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Transporte público, vícios privados

14 de dezembro de 2013 - 10:15 am

Congestionamento Monstro

Muitos autores de ficção científica das décadas de 1960, 70 e 80 pintaram as cidades do futuro — esse futuro que chegou e que virou nada mais do que nosso presente — em tons pessimistas, produzindo distopias que nos assombravam e alertavam para os (des)caminhos que tomávamos em nossas escolhas cotidianas e no panorama maior da vida política e econômica de nossas sociedades. Nos mostravam cenários de decadência acelerada povoados por milhões de seres humanos reduzidos a condições degradantes, vivendo amontoados, porém solitários, alimentando-se dos restos de uma sociedade pós-hecatombe industrial/nuclear.

Porém, nem mesmo mestres como Philip K. DickFrank Miller ou William Gibson poderiam ter imaginado algo que se assemelhasse a São Paulo. Cidade monstruosa, que dia e noite trama a extensão de seus cinzentos tentáculos para novas direções, promovendo a destruição da natureza e sua substituição pelo asfalto e concreto. “Lar”de quase 20 milhões de almas (se levarmos em conta toda a mancha urbana), São Paulo é um dos maiores desafios jamais imaginados para governantes, urbanistas e todos aqueles que tentam compreendê-la e domá-la. Sobretudo quando se fala em transporte.

Mais do que construir linhas de metrô ou corredores de ônibus, o desafio em São Paulo está em construir uma nova mentalidade em sua população. Por exemplo, torná-la mais afeita às formas de transporte coletivo e alternativo. Em São Paulo (e de resto em toda grande e média cidade brasileira, com as raras exceções de sempre), a ideia de mobilidade é diretamente ligada à posse e ao uso do carro particular. Por muito tempo, o carro foi (e ainda continua sendo) o sonho de consumo de boa parte da população adulta brasileira. Símbolo de status, de independência, de sucesso. Mesmo os mais humildes reservam partes consideráveis de suas parcas economias para em algum momento adquirir — com prestações a perder de vista — o veículo próprio da família. Ele é visto como o símbolo máximo da conquista material. Claro que essas ideias são massivamente despejadas para dentro do imaginário das pessoas por horas e horas de propaganda televisiva em que o automóvel — não importa o modelo ou marca — desfila impávido e triunfal por ruas quase sempre vazias (quimera inventada por agências a serviço da indústria automotiva), transportando dentro de si indivíduos sorridentes, satisfeitos, realizados — o suprassumo da civilização, os vencedores da árdua luta diária travada no mundo moderno.

Talvez por isso, iniciativas como a que ora toma forma na cidade de São Paulo enfrentem resistência de uma parcela considerável de sua população. Mesmo que as pesquisas indiquem que a ampla maioria apoie a implantação de faixas exclusivas para ônibus, mais de 10% (um contingente expressivo) considera essas medidas “populistas”, “irracionais”, e até mesmo “inconstitucionais”(sic!).

Se for para usar argumentos racionais, o carro é de longe a pior alternativa para transportar o mesmo número de pessoas: ele ocupa mais espaço e emite mais CO2.

Por mais que toneladas de estudos apontem o esgotamento do modelo adotado por São Paulo no passado e que se apoiava no uso massivo de veículos individuais, a discussão parece não se dar mais no plano da racionalidade, mas sim no da paixão. É fato: as pessoas são apaixonadas por seus carros — novamente, este é um veio muito explorado pelas agências de propaganda. (Basta ver os que gastam horas de seus fins de semana lavando, encerando e lustrando até pneus…) E é difícil argumentar quando os sentimentos estão em jogo. Mas este talvez seja apenas o lado mais “romântico” da questão. E mais ingênuo.

Contudo, há outro ângulo que muitas vezes não é abordado. E talvez seja ele o mais importante de todos. Por mais que se negue, há uma ideologia arraigada na sociedade brasileira — e na paulistana em especial — de segregação social do espaço. Claro que em todo canto do planeta isso ocorre, mas no Brasil e em São Paulo essa realidade é mais aguda. Não vou entrar em detalhes, mas os geógrafos, sociólogos e antropólogos têm centenas de estudos a respeito e podem confirmar que não estou forçando a barra. Há na cultura brasileira um descaso patente ao que é público — e, em contrapartida, uma supervalorização dos bens privados. (As raízes disso, como bem apontou Sergio Buarque de Holanda, ou como aprofundou Raymundo Faoro, para citar dois estudos clássicos, remontam à forma como se deu nossa colonização.) É difícil vermos, mesmo nas cidades mais ricas, boas praças, bons parques, boas bibliotecas públicas — todas e todos sucateados, quando existem. No entanto, temos uma variedade de focos de suntuosidade privada, com mansões que lembram castelos, apartamentos que equivalem ao tamanho de 5 ou 6 moradias médias, casas de campo e de praia que parecem cenários de filme norte-americano etc. etc.

A iniquidade brasileira é famosa e persistente. Séculos de história construíram cenários urbanos em que tudo fica “no seu devido lugar”, isto é, uma parte ínfima da sociedade fica com o que há de melhor, enquanto a imensa maioria se digladia para repartir os nacos que sobram de nossa pujante economia.

Grandes cidades, como São Paulo, veem na irrefreável expansão da malha urbana um de seus maiores dramas e paradoxos. Para que a economia cresça, é necessário gente, muita gente — ou ao menos foi assim, no modelo econômico do século XX. Mas como a forma de repartir a riqueza produzida mantém-se precária, grandes contingentes de seres humanos, com poder de compra bastante restrito, são obrigados a procurar, cada vez mais longe dos polos econômicos da cidade, locais minimamente adequados para fixarem residência. Daí o crescimento explosivo das periferias no país inteiro. E desse movimento, nasce, como consequência clara, uma superdemanda por transporte, seja público ou privado.

Encontram-se, então, as duas pontas da cobra. A mesma e pequeníssima porção da sociedade que fica com a maior parte da riqueza produzida por todos, e que consciente ou inconscientemente alimenta uma lógica que expulsa os mais pobres para cada vez mais longe, torce o nariz para melhorias evidentes no transporte daqueles que são relegados à periferia da cidade — melhorias estas que trariam, inclusive, mais fôlego ao modelo econômico vigente.

É óbvio que a implantação de faixas exclusivas é apenas um arranhão no problema do transporte em São Paulo. Contudo, é um primeiro passo — que outros governantes ou não deram ou fingiram acreditar que não fosse necessário. Um primeiro passo que, até simbolicamente, marca uma virada naquilo que deve ser priorizado: o espaço público, o bem comum, o direito de todos de ir e vir.

@Ronoc_

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Pitada de sal #18

12 de setembro de 2013 - 10:34 pm

António Lobo Antunes

“De facto, e consoante as profecias da família, tornara-me um homem: uma espécie de avidez triste e cínica, feita de desesperança cúpida, de egoísmo, e da pressa de me esconder de mim próprio, tinha substituído para sempre o frágil prazer da alegria infantil, do riso sem reservas nem subentendidos, embalsamado de pureza, e que me parece escutar, sabe, de tempos a tempos, à noite, ao voltar para casa, numa rua deserta, ecoando nas minhas costas numa cascata de troça.”

António Lobo Antunes em Os cus de Judas (Rio de Janeiro: Alfaguara / Objetiva, 2a. ed., 2010, p.28).

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Como dizer adeus a quem se ama…

12 de julho de 2013 - 5:29 am

livro_tibetano“Às vezes, a pessoa que vai morrer pode resistir por muitos meses ou semanas além do que os médicos previram, e passar por um tremendo sofrimento físico. [...] para essas pessoas se sentirem prontas para deixar tudo e morrer em paz, elas precisam ser tranquilizadas verbal e explicitamente por aqueles que amam sobre pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, precisam obter deles permissão para morrer, e em segundo ter a certeza de que estarão bem depois que ele ou ela se for, e que não há motivo para preocupação a respeito.

Quando alguém me pergunta qual a melhor forma de dar permissão para morrer, peço-lhe que imagine a si próprio diante do leito da pessoa que ama, dizendo-lhe com a mais profunda e sincera ternura: ‘Estou aqui com você, e eu o amo. Você está morrendo e isso é absolutamente natural; acontece com todos. Gostaria que pudesse ficar aqui comigo, mas não quero que sofra mais. O tempo que passamos juntos foi muito bom e vou sempre me lembrar dele com carinho. Por favor, agora não se agarre à vida por mais tempo. Solte-se. Dou a você a minha plena e sincera permissão para morrer. Você não está sozinho agora, e nem estará nunca. E tem todo o meu amor’.”

Sogyal Rinpoche em “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (São Paulo: Talento / Palas Athena, 12a. ed., 2010, pp. 237-238)

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As memórias que guardo de meu pai #1

11 de julho de 2013 - 11:25 am

Imagem compartilhada pela querida amiga Danielli

Fico impressionado como o mecanismo do trauma ao mesmo tempo tem o poder de bloquear e libertar nossas memórias mais profundas. Certa vez, ao sofrer um acidente de bicicleta tão grave que chegou a rachar meu capacete (que salvou minha vida, imagino), percebi que uns 20 a 30 minutos daquele episódio simplesmente haviam sido apagados da minha mente. Lembrava (e ainda lembro) apenas de momentos antes do acidente acontecer, e depois de aparecer como por encanto em um banheiro com a testa ensanguentada e dois senhores me amparando. Entre uma coisa e outra, é como se nada existisse. O médico logo me corrigiu: o episódio não havia sido apagado. O mais correto, explicou, seria dizer que um mecanismo complexo de nosso cérebro nos ajuda a superar momentos traumáticos “trancafiando” as memórias deles em algum canto bem escondido de nossa cabeça. A memória está lá, mas fica inacessível. Para nos proteger da dor…

Agora que meu pai se foi, contudo, o trauma está agindo no sentido oposto, trazendo à tona episódios que eu nem sabia mais que haviam existido. Vêm falas, imagens, silêncios e gargalhadas, brotando num ímpeto que às vezes se torna até opressor tamanha a dificuldade de lidar com tantas emoções que se atropelam — todas urgentes, todas necessárias, todas alucinadamente se arremessando em minha consciência, exigindo minha atenção, implorando para que eu as coloque numa ordem lógica qualquer, que faça algum sentido. Qualquer um, mas que traga isso: sentido.

Muito provavelmente, estou equivocado. O que deve estar agindo neste momento deve ser algum mecanismo tão poderoso quanto, mas disparado pela perda. E esses fragmentos de lembranças voltam porque talvez eu esteja tentando desesperadamente me agarrar a cada pedaço vivo (ainda que intangível) de meu pai. Como se magicamente fosse capaz de reconstituí-lo. 

Independente das minhas ou das suas crenças, o fato é que meu pai continua vivo em mim — e nas pessoas que ele tocou durante sua passagem por este planeta. E o sentido biológico disso é o menor e menos importante. Ele continua em tudo que presenciei e compartilhei com ele, em tudo que me ensinou, ou que me deu a chance de experimentar. Esse patrimônio, pretendo passá-lo da maneira mais fiel possível à minha filha, para que ela saiba de onde vieram suas raízes, para que ela possa compreender melhor seu próprio pai, sabendo a origem de minhas virtudes e defeitos.

Sei que tudo isso talvez só diga respeito a mim, e à minha família. Porém, vou deixando aqui registrado, para que não se perca, para que uma espécie de legado (palavra que aqui soa tão pretensiosa, desculpem) vá sendo criado. Para que eu siga compartilhando meus dias com a memória de meu pai.

por Ronoc |

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Pitada de sal #17

29 de dezembro de 2010 - 8:17 am

Maria Rita Kehl“A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibi- cionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosa- mente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. Se o tédio, o spleen, o luto e outras formas de abatimento são malvistos no mundo atual, os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber.”

Maria Rita Kehl em passagem de seu O tempo e o cão: a atualidade das depressões (São Paulo: Boitempo, 2009, p.22).

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A vida é um jogo

12 de dezembro de 2010 - 9:09 am

O grande jogo de Billy Phelan, de William KennedyAs ruas de Albany, capital do estado de Nova York, nos anos que sucederam a Grande Depressão formam o cenário deste romance que a editora Cosac Naify escolheu para apresentar — ou reapresentar, já que algumas de suas obras já haviam circulado por aqui na década de 1980 — ao público brasileiro o autor norte-americano William Kennedy. Com O grande jogo de Billy Phelan (São Paulo: Cosac Naify, 2009, 344p.), a editora deu início à publicação no Brasil do chamado Ciclo de Albany, conjunto de sete livros que têm a cidade como pano de fundo e as tor- tuosas relações entre seus habitantes como foco. À medida que escrevia as obras, o autor começou a perceber que elas constituíam “uma série aberta de narrativas não-seqüenciais, cada uma das quais se concentrava num único indivíduo que conduzia histórias alheias, cada uma delas escrita como obra capaz de se afirmar por si só, independente das demais do Ciclo; ainda assim, todos os livros se entrelaçavam” [1].

Neste primeiro ato, conhecemos o jovem Billy Phelan, uma “estrela” da noite de Albany, especialmente dos jogos que reúnem sua gente e animam sua sofrida existência. Seja nas pistas de boliche, nas mesas de pôquer ou de bilhar, ou ainda administrando as apostas nas corridas de cavalos, Billy é um exímio jogador. Do jogo vem seu sustento. No jogo exercita toda sua habilidade, aplica todo seu conhecimento.

Pouco a pouco, Kennedy vai nos deixando claro que nesta história o que está em jogo é a própria vida de Billy Phelan. O jogo tem suas regras: os códigos não escritos que regem as relações do submundo, os cógidos de honra e solidariedade que domesticam e influenciam as tensões sociais, unindo e afastando as pessoas; a linguagem do poder, que tem de ser compreendida desde cedo: Manda quem pode, obedece quem tem juízo… Afinal, o jogo tem seus donos. Senhores do mundo e do submundo de Albany, a família McCall domina a política, a economia e a jogatina da cidade. Quem quiser mover-se por qualquer um desses domínios — ou seja, quem quiser viver por ali — tem que lhes prestar vassalagem.

Mas deve ser assim sempre? Não haverá brechas por onde se mover, espaços a conquistar, caminhos alternativos a percorrer? É isso que Billy parece questionar durante todo o romance. Será o baixar a cabeça e aceitar o que se apresenta à sua frente a única saída? Mas, esperem, entrar nesse jogo não é para qualquer um. Sair derrotado de uma pista, de uma mesa, de um salão é uma coisa — mesmo que você saia com uma dívida impossível de saldar –; no grande jogo de Albany, o que se joga, como já dissemos, é o direito de existir. E Billy sabe disso muito bem.

O livro começa com Billy fazendo o impossível numa pista de boliche, acertando strike após strike e se aproximando magicamente da perfeição, que lhe escapa por um triz; e termina com Billy equilibrando-se entre forças poderosas que ameaçam lhe fechar todas as portas de sua cidade, tirar-lhe o oxigênio, quase como quem joga para fora de um aquário um peixe que passou ali toda a sua vida. Billy é sim um jogador nato. Conhece as regras do jogo. Conhece-as tão bem, que consegue subvertê-las, colocando-se acima delas. Jogando na defensiva ou sendo arrojado aos limites da imprudência, Billy tenta iludir e superar seus adversários, um a um, ou todos juntos, numa grande e intrincada disputa.

Logicamente, como já se disse e o próprio título enfatiza, Billy é o foco principal deste primeiro romance do ciclo. Mas há muito mais em O grande jogo de Billy Phelan. A relação pai-filho, que tantas obras-primas legou à literatura, ao cinema, à música ou a qualquer outra das artes, ocupa também aqui o papel de uma das molas propulsoras da trama. Seja na dolorosa ausência do pai de Billy, Francis Phelan, — personagem, aliás, que toma o centro de outro dos livros do ciclo de Albany, Ironweed, também lançado pela Cosac Naify –; seja na relação de outra figura importante, o jornalista Martin Daugherty, com seu pai, um escritor e dramaturgo que custou para ver sua obra ser reconhecida (algum paralelo com o próprio Kennedy, que também sofreu para obter reconhecimento?). Martin ainda atua como uma espécie de “narrador paralelo” da história de Billy, compondo um mosaico de vozes e reflexões que só faz tornar a obra ainda mais interessante de se ler.

- Ω -

Vale dizer que quem me indicou — já faz um bom tempo — O grande jogo de Billy Phelan foi meu amigo Diego Blanco. Todo reconhecimento para sua dica e também para sua persistência, porque foi graças a ela que pude finalmente conhecer William Kennedy. Aliás, quem quiser saber mais sobre o mundo da cultura, da política e da economia sob ângulos nada convencionais precisa ouvir o Num faz cabimento, podcast “de cunho anarco-partidário, sem fins lucrativos e desenvolvido por quatro caras que não têm o rabo preso com ninguém” que o Diego e outros três amigos (o Dionisius, o João e o Ricardinho) jogam nas teias da rede semanalmente. Realmente imperdível!

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Desvendando a argentinidade

3 de agosto de 2010 - 10:43 pm

Tão perto, tão longe? — com O atroz encanto de ser argentino, Marcos Aguinis constrói um roteiro para visitar, e compreender, a alma profunda do povo argentino (*)

Existia uma anedota que dizia ser o argentino um italiano que falava espanhol e pensava ser inglês. Mas isso são brincadeiras de tempos idos, diriam os antigos. O argentino não é mais um europeu perdido em terras sul-americanas. Há algum tempo se vê que, final e desafortunadamente, a Argentina se “latino-americanizou”. No entanto, por mais incômodo que seja, não podemos esquecer que ainda falta piorar muito para que a Argentina chegue à condição de desequilíbrio social que assola e sempre assolou o Brasil. Ainda que não sejam portadores da verdade absoluta — e não o são — índices como o IDH da ONU são um bom ingrediente para azedar o humor duvidoso daqueles brasileiros que, num cúmulo de covardia e sadismo, comprazem-se com a derrocada aparentemente interminável dos “rivais” argentinos.

Mesmo vivendo há pouco mais de meio século uma decadência recentemente acelerada, a Argentina mantém em quase todos os aspectos sociais uma vantagem absurda sobre o Brasil. Exércitos de miseráveis espalhados pelas maiores cidades, crianças morrendo por falta de alimento, falência dos sistemas de ensino e saúde públicos são, para o argentino, atordoantes novidades com as quais lamentavelmente o brasileiro há tempos pareceu se acostumar. Estar atento a essa realidade é um passo importante para conhecer melhor nosso vizinho austral, mas não o bastante.

O que faz Marcos Aguinis em seu O atroz encanto de ser argentino (São Paulo: Bei Comunicação, 2002) é justamente nos auxiliar, abrindo caminhos a esse embrenhado complexo que é o âmago do ser argentino. O livro é um ensaio aparentemente despretensioso mas que, à medida em que avançamos, vai ganhando liga, se agigantando e termina por nos arrebatar e surpreender completamente: a mistura fina de leveza e profundidade, de auto-ironia e compromisso político sem dúvida encantam e fazem com que a aproximação do leitor brasileiro com o universo argentino se dê quase que de forma natural.

Os temas oscilam do político ao cultural (às vezes com abordagens que lembram o antropológico), resvalando em pequenos eventos do cotidiano, voltando ao político, ao social, valendo-se de breves retomadas históricas. Em cada frase, em cada passagem, em cada página, Marcos Aguinis parece atormentado, tomado por uma angústia inelutável, a de querer buscar e apresentar, a si, aos seus compatriotas, ao mundo, uma explicação plausível para a atual condição argentina.

Uma seqüência de imagens traduz de forma quase irretocável esse clima. Com um truque cinematográfico simples mas de impacto visual muito forte, numa Buenos Aires entristecida e submetida a aterradoras nuvens escuras (ou a uma única e interminável nuvem escura), o povo nas ruas, multidões de indivíduos silenciosos, cabisbaixos, marcha melancolicamente para trás — vale a referência: o filme é A Nuvem (La Nube, Argentina, 1998), de Fernando Solanas.

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

É necessário compreender para superar. E é por isso que duas questões permeiam todo o livro: por que tudo deu tão errado? e como reverter o que parece acabado? A obsessão por responder a essas perguntas deve — o que é mais do que compreensível — ter se tornado uma epidemia nacional. O desempenho comercial do livro é eloqüente: num intervalo de cerca de um ano, nada menos que 17 edições foram avidamente absorvidas pelo público argentino.

O ATROZ ENCANTO DE SE VER REFLETIDO

Há mais de argentino no brasileiro e mais de brasileiro no argentino do que nossos vis preconceitos nos permitem enxergar. “Se quiséssemos simplificar as diferenças entre brasileiros e argentinos, poderíamos dizer que os primeiros se divertem ao ritmo do samba e os segundos choram ao ritmo do tango. A alegria do Brasil contrasta com a melancolia da Argentina.”, diz Marcos Aguinis na introdução à edição brasileira de seu livro. Perdoável equívoco. Como o tango, as raízes profundas do samba também se alimentam da tristeza das populações marginalizadas, como tão lindamente e para sempre nos lembrará Vinícius de Moraes em “Samba da Bênção”. Esse — o paralelo entre samba e tango — será apenas um dos tantos pontos de contato com que nos depararemos no decorrer da leitura.

A adesão ao personalismo e a conseqüente aversão às instituições, ou mesmo a alergia a qualquer tipo de lei ou regra, identificadas por Aguinis como ervas daninhas que vicejam na alma coletiva argentina, não por acaso nos lembram (como bem nota Pedro Malan no prefácio) o que dizia Sérgio Buarque de Holanda a respeito do brasileiro, sendo essas algumas das características negativas do que ele chamou de “homem cordial”.

Da mesma forma o ventajero ou vivo argentino — que recebeu um ácido e talvez definitivo retrato na recente película Nove Rainhas (Nueve Reinas, Argentina, 2000), de Fabián Bielinsky —, o famoso trambiqueiro que sobrevive da inocência de terceiros, aplicando golpes em série e se vangloriando disso, não é de forma alguma personagem estranho ao dia-a-dia do brasileiro. Maus hábitos de uma determinada parcela da população e que, às vezes com a anuência silenciosa de todos, acabam se transformando em rótulos negativos fáceis e por isso mesmo largamente difundidos mundo afora, também não nos despertam estranheza. Segundo Aguinis, muito da imagem que circula pelo mundo do argentino como um ser arrogante e espaçoso provém do cultivo e da aceitação, internamente, desses hábitos que desunem e geram tensão. Alguma semelhança com a irritante mania de certos brasileiros, sejam eles poderosos ou humildes ao extremo, de “levar vantagem em tudo” e ainda se gabar disso?

Nove Rainhas (Argentina, 2000): ou da execrável arte de passar a perna em todos à sua volta

Recuando à época colonial para investigar as raízes dos tropeços que deitaram por terra aquela que já foi uma das nações mais ricas e desenvolvidas do mundo, Aguinis nos confronta com mais um ponto facilmente reconhecível pelo público brasileiro. A ojeriza pelo trabalho, que era visto como tarefa de seres inferiores, escravos ou não, e a predileção pelo ganho fácil, que evitava a todo custo o risco do empreendimento concreto, jogava e continua séculos depois a jogar muitos dos donos do dinheiro a uma sanha especulativa desenfreada e escapista, pouco atrelada a atividades que promovam, mesmo que com imperfeições, o desenvolvimento da coletividade. Entre esforço e risco, e ócio e ganho fácil, não havia e não há muitas dúvidas.

Junto a isso, uma mítica crença de que tudo se resolve magicamente por si só — dá-se um jeitovamos tocando, e por aí vai — contribuiu para que problemas estruturais, mesmo quando identificados, nunca fossem encarados de frente, com a seriedade e firmeza necessárias.

Outro ponto de semelhança: a infantil necessidade de aprovação externa, o nefasto complexo de inferioridade que, desculpem a insistência, também não nos é nem um pouco desconhecido. Aguinis cita alguns exemplos. Entre eles, o esbanjamento insano de recursos públicos promovido à altura da comemoração do centenário (1810-1910) da revolução de maio (que marcou o início da emancipação argentina) com o único intuito de provar aos milhares de estrangeiros convidados o tão almejado pertencimento ao restrito clube das nações desenvolvidas. Enquanto o dinheiro escoava descontroladamente para festas e celebrações, muitos desses observadores internacionais, contudo, preferiam, mal-agradecidos, destacar os escândalos de uma justiça e de uma administração pública ineficientes e/ou corrompidas. Todos viam, mas os argentinos preferiam fazer de conta que não, aguilhoa o autor.

Mas nem tudo são espinhos. Um dos trechos mais belos do livro é aquele em que Marcos Aguinis investiga origens e desenvolvimento do tango. Uma das mais caras jóias do hoje combalido orgulho argentino, o tango sofreu para ser aceito pela “sociedade”. Exemplo perfeito daquele complexo de inferioridade que já mencionamos acima. Foi necessário ocorrer a aprovação externa do tango para que este fosse finalmente abraçado pelo povo argentino como um todo e elevado ao patamar de bem cultural nacional inestimável. Oriundo do “arrabalde”, do subúrbio, gestado em mentes e corações “impuros” e renegados, o gênero foi primeiramente taxado de sexualmente apelativo, de insolente e inconveniente pelas classes mais altas. Mas o tango, como sagazmente nos mostra o autor, talvez seja uma das mais perfeitas representações do que é ser argentino: em tudo que carrega de dor, de esperanças, de ideologias dos múltiplos povos que se reuniram para formar o que hoje é a Argentina. O tango é essencialmente a miscigenação de almas e, talvez por isso, se perpetue através dos tempos, sofrendo transformações maiores ou menores, no coração de tantas e tantas gerações.

COMENTÁRIOS SOBRE O OBJETO EM SI

Ainda que nos últimos anos possamos notar uma crescente preocupação das editoras em ter um cuidado especial no aspecto físico de seus livros, raras vezes se viu no mercado editorial brasileiro um projeto gráfico tão belo mas, sobretudo, tão pleno de pertinência como o que nos oferece este O atroz encanto de ser argentino.

Não quero parecer fetichista, mas sob certo aspecto o livro já cumpre seu papel mesmo sem ser lido. Porque para aquele que simplesmente o manuseia, sem dele sequer ler uma frase, o livro já se oferece rico em possibilidades simbólicas.

Na capa, contra-capa e lombada predominam tranqüilas as cores branca e azul-clara, que remetem obviamente à albiceleste bandeira argentina, e de alguma forma preparam as emoções do leitor para o que ele irá encontrar à frente.

O papel utilizado na impressão, como nos adverte uma pequena nota ao final do livro, é um novo produto de uma companhia brasileira, um papel reciclado que, ainda segundo a nota, tem parte de sua composição proveniente de uma cooperativa de catadores de papel, e reverte uma porcentagem da renda gerada com sua comercialização para o sustento de uma organização não-governamental que apóia projetos socioambientais. Numa época em que, tanto cá como lá, não suportamos mais ouvir a cantilena do sacrifício de tudo e de (quase) todos em nome exclusivamente de responsabilidades fiscais, que na maior parte das vezes esgotam-se em si mesmas, uma iniciativa empresarial como essa, com intenções ecológico e socialmente responsáveis, não deixa de ser um bom indicativo. Mas podemos tomar a adoção desse papel reciclado como uma mensagem metafórica — simpática não só aos argentinos mas também a todos aqueles povos que, como nós, sabem o que é viver numa espécie de inesgotável crise social — de que vale a pena insistir, lutar, se reinventar. Há e sempre deve haver esperança de renascimento, mesmo quando as coisas parecem ter sido arremessadas ao abismo infinito.

Mas o detalhe, ainda para falar apenas da parte física do livro, que mais chama a atenção é mesmo a capa. Com rara felicidade se decidiu que a capa seria prateada, de um prateado brilhante, o que evoca a viagem etimológica que Aguinis promove a respeito do vocábulo Argentina: prata que seduziu e atraiu milhões de pessoas de todo o mundo, aguçando ganâncias e rivalidades, prata que deu nomes e se fixou para sempre no imaginário argentino, também como sinônimo de dinheiro. Mas a prata brilhante da capa é também um quase-espelho, volta-nos uma imagem um tanto turva, pouco definida, mais adivinhada que exata. É, penso eu, a grande chave de todo o livro. É o convite definitivo à reflexão: em dois dos sentidos que a palavra refletir comporta: pensar, meditar sobre algo, mas também espelhar.

Quem lê esse Atroz Encanto de Marcos Aguinis vê o quão imbecil é essa rivalidade que durante anos e anos foi sendo erguida entre brasileiros e argentinos, vê, repito, quantos são os pontos, positivos e negativos, de contato entre nossos dois povos. Me ocorreu várias vezes durante a leitura que este deveria ser um livro entusiasticamente recomendado a estudantes do ensino médio e superior: talvez assim pudéssemos ver finalmente pulverizada a muralha que esconde brasileiros de argentinos e vice-versa. Talvez assim víssemos nascer uma nova e única nação, construída sobre o verdadeiro e belo sentido da palavra hermano/irmão.

Para retomar A Nuvem, lembremos da luta pela preservação da memória que o filme apresenta. O embate se dá com o novo, que se coloca de forma incisiva, inapelável, apagando violentamente qualquer vestígio de lembrança de pessoas, de eventos, da História. Não se trata de uma luta pelo conservadorismo, mas tão-somente pela preservação da identidade, pela possibilidade do auto-conhecimento. Na verdade, este é um desafio comum a argentinos e brasileiros. É como se ambos devessem aceitar o novo, mas pesando-o, julgando-o, recuperando também o que de bom oferece o passado, as origens comuns, e, por meio deste retorno, construir uma história única. Uma história na qual gigantes adormecidos acordam de um profundo pesadelo e apresentam-se ao mundo como irmãos fortes, capazes de enfrentar juntos as turbulências do presente.

P.S.: Quem quiser conhecer melhor Marcos Aguinis pode acessar sua página na internet, em www.aguinis.net. Entre outras informações, pode-se ter uma idéia de sua vasta produção literária, que é composta por mais de vinte livros, divididos em ensaios, romances, contos e biografias.

Escrito por Ronoc ¦

(*) Texto publicado originalmente em janeiro de 2003, no número 11 da (agora finada) revista eletrônica Rabisco.

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