Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!
Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.
Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres(São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.
Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história. Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem de vida nebulosa, misantropa, de aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.
Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.
De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.
- Ω -
Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.
Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.
Curiosos os caminhos que nos levam aos livros. Eu, que trabalho com eles, confesso que tinha prestado pouca atenção ao Tobias Lolness – A vida na Árvore (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 351 p.) quando foi lançado, uns dois meses atrás.
Semana passada, porém, graças ao apurado faro bibliotecário de minha esposa, redescobrimos a obra, espremida entre tantas outras numa pequena (a única, até prova em contrário) livraria na belíssima Paraty. Do toque na capa em alto-relevo, do rápido folheio de algumas páginas, que revelaram, além da história, as bonitas ilustrações de François Place, brotou o interesse. Como assim uma aventura de um menino de 13 anos e que não mede mais do que 1 milímetro e meio, e que habita uma árvore, aliás, a Árvore? Mesmo com a pulga, ou melhor, com o minúsculo menino atrás da orelha, não levamos o livro.
Mas assim que voltamos para São Paulo, foi uma das primeiras coisas que fiz.
A editora o apresenta como uma saga ecológica, ganhadora de inúmeros prêmios literários infanto-juvenis (como o Saint-Exupéry), e capaz de suscitar a reflexão sobre “os limites éticos da ciência, da indústria e da política”, levando ainda o leitor a “repensar o racismo e a intolerância em relação às diferenças sociais”.
Esqueça os prêmios (afinal, muitas vezes eles miram mais nas trajetórias políticas do que propriamente em qualidades literárias) e a apontada lista de nobres intenções do texto (que servem mais de isca para adoções escolares) e entregue-se — como eu fiz — à obra em si.
Timothée de Fombelle, criador de Tobias Lolness: falando da Árvore para falar de todos nós.
Contada num ritmo envolvente, alinhavando as frases aqui e ali com um quê de poesia, lançando mão de uma estrutura narrativa que esconde, revela, esconde, revela, o que mantém uma certa tensão e, sem dúvida, retém a atenção do leitor, a história do menino Tobias avança de forma prazerosa. Tem falhas, é óbvio, como apresentar personagens ou eventos que logo em seguida simplesmente são deixados de lado, o que nos faz duvidar se não seriam dispensáveis — e isso mesmo sabendo que falamos apenas da primeira parte de uma história dividida em duas (a continuação ainda não tem data para ser lançada no Brasil). Mas de uma maneira geral, Tobias Lolness surpreende positivamente sobretudo aqueles que à primeira vista o enquadram na restritiva (e muitas vezes injustiçada) categoria de “livro para criança”.
Filho do mais renomado cientista da Árvore, Tobias é um menino esperto, em certo sentido precoce, com uma sensibilidade aguçada, que lhe permite captar toda a beleza que seu mundo lhe oferece — e que muitas vezes escapa aos demais. Corajoso e dono de um espírito libertário, logo no início do livro ficamos sabendo que o menino encontra-se envolvido em uma perseguição que mobiliza toda a sociedade da Árvore. O perseguido? Sim, ele mesmo, Tobias. Por que todo um povo persegue, com uma sanha incontrolável, um menino de 13 anos de idade? É isso que Timothée de Fombelle vai revelando pouco a pouco, auxiliado a cada par de páginas, pelo ilustrador François Place.
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Trecho:
“Todavia o professor Lolness sabia que o conhecimento é um universo que não cessa de expandir os seus limites. Às vezes, ocorria-lhe comparar o conhecimento à própria Árvore.
Isso porque o pai de Tobias defendia a ideia louca de que a Árvore crescia.
Esse era um dos temas mais desconhecidos da ciência e a verdadeira paixão do professor. Todos os sábios se desentendiam a esse respeito. A Árvore se transforma? Ela é eterna? Qual é a sua origem? Haverá um fim do mundo? E, sobretudo: haverá vida fora Árvore? Essas questões provocavam intenso debate, e Sim Lolness não concordava com nenhuma das ideias de seus colegas.
Seu livro a respeito das origens da Árvore foi muito mal recebido. Ele tivera a ousadia de contar a história da Árvore como se ela fosse um ser vivo. Afirmava que as folhas não eram plantas independentes e sim as extremidades de uma imensa força viva.
O que mais chocou seus leitores foi o fato de um livro que era sobre as origens falar na verdade sobre o futuro. Se a Árvore era viva, como uma floresta de musgo, isso significava que era frágil e seria preciso tratar bem daquele grande ser que lhes abria os braços.” (p.68)
“Por que não estou escrevendo este livro mais depressa? Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’? Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo — NÃO escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”
Gay Talese refletindo com seus elegantes botões e alfinetando alguns de seus pares em Vida de escritor (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.403; tradução de Donaldson M. Garschagen)
“Penso muito no futuro dos livros. Podem continuar a competir com as formas rápidas, baratas, fáceis, que não exigem leitura nem pensamento? Devo dizer que sim, ou que alguns deles estão tentando. Muitos livros hoje são escritos tendo o cinema em mente. Dizem que alguns editores não publicarão um livro se não houver a possibilidade de vendê-lo para o cinema. E até o escritor em muitos casos se envolve, meio escritor e meio vendedor. Tem de ficar numa livraria rotulando seu produto com seu nome. Tem de ir a programas de televisão e tornar-se um macaco treinado. Deve sujeitar sua vida privada, sua vida sexual e seus músculos, até mesmo seu cabelo, ao olhar boçal de seus possíveis leitores. Dizem que está abandonando o livro caso não faça essas coisas. Estará sendo anti-social caso não permita que as revistas populares registrem seu café da manhã e sua esposa ou esposas em papel lustroso.
Não acredito que um livro possa competir com seus rivais nos termos deles. Por outro lado, eles não podem competir com o livro nos termos deste. Nenhum outro meio, exceto a música, pode como ele ‘atrair a mente e as emoções’. Não se pode conceber um filme como pessoal, como um livro amado é pessoal. Nenhum programa de televisão é amigo como um livro é amigo. E nenhum outra forma, exceto outra vez a música, convida à participação do receptor como um livro faz.”
John Steinbeck em texto da década de 1950 e que faz parte de A América e os americanos(Rio de Janeiro: Record, 2004, p.209; tradução de Maria Beatriz de Medina).
“Em 1939, Jorge Luis Borges, famoso escritor argentino quase cego com genial pendor para uma fantasia literária obscura, escreveu um curto ensaio chamado ‘A Biblioteca de Babel’, prevendo os horrores da biblioteca infinita, sem centro, sem lógica [...] um caos de informação, ‘composta de um número indefinido e talvez infinito de galerias hexagonais’.
‘A Biblioteca de Babel’ de Borges é a internet de hoje — anônima, incorreta, caótica e esmagadora. É um lugar onde não há realidade concreta, não há certo e errado, nenhum código moral vigente. É um lugar onde a verdade é seletiva e está constantemente sujeita a mudança. A experiência de surfar na internet é análoga à de perambular pelas galerias hexagonais da biblioteca de Babel de Borges. A verdade é elusiva, sempre a um clique ou a um site de distância.”
Eu poderia escrever aqui um post raivoso, denunciando o despautério que é uma de nossas cada vez mais numerosas e cada vez mais fugazes celebridades-instantâneas ser convertida, da noite para o dia, por um programa de TV abominável em conselheira literária. Eu poderia apontar o quanto somos tolos ao seguir indicações de quem quer que seja, sem fazer qualquer questionamento, sem levar em consideração nosso próprio conhecimento ou gosto, blá-blá-blá. Mas estou num dia bom e prefiro escolher o tempero Pollyanna para o meu miojo. Prometo ser equilibrado para falar sobre um fenômeno pra lá de interessante que pode ter passado totalmente despercebido pela maioria das pessoas. Sim, pessoal, quebrando uma das regras de ouro deste blog, vou falar de Big Brother Brasil.
"Um voluptuoso romance de arriscados prazeres" é o que promete a capa da edição americana de 1977
Postulante ao milionário prêmio do programa, a catarinense Ana Carolina Madeira foi responsável por um dos fenômenos literários mais inesperados dos últimos tempos. Quem trabalha em livrarias ou bibliotecas sentiu na pele os abalos sísmicos causados por essa moça. Durante algumas semanas, levas de pessoas buscaram — algumas à beira do desespero — um certo livro chamado “Uma paixão francesa”. Tudo porque Ana Carolina o relacionou em seu perfil do BBB na internet, o levou para dentro da casa e passou a falar enfaticamente de suas qualidades e de como teria sido o melhor livro a ter lido em todos os seus 24 anos de vida.
Você desconfia da extensão da influência de Ana Carolina? Pois então, experimente buscar no Google o título do livro. Visite os mais diversos fóruns e perceba o quanto o adormecido desejo de leitura desta nação foi despertado — aliás, despertado não, chutado para fora da cama, seria mais apropriado dizer. Como num virar de página, tornou-se obrigação sorver o verdadeiro tesouro literário que esta até então inaudita autora Diane du Pont teria a nos oferecer. Que verdades ocultas seu texto desnudaria? A que profundidade da alma humana nos levaria a escritora?
Até onde se pode apurar, não há uma edição corrente do livro no mercado brasileiro. O exemplar que Ana Carolina levou ao BBB deve constituir, pois, uma raridade; um tesouro a ser guardado a sete-chaves; e as chaves, a serem arremessadas para o fundo do Rio Tietê (Ooops! Será que é tão difícil honrar a promessa que fiz lá atrás?). Contudo, conseguimos localizar na internet rastros de uma edição americana de 1977. A capa promete “um voluptuoso romance de arriscados prazeres”, dando a entender que seja uma daquelas histórias bem condimentadas (açucaradas a ponto de fazer mal a diabéticos ou de uma ardência de dar inveja a quituteiras baianas) vendidas às pencas em qualquer esquina e que há décadas fazem um silencioso sucesso entre certa parcela do público leitor brasileiro. No entanto, há quem jure de pés juntos que se trate de uma história seriíssima, que nos apresenta um comovente romance vivido no convulsivo cenário da Revolução Francesa.
Pouco importa. O que importa mesmo — a verdade suprema que nos é esfregada na cara — é que quando a Rede Globo (ou qualquer outra emissora de TV, mas sobretudo a Globo) quiser transformar o Brasil num país de leitores, ela atingirá a façanha em 2 ou 3 capítulos de novela. Vêm-me à mente alguns flashes de um Tony Ramos dono de livraria no Rio de Janeiro, de uma Mariana Ximenes lendo no colo da avó… Mas são ainda ensaios tímidos.
Pensando em tudo isso, vemos como a tese que alguns autores (entre eles, Henry Jenkins, de quem já falamos brevemente por aqui) defendem de que os meios de comunicação e as formas de produzir e desfrutar de informação e conhecimento cada vez mais se confundem está soberba e inapelavelmente correta. Em alguns casos, felizmente; em outros, nem tanto.
Promete. E como promete! Deve ser oficialmente lançada no dia 21 de abril de 2009. Conta com o envolvimento de várias instituições (sobretudo bibliotecas nacionais — como a nossa BN — e universitárias) ao redor do mundo e pretende disponibilizar on-line verdadeiros tesouros da humanidade, sejam livros, partituras, fotografias, pinturas etc. etc. etc.
“A linguagem, precisamente por sua ambigüidade errática, tenta convencer os usuários de sua própria precisão e peso, declarando-se seu caráter absoluto, seu caráter de sistema capaz de congelar o mundo num modo fixo de ser. [...] Mas é claro que, apesar dessa visão corrente, cada uso singular da linguagem prova o contrário: que a linguagem se apossa da realidade não petrificando-a, mas reconstruindo-a por via imaginativa, por alusão, inferência e sugestão [...], tornando-a móvel e, em última instância, fugidia: tornando-a ‘transparente’. Assim, a linguagem não pode nunca servir aos ditames do poder, seja ele político, religioso ou comercial, a não ser sob a forma de um catecismo fixo de perguntas e respostas; por mais que queira, a linguagem é incapaz de fixar o que quer que seja. Nosso olhar ‘atravessa’ a realidade que a linguagem expõe, camada por camada, à maneira de um palimpsesto, de tal modo que, afinal, nossa leitura das histórias torna-se infinita, cada história aludindo a ou sugerindo outra mais abaixo, sem que nenhuma possa se afirmar como verdade última.”
Há tempos, quando vasculho algumas lembranças da infância, principalmente ao recordar os programas que via na TV, sou assaltado por uma cena — uma simples e mísera cena — que logo me escapa, quase sem deixar rastros. O cenário é um desses anéis viários paulistanos que, vistos de cima, mais parecem um nó de concreto a se fechar. A gravação deve ter sido feita em um domingo bem pela manhã, porque a desolação do local é completa: não há carros, não há casas, não há viv’alma, a não ser pelos 4 ou 5 personagens (nunca consigo lembrar ao certo) que estão ali, presos na cena que se projeta na minha cabeça.
Quando surge, essa cena traz um turbilhão de emoções — tem uma aura melancólica, um quê do peso daquilo que jamais será alcançado; ao mesmo tempo, é patente a excitação e a irredutibilidade dos envolvidos em tentar encontrar uma solução para o problema que os aflige. Me parece que 2 ou 3 das pessoas presentes estavam viajando no tempo ou entre dimensões, até ficarem presas ali. E esse “ali” era algo como um mundo perdido, ou os resquícios de uma sociedade outrora magnífica, ou um refúgio humano em um planeta pós-apocalíptico. Um homem parece manipular celeremente uma engenhoca (à la telefone do E.T.) que o permitirá entrar em contato com alguém em seu planeta de origem, ou abrirá um portal de regresso, ou acionará as engrenagens de uma máquina do tempo. Ou algo assim. Porque é tudo muito vago nesse meu pedacinho de memória… Como costuma ocorrer, quanto mais me esforço por apreendê-la, mais ela se esvai!
Porém, neste sábado, algo fantástico aconteceu. Quase que por magia, enquanto dirigia pelas ruas de São Paulo rumo ao trabalho, um dos personagens subitamente ganhou rosto. Exatamente dessa forma: do nada! (E é pra entender como é que coisas assim acontecem, que na próxima encarnação eu quero voltar como neurocientista…) É óbvio que pode não passar de uma dessas tão comuns armadilhas de nossas mentes, mas ao que tudo indica o homem que tentava colocar a engenhoca para funcionar era Flávio Migliaccio. Era o que eu precisava para me lançar a uma busca semi-desesperada pelos confins da internet.
Maneco é resgatado do esquecimento em "Os Porralokinhas"
E foi assim que (re)descobri — porque de fato não era uma informação que eu possuía, não ao menos conscientemente — o personagem Tio Maneco, vivido por Migliaccio entre as décadas de 70 e 80. Mal comparando, Maneco era um Professor Pardal tupiniquim, um personagem que transitava entre a fantasia e a ficção científica, incorporando ainda elementos da cultura popular brasileira. O personagem teve suas peripécias levadas ao cinema em Aventuras com Tio Maneco (1971), O caçador de fantasmas (1975)e Maneco, o supertio (1978). Mais recentemente, uma produção que para mim havia passado despercebida, Os Porralokinhas (2005), literalmente resgata o personagem, que volta a ser vivido, quase 30 anos depois, pelo mesmo Migliaccio. Os três primeiros filmes fizeram tanto sucesso que, ainda na década de 70, acabaram se desdobrando em uma série de cerca de 400 episódios. Meu fiapo de memória quase com certeza se relaciona a um deles.
Essa história de tentar recuperar uma recordação longínqua me fez lembrar de algo que li pouco tempo atrás num jornal. Noticiava-se que, acuada por uma crise financeira que só fazia alastrar-se, a TV Cultura via-se obrigada a inclusive reutilizar fitas antigas, aniquilando assim valiosa parte da memória da TV brasileira. Fico pensando se os episódios de Tio Maneco, que encantaram tantas crianças, não tiveram o mesmo e deplorável destino… Fico pensando se a história de viajantes perdidos em um mundo distante, que tanto me marcou anos atrás a ponto de voltar e voltar como uma assombração querida, não existe hoje apenas na minha memória e na de outras poucas pessoas apenas.
Roy Batty (Rutger Hauer) agarra-se a seus últimos instantes de existência em Blade Runner
E tudo isso também me faz lembrar, com um travo de amargura, das belíssimas e derradeiras palavras do replicante Roy Batty, em Blade Runner. Fustigado pela chuva e agarrando-se com fervor à vida que lhe escapava, o Batty de Rutger Hauer contabilizava lembranças que só pertenciam a ele, expressava seu deslumbramento perante o mundo e, antes de morrer, sentenciava, sem perdão: “Todos esses momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva…” Como se nunca tivessem existido.
O prêmio Nobel de literaturaJosé Saramago é acusado de plágio. Há 3 anos, o escritor mexicano Teófilo Huerta tenta provar que o livro Intermitências da morte, lançado por Saramago em 2005, tem pontos em comum demais com seu conto ¡Últimas Notícias!, publicado em 1987 como parte do livro La segunda muerte. Huerta mantém até um blog de onde dispara seus petardos contra o laureado escritor português. Para que cada um tire suas próprias conclusões, a revista eletrônica Cronópios resolveu publicar uma tradução do conto. Às comparações, pois! Ainda no campo dos grandes mestres, mas do lado de cá do Atlântico, os machadianos de plantão, se é que ainda não a conhecem, devem visitar a Machado de Assis em linha, revista eletrônica de estudos exclusivamente voltados à obra do Bruxo do Cosme Velho produzida pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Pra finalizar, uma dica estritamente bibliófila: uma entrevista com Coralie Bickford-Smith, designer inglesa de capas de livros responsável por algumas das mais inacreditavelmente belas edições que a Penguin tem lançado nos últimos anos.
“O que acontecia, na verdade, era o que acontece em todas as revoluções, ou seja, que entre os dirigentes um pequeno grupo, que sempre acaba perdendo, se compõe de revolucionários convictos, enquanto o resto se compõe, de um lado, de homens influentes do governo anterior que mudam durante o processo e, de outro, de indivíduos que não estão nem com uns nem com outros e que se limitam a tirar proveito das circunstâncias inesperadas que os levaram ao poder.”
Passagem de As nuvens, de Juan José Saer (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.34), na tradução de Heloisa Jahn.
Imagine que após séculos de sonhos e décadas de ensaio, a humanidade finalmente consegue por os pés em Marte, descobre que o planeta não só possui construções de fabulosa arquitetura, mas também — segurem seus queixos — é habitado por figuras que lembram, em muitos aspectos, os terráqueos. Imagine que os astronautas enviados nessa venturosa missão inaugural buscam a primeira casa que avistam, dirigem-se à porta, batem nela, vêem-na abrir-se e, quase engasgados de emoção, dizem: “Olá! Viemos da Terra!” Do outro lado, uma dona de casa marciana recebe a notícia com o entusiasmo de quem aguenta a lenga-lenga de vendedores de bugigangas…
Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.
Quando ainda não havia spirits vasculhando o solo marciano e de lá nos enviando cartões-postais improváveis, quando metade do Planeta Terra era, ele sim, vermelho, e os comunistas ocupavam o posto de vilões favoritos da “América”, um autor norte-americano utilizava toda sua potência criativa para descrever a epopéia humana rumo a Marte. Ray Bradbury (1920- ) — talvez mais conhecido por Fahrenheit 451, que foi levado ao cinema por François Truffaut — lançou como livro, em 1950, a reunião de 26 contos que vinham sendo publicados em diversas revistas de pulp fiction. Ao conjunto, deu o título As crônicas marcianas (São Paulo: Globo, 2005).
Aqueles que torcem o nariz para a literatura de ficção científica, rotulando-a como escapista, alienada e alienante, não fariam mal em aprender uma ou duas boas lições com Ray Bradbury (com Philip K. Dick e William Gibson, também, só para citar mais dois grandes escritores do gênero).
Na verdade, As crônicas marcianas tratam, antes de mais nada, dos encontros e desencontros da espécie humana consigo mesma. E só por essa razão, sua leitura será valiosa hoje e no futuro, como foi em sua época. Busca por liberdade, por significado e compreensão da existência, limites da tolerância, identidade versus alteridade, choques culturais, desenvolvimento sustentável — são alguns dos temas que, com maior ou menor intensidade, atravessam as narrativas de Bradbury, conferindo-lhes profundidade e possibilidades de interpretação variadas.
Alguns contos, como Flutuando no espaço (pp. 159-179) e Usher II (pp. 182-203), escancaram o tom político, avançando sem pudores sobre questões chave dos EUA da época, como os direitos civis da população negra e o flerte com a censura trazido pela paranóia macartista.
“Os antigos nomes marcianos eram nomes de água, ar e de colinas. Eram nomes de neves que caíam no sul em canais de pedra para preencher os mares vazios. E nomes de feiticeiras enterradas, de torres e de obeliscos. E os foguetes esmagavam todos os nomes como marretas, transformando o mármore em argila, despedaçando os marcos de barro que davam nome às antigas cidades, e nesses escombros enfiavam-se postes suntuosos com novos nomes: CIDADE DO FERRO, CIDADE DO AÇO, CIDADE DO ALUMÍNIO…” (pp. 180-181) Estava Bradbury falando de foguetes humanos invadindo Marte, ou de caravelas singrando os mares rumo ao Novo Mundo? De astronautas, ou de garimpeiros em busca de um Oeste “selvagem”? São analogias óbvias, que o próprio autor se encarrega de alimentar ou explicitar aqui e ali nos contos. Mas deve-se destacar que essas aproximações, apesar dos 50 anos de idade, ainda obrigam a pensar, seguem provocando incômodo.
Em 2009, comemoram-se os 10 anos da primeira pegada humana deixada em solo marciano — ao menos se acreditarmos nos relatos de Bradbury… Prepare-se para as comemorações (re)descobrindo este clássico da ficção científica.
Não existe publicação que se assemelhe aos guias de viagem, mas que trate, de forma específica, exclusiva, de livrarias. Ao menos, não que eu conheça. (No Brasil, o que mais se aproxima disso é o excelente Guia de Sebos, elogiável iniciativa de Antonio Carlos Secchin, publicado pela Lexikon.)
Não existe publicação impressa, devo me corrigir. Porque há, na internet, o Bookstore Guide, que se apresenta como “um guia amador para compras de livros Europa afora”. Isso já esclarece algo sobre o guia e sua abrangência, mas é interessante saber que ele nasceu das mentes de Sonja (sérvia) e Ivan (eslovaco), quando eles passavam férias em Sarajevo, na Bósnia. Fruto da reunião de duas paixões — a de viajar e a de ler —, o BG apresenta as descobertas que o casal vai colecionando sempre que passeia pelo velho continente. Já são mais de 70 cidades visitadas e a lista continua crescendo.
Livraria Bertrand em Lisboa, Portugal: rumo aos 300 anos de existência.
O último local visitado foi a Livraria Bertrand, localizada no bairro do Chiado, em Lisboa, Portugal. A história da Bertrand daria um livro: fundada em 1732, destruída pelo terremoto que assolou a capital portuguesa em 1755, foi obrigada a se mudar para junto de uma capela enquanto as partes afetadas da cidade eram reconstruídas; demorou quase duas décadas, mas finalmente a livraria pôde voltar para a região em que havia sido fundada, desta vez na Rua Garret, por onde, diz um texto institucional no site da livraria, costumavam passar e permanecer em “acesas tertúlias” eminentes figuras da intelectualidade lusitana como Alexandre Herculano, Antero de Quental e Eça de Queirós. Sede do que hoje é uma cadeia de 52 livrarias espalhadas por todo o país, a Bertrand do Chiado arrebatou o primeiro posto no Top 5: Oldest Bookstores on the Continent, elaborado por Sonja e Ivan.
Parece um palacete, mas é uma livraria.
Aliás, também é portuguesa a livraria que encabeça outro ranking (o Top 5: Impressive Appearance) mantido pelos criadores do BG. A suntuosa Lello & Irmão, localizada na cidade do Porto, poderia facilmente ser confundida com um palacete, de tão indescritível que é a beleza de suas também centenárias (abriu as portas em 1906) dependências. (Confira um tour virtual, provavelmente clandestino, pela livraria. E, no blog O Leitor, mais fotos da Lello, juntamente com um link para matéria do The Guardian em que o jornal inglês também exalta a beleza da livraria portuguesa.)
A lendária Shakespeare and Company também está no Bookstore Guide.
Não se engane. O aparente domínio de livrarias portuguesas é apenas isso: aparente. Desde a lendária Shakespeare and Company (para quem não a conhece, vale a dica de dois ótimos livros que têm a livraria como personagem principal: Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, de Sylvia Beach, escritora e editora que fundou a livraria; e Um livro por dia, do jornalista canadense Jeremy Mercer, que seguindo o hábito de alguns assíduos frequentadores do local, viveu alguns dias literalmente entre livros) até uma pequena livraria na capital da Armênia, Yerevan, o BG traz inúmeros achados, capazes de deleitar até os que não são assim tão apaixonados por livros.
Não se trata de um guia impresso, mas em tempos de pequenas e maravilhosas engenhocas como iPhone e similares, o Bookstore Guide pode se converter num precioso companheiro de viagens.
“Ele voltou para a floresta e se ajoelhou ao lado do pai. Ele estava envolvido por um cobertor como o homem tinha prometido e o menino não o descobriu mas se sentou ao seu lado e chorava e não conseguia parar. Chorou por muito tempo. Vou conversar com você todo dia, sussurrou. E não vou me esquecer. Não importa o que aconteça. Então ele se levantou e se virou e caminhou de volta para a estrada.”
Trecho do estupendo, do colossal A estrada, de Cormac McCarthy (Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p.233), na não menos brilhante tradução de Adriana Lisboa.
Que diriam os irmãos Grimm se soubessem que uma de suas mais famosas histórias acabou servindo de inspiração para um pequeno parque na cidade de Curitiba, no longínquo e ignoto Brasil? É bem provável que dissessem: Wunderbar!! (Fantástico!!)Criado em 1996 e com cerca de 38 mil m2, o Bosque Alemão é um entre os muitos parques que a verde capital do Paraná oferece a seus afortunados habitantes. E uma das principais atrações do local é precisamente a Trilha de João e Maria. Serpenteando pela mata nativa, o caminho apresenta aos visitantes a história em painéis de azulejo com ilustrações e trechos adaptados do texto dos Grimm. Mas o melhor ainda está por vir. O coração do bosque abriga a Casa Encantada, uma “materialização” da casa de doces em que a bruxa má aprisionava crianças, para organizar, digamos assim, festins pra lá de diabólicos. A casa (a do parque, não a do conto), por sua vez, abriga uma biblioteca infantil (bem completa, por sinal), aberta ao público diariamente, e onde acontecem todos os fins de semana contações de história. Quem já teve o privilégio de visitar este belo lugar pode engrossar o testemunho: mesmo que o sujeito tenha tido uma infância tortuosa — isto é, longe do magnífico universo dos livros —, ao se deparar com esta encantadora homenagem às histórias infantis, irá sentir um irreprimível desejo de recuperar o tempo perdido e se entregar à leitura. Se Curitiba não está no seu próximo roteiro de viagens, há um vídeo no YouTube, gravado por um turista uruguaio, que permite um vislumbre do que o Bosque Alemão oferece aos visitantes. Desconsidere a estética bruxadeblairiana da gravação e aproveite o passeio!
Se você ainda não experimentou a sensação, tarda mas não falha: um dia vai experimentar. Ao terminar uma frase, página, capítulo ou o livro todo, sobrevém o assombro. Admirado, você se pergunta: “como é possível escrever tão bem?”, “como é que alguém consegue pensar nisso?”, “de onde vem a inspiração para criar algo assim?”.
Como já se disse tantas vezes, os caminhos da criação são quase sempre insondáveis. Mas uma das peças desse infinito quebra-cabeças é o espaço em que o escritor dá vazão às torrentes de idéias e sentimentos que lhe agitam a mente. Para alguns autores, as idéias vêm enquanto tomam banho, conversam com amigos, quando estão no cinema, ou sentados no parque, observando pombos. Outros já são mais metódicos, e afirmam categoricamente e sem qualquer romantismo que as idéias surgem quando a pessoa se senta à mesa e põe-se a escrever. Não importa o estilo, o fato é que uns e outros elegem um espaço rotineiro de trabalho, onde se sentem confortáveis para transportar para o papel ou o computador as peripécias de seus personagens. Sobretudo para os fãs, esses locais praticamente adquirem o status de sagrados, envoltos em uma aura que combina mistério e adoração.
Big Brother literário?: nessas casas, sim, vale a pena dar uma espiadinha
Com o intuito de saciar (ou seria de aguçar?) a curiosidade acerca dos espaços em que os escritores trabalham, desde o começo de 2007, o jornal inglês The Guardianpublica uma série de ensaios fotográficos intitulada Writer’s rooms. A cada semana, um quarto, escritório ou biblioteca de um escritor ou de uma escritora é retirado do campo da especulação e revelado aos nossos olhos. Figuram na coleção, entre tantos outros, os quartos de Virginia Woolf, John Banville, Colm Tóibín, Charles Darwin, Antony Beevor e Eric Hobsbawm. No Brasil, uma das mais interessantes iniciativas que procuram preservar esses espaços é o projeto Acervo de Escritores Mineiros, mantido e desenvolvido pela UFMG. Os escritórios de Henriqueta Lisboa, Oswaldo França Júnior, Murilo Rubião e Cyro dos Anjos foram remontados nas dependências da Federal e estão abertos para visitação pública. Mas você também pode fazer um tour virtual por eles na página do projeto.
Podem até acusar iniciativas como essas de Big Brother literário, mas o fato é que nessas casas, sim, vale a pena dar uma espiadinha.
Sem muita elaboração ou rodeios (como preferirem chamar), que a dor de cabeça e o cansaço realmente não me permitem mais do que algumas linhas por hoje. No dia em que se noticia que as demissões na Europa atingem a casa das 10 mil por dia, um texto curto e de grosso calibre atinge o alvo com a precisão de um atirador de elite: o problema é a ganância desenfreada. Cerca de 20 anos após a crise de 1929, aponta o texto, um ex-presidente do FED, o banco central dos EUA, atestava: “Se a riqueza nacional tivesse sido melhor repartida, isto é, se as empresas se tivessem contentado com lucros menos elevados, se as classes mais ricas tivessem auferido rendimentos mais baixos e os agregados familiares mais modestos remunerações mais elevadas, a estabilidade da nossa economia teria sido maior.”Parece simplório, parece óbvio. Mas, como duramente estamos testemunhando, a obviedade teima em passar a quilômetros de distância de nós — na verdade, ela pode nos fazer cócegas no nariz que sequer a notaremos. Aliás, chega a ser tragicamente fascinante como a humanidade insiste em não aprender com os próprios erros…
Meu amigo Dionisius adora me lembrar que o capitalismo é o sistema que mais riqueza gerou na história da humanidade, que mais gente retirou da pobreza. Ok, de acordo. Mas até Marx afirmava isso. O problema é que o capitalismo, como qualquer construção humana, precisa de humanos para funcionar. Senão, desmorona e, com o tempo, vira ruína. Como dizem por aí: nunca confunda liberdade com libertinagem. Será que dessa vez vamos aprender isso?
“Ler — ele diz — é sempre isto: existe uma coisa que está ali, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; e por meio dele nos defrontamos com algo que não está presente, algo que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas concebível, imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é passado, perdido, inalcançável, na terra dos mortos [...] Ou talvez algo que não está presente porque não existe ainda, algo de desejado, temido, possível ou impossível [...] Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será…”
Na casa em que Ernest Hemingway viveu em San Francisco de Paula, Cuba, a quantidade de livros é tão grande, que eles estão presentes até mesmo no banheiro. Certa vez, o escritor australiano Peter Carey revelou que sempre que comprava um livro novo se via obrigado a um torturante exercício: de qual volume teria de se desfazer para abrir espaço em seu apartamento para a nova aquisição? Com Sérgio Buarque de Holanda, a situação não era muito melhor: tinha tantas obras em sua biblioteca pessoal, que sua esposa em determinado momento passou a proibi-lo de comprar qualquer livro. O sociólogo não pestanejou: desenvolveu um astucioso sistema para contrabandear os volumes para dentro de casa. (Fica a dica do documentário Raízes do Brasil, de Nelson Pereira dos Santos, em que, se não estou muito enganado, o próprio Sérgio Buarque conta essa e muitas outras histórias impagáveis.)
É um drama bastante comum para quem sofre do delicioso mal da bibliofilia. Além de ler (muito) e falar (muito) sobre livros, ainda sentimos a necessidade incontrolável de tê-los por perto. Só que um belo dia, eles sorrateiramente já ocuparam todas as estantes e prateleiras disponíveis, deitados, em pé, às vezes socados, coitados. Espalham-se pelo quarto, em pilhas ao lado da cama, em cima da mesa; ocupam os móveis da sala, arriscam-se pela cozinha, ensaiam um avanço por todos os cantos livres da casa. A não ser que você possua uma memória prodigiosa, nesse momento será muito difícil dizer: onde está aquele romance russo que eu nunca consegui terminar? Ou: quantos livros de literatura latino-americana eu tenho mesmo? Para não falar na constrangedora situação de chegar em casa feliz da vida com aquela obra que você sempre quis adquirir e alguns dias depois, no meio de uma faxina, descobrir que você já a havia comprado fazia um bom tempo…
Se você está lendo este post com um sorriso no canto da boca, meneando a cabeça em sinal afirmativo, como quem diz “sei muito bem do que você está falando”, talvez sua coleção também tenha saído do controle. Antes de entrar num embate derradeiro do tipo “ou eles ou eu” e decidir que os livros ficam e você sai, experimente o LibraryThing.
O LT é um programa on-line de catalogação e organização de livros, que permite ainda estabelecer contato com todos os usuários que possuem obras em comum com você. Finquei bandeira por lá faz mais ou menos um mês, e posso garantir: além de bastante útil, o LT pode ser também muito divertido. Quanto aos livros, você pode cadastrar todos os dados (autor, editora, ano, edição, páginas, capa, ISBN etc.), bem como os assuntos de que trata. Depois, você pode organizar sua coleção como quiser e fazer qualquer tipo de busca — tudo depende do volume de dados que você inserir. Quer saber quais os livros da Clarice Lispector você tem? Um clique. O mais interessante vai ser quando você procurar saber quem mais possui A hora da estrela. Você vai encontrar italianos fanáticos por L’ora della stella, franceses encantados com L’heure de l’étoile, e atésuecos apaixonados por Stjärnans ögonblick…
Além de dar ordem na sua coleção, você ainda pode cadastrar suas livrarias e bibliotecas prediletas (e permitir que qualquer usuário localize-as com o Google Maps), escrever resenhas, montar grupos de discussão, acompanhar o desenvolvimento das bibliotecas de seus amigos. Enfim, o que o LibraryThing acaba oferecendo é um ponto de encontro global para todos aqueles que vêem no livro nada menos que um objeto de devoção.
Numa cidade cosmopolita e culturalmente tão efervescente como São Paulo, por que é tão difícil flagrar alguém acompanhado de livros em parques, praças e cafés? (Sim, sempre existirão as exceções, mas elas são exatamente isso — e acabam cumprindo a sina de estarem lá quase que somente para confirmar a regra.) Se você é um amante dos livros, há de convir: é impossível andar pelas ruas desta metrópole e não ser atropelado por essa pergunta. Certa vez, um amigo, o Paulo Vidal, chegou a confidenciar que quando se sentava em alguma praça com um livro nas mãos receava ser confundido com um ET. E pensar que em alguns lugares do mundo, a prática da leitura ao ar livre ou em público (mas sozinho) é praticamente elevada à categoria de Arte… Entre nós, é mais comum observar pessoas lendo em ônibus ou no metrô. Longe de dizer que não seja louvável dedicar todo e qualquer tempo livre para a leitura, mas limitar os livros ao exíguo e opressor espaço do transporte público paulistano é praticamente uma maldade.
Pode-se ponderar: talvez São Paulo não seja a cidade mais convidativa para quem quer se dar ao luxo de parar, sentar, abrir um livro e passear os olhos por suas páginas. Uns dirão que o medo da violência explica tudo. Outros, que leitores talvez sejam figuras mitológicas e onde eles se escondem, quem há de saber? Talvez estejam todos certos. Peço licença, porém, para evitar todas essas teses e levantar aqui a bandeira de um movimento pra lá de legítimo.
Militante, pegue sua mochila, encha-a de livros e tome as ruas! Veja, a beirada do lago do Ibirapuera parece mesmo uma delícia para deitar, se espreguiçar e… mergulhar no mundo das letras. Quer lugar mais charmoso do que a Praça do Pôr do Sol — sobretudo quando este está, de fato, se pondo — para se deixar apaixonar por uma boa história? E que tal avançar páginas e páginas tendo a metrópole todinha a seus pés? — tente a Pedra Grande, lá no Parque Estadual da Serra da Cantareira. Alguém aí já experimentou levar sua obra predileta para o alto do Martinelli e ficar lá, assim como quem não quer nada, desafiando as vertigens e lendo? E será que é pecado misturar a fome com a vontade de ler? Mesmo se for, vamos ao Mercadão devorar pastel de bacalhau e romance policial para ver no que é que dá. O Anhangabaú é ótimo, a escadaria do Municipal, charmosíssima. Ah, sim, tem o Trianon. Ou, logo em frente, o vão livre do MASP. A Praça da Luz, os jardins do Ipiranga, as ruas e avenidas da USP…
Pois é, local é o que não falta. Então, fica o convite. Neste fim de semana, junte-se ao movimento: leve seu livro para passear!