censuram o rapaz por sua exacerbada independência, por ser irredutível quanto a suas convicções, por não conseguir comungar das crenças predominantes ao seu redor. No extremo, acusam-no de ser intolerante com os outros.

Ora, mas e o que é a guerra senão a negação total do outro, do direito do outro professar suas crenças, sua visão de mundo, seu estilo de vida? É por serem portadores da “liberdade universal” que os Estados Unidos, Europa, Rússia e tantas outras nações lançam-se em três guerras em 50 anos? Ou também por não conseguirem suportar a existência do Outro? Por enxergarem ameaça no que é diferente? Esse paralelo é sutil e magistralmente exercitado ao longo de todo o livro por Roth.

Brilhante nos estudos, tenaz no trabalho, falta a Marcus o que os arautos da psicologia fast-food chamariam de “inteligência emocional”. Por mais que seja um hábil debatedor, capaz de concatenar ideias e discurso de forma admirável, ao se ver encurralado, o jovem aspirante a advogado não consegue muito mais do que recorrer a um bom e sonoro “Vai se foder!”. Ou à fuga.

Marcus foge da família, foge das fraternidades, dos times, das igrejas; não quer ser enquadrado, se sentir pertencendo a ninguém — salvo, talvez, a Olivia Hutton, a colega por quem se apaixona, e que como ele luta para firmar sua existência dentro da lógica de um espaço-tempo que não compreende. Por mais que procure um lugar que seja seu, exclusivamente seu, Marcus se vê cercado, invadido, refém de tradições que despreza. De forma progressivamente dolorosa, vai descobrindo quão frágil é sua posição no interminável enfrentamento entre indivíduo e meio social.

A mudança de Nova Jersey para Ohio traz mais consequências do que o rapaz poderia ter imaginado. Ao deslocamento geográfico, corresponde um deslocamento no campo das ideias. Marcus move-se da acanhada porém aberta Robert Treat, onde os professores defendiam opiniões “decidida e desavergonhadamente de esquerda”, para o coração do conservadorismo WASP (white, anglo-saxon, protestant). Filho de judeus, ateu convicto, Marcus se vê obrigado, entre outras coisas, a frequentar a igreja semanalmente e a aguentar os sermãos de pastores e moralistas que, para ele, só fazem envenenar a mente de seus incautos colegas.

Contra tudo e contra todos, o que pode fazer o jovem e apaixonado Marcus senão se erguer e, indignado, gritar “Não!”?

Precursor da contestadora geração Flower Power, que desabrochará na década de 1960, Marcus se vê enredado em um mundo hipócrita que nos fronts estrangeiros desperdiça a vida de seus jovens para preservar em solo nacional o delírio consumista de um modus vivendi cor-de-rosa, povoado por famílias felizes e perfeitas, garotas e rapazes saudáveis e seus carros reluzentes.

As engrenagens da máquina-mundo moem a carne e dilaceram a mente de Marcus Messner — por mais que procure fugir, em nenhum lugar estará sozinho. Em nenhum lugar estará a salvo. Porque ele mesmo carrega, dentro de si, o embrião das estruturas que o oprimem.

Como diz o presidente de Winesburg em repreensão aos levantes estudantis que em determinado momento tomam conta da faculdade, a História não é o pano de fundo, é o palco. E cada um de nós pode até escolher o papel que pretende encenar, mas o enredo…

Escrito por Ronoc ¦

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Pitada de sal #10

7 Agosto, 2009 - 6:47 am

kurt-vonnegut“Ele foi até a sala de estar balançando a garrafa como uma sineta e ligou a televisão. Ficou levemente solto no tempo, viu o filme da sessão coruja de trás para frente e depois normalmente. Era um filme sobre bombardeiros americanos na Segunda Guerra Mundial e os homens corajosos que os pilotavam. Vista de trás para frente por Billy, a história era assim:

Aviões americanos, cheios de buracos e homens feridos e cadáveres decolavam de costas de um campo de pouso na Inglaterra. Sobre a França, alguns caças alemães voaram na direção deles ao contrário e sugaram balas e fragmentos de bombas dos aviões e dos tripulantes. Fizeram o mesmo com bombardeiros americanos no solo, que decolaram de costas para se unirem à formação.

A formação voava de costas sobre uma cidade alemã em chamas. Os bombardeiros abriram os alçapões das bombas, empregaram um magnetismo milagroso que diminuiu as chamas, reunindo-as em recipientes cilíndricos de aço e atraiu os recipientes para os bojos das aeronaves. Os recipientes foram perfeitamente armazenados em prateleiras. Os alemães lá embaixo tinham seus próprios equipamentos milagrosos: longos tubos de aço que eram utilizados para sugar mais fragmentos dos tripulantes e aviões. Mas ainda havia alguns americanos feridos, e alguns dos bombardeiros estavam em más condições. Sobre a França, porém, os caças alemães reapareceram, tornando tudo e todos inteiros como novos.

Quando os bombardeiros voltaram à base, os cilindros foram tirados de suas prateleiras e despachados de volta para os Estados Unidos da América, onde as fábricas estavam funcionando noite e dia, desmontando os cilindros e separando o conteúdo perigoso em minerais. Um ponto tocante era o fato de que o trabalho era realizado principalmente por mulheres. Os minerais foram então enviados para especialistas em regiões remotas. A função deles era armazená-los no chão e escondê-los com cuidado, para que nunca mais voltassem a ferir alguém.

Os pilotos americanos devolveram seus uniformes e se tornaram garotos do secundário. E Hitler se transformou num bebê, supôs Billy Pilgrim. Isso não estava no filme. Billy estava extrapolando. Todo mundo virou bebê, e toda a humanidade, sem exceção, conspirou biologicamente para produzir duas pessoas perfeitas chamadas Adão e Eva, supôs também.”

Trecho de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut (Porto Alegre: L&PM, 2005, pp.81-83; na tradução de Cássia Zanon).

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Que gosto tem o Japão?

11 Julho, 2009 - 11:51 am

Perambulando por bairros de Tóquio, em cidades vizinhas ou distantes, um homem, seu terno e sua fome — melhor: e sua vontade de comer. Poderíamos resumir Gourmet (São Paulo: Conrad, 2009, 202p., tradução de Drik Sada), de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, dessa forma. E estaríamos cometendo uma tremenda heresia — algo como cortar spaghetti, sabem?

Nas orelhas do livro, a editora se questiona sobre qual seria a melhor classificação para Gourmet: longe de ser um “simples” mangá, poderia funcionar como um guia para quem pretende conhecer o Japão, mas não causaria estranheza se fosse encarado como poesia visual. Eu tendo a concordar com a segunda opção, tamanha é a beleza desta obra de Taniguchi, mas ainda prefiro chamar os 18 capítulos de contos. De qualquer forma, é preciso encarar Gourmet como um prato que se saboreia com reverência e que somente aos poucos vai revelando seus ingre- dientes e temperos em insuspeitadas combinações. O que não se diz, mas apenas é insinuado pelos painéis que Taniguchi vai montando do espaço visitado por seu personagem, é tão ou mais importante do que aquilo que nos oferece em primeiro plano. Os silêncios, a incrível expressividade que imprime a seu gourmet solitário nos fazem parar, ao final de cada capítulo, e refletir.

Os traços limpos, precisos, contrastam com a total falta de definição dos roteiros do protagonista (do qual sequer ficamos sabendo o nome). O acaso, temperado pelas reuniões de negócios (sabemos apenas que se trata de um comerciante autônomo), é seu menu. Mas se estivermos atentos, veremos que o homem refaz um percurso marcado pela nostalgia: parques visitados em companhia de antigas namoradas, locais da infância, territórios da memória, transformados pela passagem do tempo.

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

O sabor é amargo em alguns desses “contos”. Como quando “o comerciante” presencia um dono de lanchonete humilhando um empregado — o que faz seu apetite cessar imediatamente —, ou quando busca quase com desespero um local em que havia comido muitos anos antes, e descobre que o crescimento vertiginoso do bairro riscou do mapa o restaurante que procurava. Resta-lhe a memória. Como um gostinho bom que fica na boca e que anos depois volta, trazendo consigo recordações preciosas…

É isso: o menu está aberto. A cada capítulo, uma iguaria e um local nos são ofertados pelo chef Jiro Taniguchi nesta deliciosa viagem gastronômica pelo Japão. Como cortesia da casa, saboreie o primeiro prato de Gourmet. Bom apetite!

Escrito por Ronoc ¦

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Político NÃO é tudo a mesma coisa

7 Julho, 2009 - 11:05 pm

Há políticos e Políticos. Gente que só quer se autopromover e colecionar vantagens, e pessoas que realmente querem modificar para melhor (e para todos, é preciso ser claro) a realidade que nos cerca. Não há dúvidas de a qual categoria a subprefeita da Lapa, Soninha Francine, pertence. (Para aqueles de fora de São Paulo, e que talvez não a conheçam tão bem, explicito: à segunda.)

Podem até dizer que Soninha tem lá seus defeitos (pessoalmente, só sei de um: ser palmeirense), mas acredito que a falta de coerência jamais será um deles. Fiquei surpreso — mas nem tanto — quando a vi chegar à Livraria Cultura da Pompéia portando sua Flexbike devidamente decorada com o adesivo “Um carro a menos”. Finalmente um político que pratica aquilo que prega! Por essas e por outras que não me arrependo de nenhum dos votos que dei a ela (e sei que não me arreperenderei dos que ainda vou dar, nas próximas eleições).

Por essas e por outras que, embora corinthiano, faço questão de divulgar aqui o lançamento do novo livro de Soninha, Meu pequeno palmeirense (Caxias do Sul, RS: Editora Belas Letras, 2009, 24p., com ilustrações de Baptistão), o mais recente título da série Meu Time do Coração.

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O homem que amava um bom mistério

4 Julho, 2009 - 9:10 am

Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!

Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.

Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.

Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história.  Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.

Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam com sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.

De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.

- Ω -

Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.

Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.

Escrito por Ronoc ¦

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O menino e a Árvore

24 Maio, 2009 - 10:57 am

Curiosos os caminhos que nos levam aos livros. Eu, que trabalho com eles, confesso que tinha prestado pouca atenção ao Tobias Lolness – A vida na Árvore (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 351 p.) quando foi lançado, uns dois meses atrás.

Semana passada, porém, graças ao apurado faro bibliotecário de minha esposa, redescobrimos a obra, espremida entre tantas outras numa pequena (a única, até prova em contrário) livraria na belíssima Paraty. Do toque na capa em alto-relevo, do rápido folheio de algumas páginas, que revelaram, além da história, as bonitas ilustrações de François Place, brotou o interesse. Como assim uma aventura de um menino de 13 anos e que não mede mais do que 1 milímetro e meio, e que habita uma árvore, aliás, a Árvore? Mesmo com a pulga, ou melhor, com o minúsculo menino atrás da orelha, não levamos o livro.

Mas assim que voltamos para São Paulo, foi uma das primeiras coisas que fiz.

A editora o apresenta como uma saga ecológica, ganhadora de inúmeros prêmios literários infanto-juvenis (como o Saint-Exupéry), e capaz de suscitar a reflexão sobre “os limites éticos da ciência, da indústria e da política”, levando ainda o leitor a “repensar o racismo e a intolerância em relação às diferenças sociais”.

Esqueça os prêmios (afinal, muitas vezes eles miram mais nas trajetórias políticas do que propriamente em qualidades literárias) e a apontada lista de nobres intenções do texto (que servem mais de isca para adoções escolares) e entregue-se — como eu fiz — à obra em si.

Timothée de Fombelle, criador de Tobias Lolness: falando da Árvore para falar de todos nós.

Contada num ritmo envolvente, alinhavando as frases aqui e ali com um quê de poesia, lançando mão de uma estrutura narrativa que esconde, revela, esconde, revela, o que mantém uma certa tensão e, sem dúvida, retém a atenção do leitor, a história do menino Tobias avança de forma prazerosa. Tem falhas, é óbvio, como apresentar personagens ou eventos que logo em seguida simplesmente são deixados de lado, o que nos faz duvidar se não seriam dispensáveis — e isso mesmo sabendo que falamos apenas da primeira parte de uma história dividida em duas (a continuação ainda não tem data para ser lançada no Brasil). Mas de uma maneira geral, Tobias Lolness surpreende positivamente sobretudo aqueles que à primeira vista o enquadram na restritiva (e muitas vezes injustiçada) categoria de “livro para criança”.

Filho do mais renomado cientista da Árvore, Tobias é um menino esperto, em certo sentido precoce, com uma sensibilidade aguçada, que lhe permite captar toda a beleza que seu mundo lhe oferece — e que muitas vezes escapa aos demais. Corajoso e dono de um espírito libertário, logo no início do livro ficamos sabendo que o menino encontra-se envolvido em uma perseguição que mobiliza toda a sociedade da Árvore. O perseguido? Sim, ele mesmo, Tobias. Por que todo um povo persegue, com uma sanha incontrolável, um menino de 13 anos de idade? É isso que Timothée de Fombelle vai revelando pouco a pouco, auxiliado a cada par de páginas, pelo ilustrador François Place.

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Trecho:

“Todavia o professor Lolness sabia que o conhecimento é um universo que não cessa de expandir os seus limites. Às vezes, ocorria-lhe comparar o conhecimento à própria Árvore.

Isso porque o pai de Tobias defendia a ideia louca de que a Árvore crescia.

Esse era um dos temas mais desconhecidos da ciência e a verdadeira paixão do professor. Todos os sábios se desentendiam a esse respeito. A Árvore se transforma? Ela é eterna? Qual é a sua origem? Haverá um fim do mundo? E, sobretudo: haverá vida fora Árvore? Essas questões provocavam intenso debate, e Sim Lolness não concordava com nenhuma das ideias de seus colegas.

Seu livro a respeito das origens da Árvore foi muito mal recebido. Ele tivera a ousadia de contar a história da Árvore como se ela fosse um ser vivo. Afirmava que as folhas não eram plantas independentes e sim as extremidades de uma imensa força viva.

O que mais chocou seus leitores foi o fato de um livro que era sobre as origens falar na verdade sobre o futuro. Se a Árvore era viva, como uma floresta de musgo, isso significava que era frágil e seria preciso tratar bem daquele grande ser que lhes abria os braços.” (p.68)

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Pitada de sal #9

21 Maio, 2009 - 11:57 am

“Por que não estou escrevendo este livro mais depressa? Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’? Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo — NÃO escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”

Gay Talese refletindo com seus elegantes botões e alfinetando alguns de seus pares em Vida de escritor (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.403; tradução de Donaldson M. Garschagen)

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Pitada de sal #8

14 Maio, 2009 - 8:54 am

“Penso muito no futuro dos livros. Podem continuar a competir com as formas rápidas, baratas, fáceis, que não exigem leitura nem pensamento? Devo dizer que sim, ou que alguns deles estão tentando. Muitos livros hoje são escritos tendo o cinema em mente. Dizem que alguns editores não publicarão um livro se não houver a possibilidade de vendê-lo para o cinema. E até o escritor em muitos casos se envolve, meio escritor e meio vendedor. Tem de ficar numa livraria rotulando seu produto com seu nome. Tem de ir a programas de televisão e tornar-se um macaco treinado. Deve sujeitar sua vida privada, sua vida sexual e seus músculos, até mesmo seu cabelo, ao olhar boçal de seus possíveis leitores. Dizem que está abandonando o livro caso não faça essas coisas. Estará sendo anti-social caso não permita que as revistas populares registrem seu café da manhã e sua esposa ou esposas em papel lustroso.

Não acredito que um livro possa competir com seus rivais nos termos deles. Por outro lado, eles não podem competir com o livro nos termos deste. Nenhum outro meio, exceto a música, pode como ele ‘atrair a mente e as emoções’. Não se pode conceber um filme como pessoal, como um livro amado é pessoal. Nenhum programa de televisão é amigo como um livro é amigo. E nenhum outra forma, exceto outra vez a música, convida à participação do receptor como um livro faz.”

John Steinbeck em texto da década de 1950 e que faz parte de A América e os americanos (Rio de Janeiro: Record, 2004, p.209; tradução de Maria Beatriz de Medina).

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Pitada de sal #7

29 Abril, 2009 - 5:42 am

“Em 1939, Jorge Luis Borges, famoso escritor argentino quase cego com genial pendor para uma fantasia literária obscura, escreveu um curto ensaio chamado ‘A Biblioteca de Babel’, prevendo os horrores da biblioteca infinita, sem centro, sem lógica [...] um caos de informação, ‘composta de um número indefinido e talvez infinito de galerias hexagonais’.

‘A Biblioteca de Babel’ de Borges é a internet de hoje — anônima, incorreta, caótica e esmagadora. É um lugar onde não há realidade concreta, não há certo e errado, nenhum código moral vigente. É um lugar onde a verdade é seletiva e está constantemente sujeita a mudança. A experiência de surfar na internet é análoga à de perambular pelas galerias hexagonais da biblioteca de Babel de Borges. A verdade é elusiva, sempre a um clique ou a um site de distância.”

O polêmico Andrew Keen em trecho de seu ainda mais polêmico e provocativo O culto do amador (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p.82). Para mais trechos do livro, visitem o blog do Jaime Mendes — aliás, excelente — Livros, livrarias e livreiros.

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Quando o Brasil descobriu ‘Uma paixão francesa’

18 Abril, 2009 - 11:28 am

Eu poderia escrever aqui um post raivoso, denunciando o despautério que é uma de nossas cada vez mais numerosas e cada vez mais fugazes celebridades-instantâneas ser convertida, da noite para o dia, por um programa de TV abominável em conselheira literária. Eu poderia apontar o quanto somos tolos ao seguir indicações de quem quer que seja, sem fazer qualquer questionamento, sem levar em consideração nosso próprio conhecimento ou gosto, blá-blá-blá. Mas estou num dia bom e prefiro escolher o tempero Pollyanna para o meu miojo. Prometo ser equilibrado para falar sobre um fenômeno pra lá de interessante que pode ter passado totalmente despercebido pela maioria das pessoas. Sim, pessoal, quebrando uma das regras de ouro deste blog, vou falar de Big Brother Brasil.

"Um voluptuoso romance de arriscados prazeres" é o que promete a capa da edição americana de 1977

Postulante ao milionário prêmio do programa, a catarinense Ana Carolina Madeira foi responsável por um dos fenômenos literários mais inesperados dos últimos tempos. Quem trabalha em livrarias ou bibliotecas sentiu na pele os abalos sísmicos causados por essa moça. Durante algumas semanas, levas de pessoas buscaram — algumas à beira do desespero — um certo livro chamado “Uma paixão francesa”. Tudo porque Ana Carolina o relacionou em seu perfil do BBB na internet, o levou para dentro da casa e passou a falar enfaticamente de suas qualidades e de como teria sido o melhor livro a ter lido em todos os seus 24 anos de vida.

Você desconfia da extensão da influência de Ana Carolina? Pois então, experimente buscar no Google o título do livro. Visite os mais diversos fóruns e perceba o quanto o adormecido desejo de leitura desta nação foi despertado — aliás, despertado não, chutado para fora da cama, seria mais apropriado dizer. Como num virar de página, tornou-se obrigação sorver o verdadeiro tesouro literário que esta até então inaudita autora Diane du Pont teria a nos oferecer. Que verdades ocultas seu texto desnudaria? A que profundidade da alma humana nos levaria a escritora?

Até onde se pode apurar, não há uma edição corrente do livro no mercado brasileiro. O exemplar que Ana Carolina levou ao BBB deve constituir, pois, uma raridade; um tesouro a ser guardado a sete-chaves; e as chaves, a serem arremessadas para o fundo do Rio Tietê (Ooops! Será que é tão difícil honrar a promessa que fiz lá atrás?). Contudo, conseguimos localizar na internet rastros de uma edição americana de 1977. A capa promete “um voluptuoso romance de arriscados prazeres”, dando a entender que seja uma daquelas histórias bem condimentadas (açucaradas a ponto de fazer mal a diabéticos ou de uma ardência de dar inveja a quituteiras baianas) vendidas às pencas em qualquer esquina e que há décadas fazem um silencioso sucesso entre certa parcela do público leitor brasileiro. No entanto, há quem jure de pés juntos que se trate de uma história seriíssima, que nos apresenta um comovente romance vivido no convulsivo cenário da Revolução Francesa.

Pouco importa. O que importa mesmo — a verdade suprema que nos é esfregada na cara — é que quando a Rede Globo (ou qualquer outra emissora de TV, mas sobretudo a Globo) quiser transformar o Brasil num país de leitores, ela atingirá a façanha em 2 ou 3 capítulos de novela. Vêm-me à mente alguns flashes de um Tony Ramos dono de livraria no Rio de Janeiro, de uma Mariana Ximenes lendo no colo da avó… Mas são ainda ensaios tímidos.

Pensando em tudo isso, vemos como a tese que alguns autores (entre eles,  Henry Jenkins, de quem já falamos brevemente por aqui) defendem de que os meios de comunicação e as formas de produzir e desfrutar de informação e conhecimento cada vez mais se confundem está soberba e inapelavelmente correta. Em alguns casos, felizmente; em outros, nem tanto.

Escrito por Ronoc ¦

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Vem aí a Biblioteca Digital Mundial

12 Abril, 2009 - 9:06 am

Promete. E como promete! Deve ser oficialmente lançada no dia 21 de abril de 2009. Conta com o envolvimento de várias instituições (sobretudo bibliotecas nacionais — como a nossa BN — e universitárias) ao redor do mundo e pretende disponibilizar on-line verdadeiros tesouros da humanidade, sejam livros, partituras, fotografias, pinturas etc. etc. etc.

Para saber mais sobre o projeto, dê uma olhada no artigo do The Guardian ou visite o site da World Digital Library.

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Pitada de sal #6

22 Março, 2009 - 8:37 am

“A linguagem, precisamente por sua ambigüidade errática, tenta convencer os usuários de sua própria precisão e peso, declarando-se seu caráter absoluto, seu caráter de sistema capaz de congelar o mundo num modo fixo de ser. [...] Mas é claro que, apesar dessa visão corrente, cada uso singular da linguagem prova o contrário: que a linguagem se apossa da realidade não petrificando-a, mas reconstruindo-a por via imaginativa, por alusão, inferência e sugestão [...], tornando-a móvel e, em última instância, fugidia: tornando-a ‘transparente’. Assim, a linguagem não pode nunca servir aos ditames do poder, seja ele político, religioso ou comercial, a não ser sob a forma de um catecismo fixo de perguntas e respostas; por mais que queira, a linguagem é incapaz de fixar o que quer que seja. Nosso olhar ‘atravessa’ a realidade que a linguagem expõe, camada por camada, à maneira de um palimpsesto, de tal modo que, afinal, nossa leitura das histórias torna-se infinita, cada história aludindo a ou sugerindo outra mais abaixo, sem que nenhuma possa se afirmar como verdade última.”

Passagem de A cidade das palavras, de Alberto Manguel (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.32-33), na tradução de Samuel Titan Jr.

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Em busca de uma memória (quase) perdida

9 Fevereiro, 2009 - 9:25 pm

Há tempos, quando vasculho algumas lembranças da infância, principalmente ao recordar os programas que via na TV, sou assaltado por uma cena — uma simples e mísera cena — que logo me escapa, quase sem deixar rastros. O cenário é um desses anéis viários paulistanos que, vistos de cima, mais parecem um nó de concreto a se fechar. A gravação deve ter sido feita em um domingo bem pela manhã, porque a desolação do local é completa: não há carros, não há casas, não há viv’alma, a não ser pelos 4 ou 5 personagens (nunca consigo lembrar ao certo) que estão ali, presos na cena que se projeta na minha cabeça.

Quando surge, essa cena traz um turbilhão de emoções — tem uma aura melancólica, um quê do peso daquilo que jamais será alcançado; ao mesmo tempo, é patente a excitação e a irredutibilidade dos envolvidos em tentar encontrar uma solução para o problema que os aflige. Me parece que 2 ou 3 das pessoas presentes estavam viajando no tempo ou entre dimensões, até ficarem presas ali. E esse “ali” era algo como um mundo perdido, ou os resquícios de uma sociedade outrora magnífica, ou um refúgio humano em um planeta pós-apocalíptico. Um homem parece manipular celeremente uma engenhoca (à la telefone do E.T.) que o permitirá entrar em contato com alguém em seu planeta de origem, ou abrirá um portal de regresso, ou acionará as engrenagens de uma máquina do tempo. Ou algo assim. Porque é tudo muito vago nesse meu pedacinho de memória… Como costuma ocorrer, quanto mais me esforço por apreendê-la, mais ela se esvai!

Porém, neste sábado, algo fantástico aconteceu. Quase que por magia, enquanto dirigia pelas ruas de São Paulo rumo ao trabalho, um dos personagens subitamente ganhou rosto. Exatamente dessa forma: do nada! (E é pra entender como é que coisas assim acontecem, que na próxima encarnação eu quero voltar como neurocientista…) É óbvio que pode não passar de uma dessas tão comuns armadilhas de nossas mentes, mas ao que tudo indica o homem que tentava colocar a engenhoca para funcionar era Flávio Migliaccio. Era o que eu precisava para me lançar a uma busca semi-desesperada pelos confins da internet.

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Maneco é resgatado do esquecimento em "Os Porralokinhas"

E foi assim que (re)descobri — porque de fato não era uma informação que eu possuía, não ao menos conscientemente — o personagem Tio Maneco, vivido por Migliaccio entre as décadas de 70 e 80. Mal comparando, Maneco era um Professor Pardal tupiniquim, um personagem que transitava entre a fantasia e a ficção científica, incorporando ainda elementos da cultura popular brasileira. O personagem teve suas peripécias levadas ao cinema em Aventuras com Tio Maneco (1971), O caçador de fantasmas (1975) e Maneco, o supertio (1978). Mais recentemente, uma produção que para mim havia passado despercebida, Os Porralokinhas (2005), literalmente resgata o personagem, que volta a ser vivido, quase 30 anos depois, pelo mesmo Migliaccio. Os três primeiros filmes fizeram tanto sucesso que, ainda na década de 70, acabaram se desdobrando em uma série de cerca de 400 episódios. Meu fiapo de memória quase com certeza se relaciona a um deles.

Essa história de tentar recuperar uma recordação longínqua me fez lembrar de algo que li pouco tempo atrás num jornal. Noticiava-se que, acuada por uma crise financeira que só fazia alastrar-se, a TV Cultura via-se obrigada a inclusive reutilizar fitas antigas, aniquilando assim valiosa parte da memória da TV brasileira. Fico pensando se os episódios de Tio Maneco, que encantaram tantas crianças, não tiveram o mesmo e deplorável destino… Fico pensando se a história de viajantes perdidos em um mundo distante, que tanto me marcou anos atrás a ponto de voltar e voltar como uma assombração querida, não existe hoje apenas na minha memória e na de outras poucas pessoas apenas.

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Roy Batty (Rutger Hauer) agarra-se a seus últimos instantes de existência em Blade Runner

E tudo isso também me faz lembrar, com um travo de amargura, das belíssimas e derradeiras palavras do replicante Roy Batty, em Blade Runner. Fustigado pela chuva e agarrando-se com fervor à vida que lhe escapava, o Batty de Rutger Hauer contabilizava lembranças que só pertenciam a ele, expressava seu deslumbramento perante o mundo e, antes de morrer, sentenciava, sem perdão: “Todos esses momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva…” Como se nunca tivessem existido.

Escrito por Ronoc ¦

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Passeio de domingo #2

25 Janeiro, 2009 - 9:28 am

O prêmio Nobel de literatura José Saramago é acusado de plágio. Há 3 anos, o escritor mexicano Teófilo Huerta tenta provar que o livro Intermitências da morte, lançado por Saramago em 2005, tem pontos em comum demais com seu conto ¡Últimas Notícias!, publicado em 1987 como parte do livro La segunda muerte. Huerta mantém até um blog de onde dispara seus petardos contra o laureado escritor português. Para que cada um tire suas próprias conclusões, a revista eletrônica Cronópios resolveu publicar uma tradução do conto. Às comparações, pois! Ainda no campo dos grandes mestres, mas do lado de cá do Atlântico, os machadianos de plantão, se é que ainda não a conhecem, devem visitar a Machado de Assis em linha, revista eletrônica de estudos exclusivamente voltados à obra do Bruxo do Cosme Velho produzida pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Pra finalizar, uma dica estritamente bibliófila: uma entrevista com Coralie Bickford-Smith, designer inglesa de capas de livros responsável por algumas das mais inacreditavelmente belas edições que a Penguin tem lançado nos últimos anos.

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Pitada de sal #5

1 Janeiro, 2009 - 7:49 am

“O que acontecia, na verdade, era o que acontece em todas as revoluções, ou seja, que entre os dirigentes um pequeno grupo, que sempre acaba perdendo, se compõe de revolucionários convictos, enquanto o resto se compõe, de um lado, de homens influentes do governo anterior que mudam durante o processo e, de outro, de indivíduos que não estão nem com uns nem com outros e que se limitam a tirar proveito das circunstâncias inesperadas que os levaram ao poder.”

Passagem de As nuvens, de Juan José Saer (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.34), na tradução de Heloisa Jahn.

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2009: dez anos do primeiro homem em Marte

28 Dezembro, 2008 - 2:56 pm

Imagine que após séculos de sonhos e décadas de ensaio, a humanidade finalmente consegue por os pés em Marte, descobre que o planeta não só possui construções de fabulosa arquitetura, mas também — segurem seus queixos — é habitado por figuras que lembram, em muitos aspectos, os terráqueos. Imagine que os astronautas enviados nessa venturosa missão inaugural buscam a primeira casa que avistam, dirigem-se à porta, batem nela, vêem-na abrir-se e, quase engasgados de emoção, dizem: “Olá! Viemos da Terra!” Do outro lado, uma dona de casa marciana recebe a notícia com o entusiasmo de quem aguenta a lenga-lenga de vendedores de bugigangas…

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Quando ainda não havia spirits vasculhando o solo marciano e de lá nos enviando cartões-postais improváveis, quando metade do Planeta Terra era, ele sim, vermelho, e os comunistas ocupavam o posto de vilões favoritos da “América”, um autor norte-americano utilizava toda sua potência criativa para descrever a epopéia humana rumo a Marte. Ray Bradbury (1920- ) — talvez mais conhecido por Fahrenheit 451, que foi levado ao cinema por François Truffaut — lançou como livro, em 1950, a reunião de 26 contos que vinham sendo publicados em diversas revistas de pulp fiction. Ao conjunto, deu o título As crônicas marcianas (São Paulo: Globo, 2005).

Aqueles que torcem o nariz para a literatura de ficção científica, rotulando-a como escapista, alienada e alienante, não fariam mal em aprender uma ou duas boas lições com Ray Bradbury (com Philip K. Dick e William Gibson, também, só para citar mais dois grandes escritores do gênero).

Na verdade, As crônicas marcianas tratam, antes de mais nada, dos encontros e desencontros da espécie humana consigo mesma. E só por essa razão, sua leitura será valiosa hoje e no futuro, como foi em sua época. Busca por liberdade, por significado e compreensão da existência, limites da tolerância, identidade versus alteridade, choques culturais, desenvolvimento sustentável — são alguns dos temas que, com maior ou menor intensidade, atravessam as narrativas de Bradbury, conferindo-lhes profundidade e possibilidades de interpretação variadas.

Alguns contos, como Flutuando no espaço (pp. 159-179) e Usher II (pp. 182-203), escancaram o tom político, avançando sem pudores sobre questões chave dos EUA da época, como os direitos civis da população negra e o flerte com a censura trazido pela paranóia macartista.

“Os antigos nomes marcianos eram nomes de água, ar e de colinas. Eram nomes de neves que caíam no sul em canais de pedra para preencher os mares vazios. E nomes de feiticeiras enterradas, de torres e de obeliscos. E os foguetes esmagavam todos os nomes como marretas, transformando o mármore em argila, despedaçando os marcos de barro que davam nome às antigas cidades, e nesses escombros enfiavam-se postes suntuosos com novos nomes: CIDADE DO FERRO, CIDADE DO AÇO, CIDADE DO ALUMÍNIO…” (pp. 180-181) Estava Bradbury falando de foguetes humanos invadindo Marte, ou de caravelas singrando os mares rumo ao Novo Mundo? De astronautas, ou de garimpeiros em busca de um Oeste “selvagem”? São analogias óbvias, que o próprio autor se encarrega de alimentar ou explicitar aqui e ali nos contos. Mas deve-se destacar que essas aproximações, apesar dos 50 anos de idade, ainda obrigam a pensar, seguem provocando incômodo.

Em 2009, comemoram-se os 10 anos da primeira pegada humana deixada em solo marciano — ao menos se acreditarmos nos relatos de Bradbury… Prepare-se para as comemorações (re)descobrindo este clássico da ficção científica.

Escrito por Ronoc e também publicado no Blog da Cultura ¦

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Uma viagem pelas livrarias da Europa

25 Dezembro, 2008 - 2:51 pm

Não existe publicação que se assemelhe aos guias de viagem, mas que trate, de forma específica, exclusiva, de livrarias. Ao menos, não que eu conheça. (No Brasil, o que mais se aproxima disso é o excelente Guia de Sebos, elogiável iniciativa de Antonio Carlos Secchin, publicado pela Lexikon.)

Não existe publicação impressa, devo me corrigir. Porque há, na internet, o Bookstore Guide, que se apresenta como “um guia amador para compras de livros Europa afora”. Isso já esclarece algo sobre o guia e sua abrangência, mas é interessante saber que ele nasceu das mentes de Sonja (sérvia) e Ivan (eslovaco), quando eles passavam férias em Sarajevo, na Bósnia. Fruto da reunião de duas paixões — a de viajar e a de ler —, o BG apresenta as descobertas que o casal vai colecionando sempre que passeia pelo velho continente. Já são mais de 70 cidades visitadas e a lista continua crescendo.

Livraria Bertrand (Lisboa, Portugal)

Livraria Bertrand em Lisboa, Portugal: rumo aos 300 anos de existência.

O último local visitado foi a Livraria Bertrand, localizada no bairro do Chiado, em Lisboa, Portugal. A história da Bertrand daria um livro: fundada em 1732, destruída pelo terremoto que assolou a capital portuguesa em 1755, foi obrigada a se mudar para junto de uma capela enquanto as partes afetadas da cidade eram reconstruídas; demorou quase duas décadas, mas finalmente a livraria pôde voltar para a região em que havia sido fundada, desta vez na Rua Garret, por onde, diz um texto institucional no site da livraria, costumavam passar e permanecer em “acesas tertúlias” eminentes figuras da intelectualidade lusitana como Alexandre Herculano, Antero de Quental e Eça de Queirós. Sede do que hoje é uma cadeia de 52 livrarias espalhadas por todo o país, a Bertrand do Chiado arrebatou o primeiro posto no Top 5: Oldest Bookstores on the Continent, elaborado por Sonja e Ivan.

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Parece um palacete, mas é uma livraria.

Aliás, também é portuguesa a livraria que encabeça outro ranking (o Top 5: Impressive Appearance) mantido pelos criadores do BG. A suntuosa Lello & Irmão, localizada na cidade do Porto, poderia facilmente ser confundida com um palacete, de tão indescritível que é a beleza de suas também centenárias (abriu as portas em 1906) dependências. (Confira um tour virtual, provavelmente clandestino, pela livraria. E, no blog O Leitor, mais fotos da Lello, juntamente com um link para matéria do The Guardian em que o jornal inglês também exalta a beleza da livraria portuguesa.)

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A lendária Shakespeare and Company também está no Bookstore Guide.

Não se engane. O aparente domínio de livrarias portuguesas é apenas isso: aparente. Desde a lendária Shakespeare and Company (para quem não a conhece, vale a dica de dois ótimos livros que têm a livraria como personagem principal: Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, de Sylvia Beach, escritora e editora que fundou a livraria; e Um livro por dia, do jornalista canadense Jeremy Mercer, que seguindo o hábito de alguns assíduos frequentadores do local, viveu alguns dias literalmente entre livros) até uma pequena livraria na capital da Armênia, Yerevan, o BG traz inúmeros achados, capazes de deleitar até os que não são assim tão apaixonados por livros.

Não se trata de um guia impresso, mas em tempos de pequenas e maravilhosas engenhocas como iPhone e similares, o Bookstore Guide pode se converter num precioso companheiro de viagens.

Escrito por Ronoc ¦