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Pitada de sal #14

22 de maio de 2010 - 8:23 am

“Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. […] Para que Hitler possa marchar em passo de ganso, para que o papa possa denunciar o bolchevismo, para que os fãs de críquete possam assistir a seu campeonato, para que os ‘Nancy poets’ possam dar palmadinhas nas costas um do outro, o carvão tem que estar disponível. […] O mesmo acontece com todos os tipos de trabalho manual; eles nos mantêm vivos e nos esquecemos totalmente de sua existência. Mais do que qualquer outro, talvez, o mineiro é o típico trabalhador manual, não só porque seu trabalho é tão absurdamente horrível, mas também porque é tão vitalmente necessário, por assim dizer, que somos capazes de esquecê-lo, tal como nos esquecemos do sangue que corre em nossas veias.”

George Orwell em trecho de seu O caminho para Wigan Pier (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp.53-55; na tradução de Isa Mara Lando).

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