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Desvendando a argentinidade

3 de agosto de 2010 - 10:43 pm

Tão perto, tão longe? — com O atroz encanto de ser argentino, Marcos Aguinis constrói um roteiro para visitar, e compreender, a alma profunda do povo argentino (*)

Existia uma anedota que dizia ser o argentino um italiano que falava espanhol e pensava ser inglês. Mas isso são brincadeiras de tempos idos, diriam os antigos. O argentino não é mais um europeu perdido em terras sul-americanas. Há algum tempo se vê que, final e desafortunadamente, a Argentina se “latino-americanizou”. No entanto, por mais incômodo que seja, não podemos esquecer que ainda falta piorar muito para que a Argentina chegue à condição de desequilíbrio social que assola e sempre assolou o Brasil. Ainda que não sejam portadores da verdade absoluta — e não o são — índices como o IDH da ONU são um bom ingrediente para azedar o humor duvidoso daqueles brasileiros que, num cúmulo de covardia e sadismo, comprazem-se com a derrocada aparentemente interminável dos “rivais” argentinos.

Mesmo vivendo há pouco mais de meio século uma decadência recentemente acelerada, a Argentina mantém em quase todos os aspectos sociais uma vantagem absurda sobre o Brasil. Exércitos de miseráveis espalhados pelas maiores cidades, crianças morrendo por falta de alimento, falência dos sistemas de ensino e saúde públicos são, para o argentino, atordoantes novidades com as quais lamentavelmente o brasileiro há tempos pareceu se acostumar. Estar atento a essa realidade é um passo importante para conhecer melhor nosso vizinho austral, mas não o bastante.

O que faz Marcos Aguinis em seu O atroz encanto de ser argentino (São Paulo: Bei Comunicação, 2002) é justamente nos auxiliar, abrindo caminhos a esse embrenhado complexo que é o âmago do ser argentino. O livro é um ensaio aparentemente despretensioso mas que, à medida em que avançamos, vai ganhando liga, se agigantando e termina por nos arrebatar e surpreender completamente: a mistura fina de leveza e profundidade, de auto-ironia e compromisso político sem dúvida encantam e fazem com que a aproximação do leitor brasileiro com o universo argentino se dê quase que de forma natural.

Os temas oscilam do político ao cultural (às vezes com abordagens que lembram o antropológico), resvalando em pequenos eventos do cotidiano, voltando ao político, ao social, valendo-se de breves retomadas históricas. Em cada frase, em cada passagem, em cada página, Marcos Aguinis parece atormentado, tomado por uma angústia inelutável, a de querer buscar e apresentar, a si, aos seus compatriotas, ao mundo, uma explicação plausível para a atual condição argentina.

Uma seqüência de imagens traduz de forma quase irretocável esse clima. Com um truque cinematográfico simples mas de impacto visual muito forte, numa Buenos Aires entristecida e submetida a aterradoras nuvens escuras (ou a uma única e interminável nuvem escura), o povo nas ruas, multidões de indivíduos silenciosos, cabisbaixos, marcha melancolicamente para trás — vale a referência: o filme é A Nuvem (La Nube, Argentina, 1998), de Fernando Solanas.

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

É necessário compreender para superar. E é por isso que duas questões permeiam todo o livro: por que tudo deu tão errado? e como reverter o que parece acabado? A obsessão por responder a essas perguntas deve — o que é mais do que compreensível — ter se tornado uma epidemia nacional. O desempenho comercial do livro é eloqüente: num intervalo de cerca de um ano, nada menos que 17 edições foram avidamente absorvidas pelo público argentino.

O ATROZ ENCANTO DE SE VER REFLETIDO

Há mais de argentino no brasileiro e mais de brasileiro no argentino do que nossos vis preconceitos nos permitem enxergar. “Se quiséssemos simplificar as diferenças entre brasileiros e argentinos, poderíamos dizer que os primeiros se divertem ao ritmo do samba e os segundos choram ao ritmo do tango. A alegria do Brasil contrasta com a melancolia da Argentina.”, diz Marcos Aguinis na introdução à edição brasileira de seu livro. Perdoável equívoco. Como o tango, as raízes profundas do samba também se alimentam da tristeza das populações marginalizadas, como tão lindamente e para sempre nos lembrará Vinícius de Moraes em “Samba da Bênção”. Esse — o paralelo entre samba e tango — será apenas um dos tantos pontos de contato com que nos depararemos no decorrer da leitura.

A adesão ao personalismo e a conseqüente aversão às instituições, ou mesmo a alergia a qualquer tipo de lei ou regra, identificadas por Aguinis como ervas daninhas que vicejam na alma coletiva argentina, não por acaso nos lembram (como bem nota Pedro Malan no prefácio) o que dizia Sérgio Buarque de Holanda a respeito do brasileiro, sendo essas algumas das características negativas do que ele chamou de “homem cordial”.

Da mesma forma o ventajero ou vivo argentino — que recebeu um ácido e talvez definitivo retrato na recente película Nove Rainhas (Nueve Reinas, Argentina, 2000), de Fabián Bielinsky —, o famoso trambiqueiro que sobrevive da inocência de terceiros, aplicando golpes em série e se vangloriando disso, não é de forma alguma personagem estranho ao dia-a-dia do brasileiro. Maus hábitos de uma determinada parcela da população e que, às vezes com a anuência silenciosa de todos, acabam se transformando em rótulos negativos fáceis e por isso mesmo largamente difundidos mundo afora, também não nos despertam estranheza. Segundo Aguinis, muito da imagem que circula pelo mundo do argentino como um ser arrogante e espaçoso provém do cultivo e da aceitação, internamente, desses hábitos que desunem e geram tensão. Alguma semelhança com a irritante mania de certos brasileiros, sejam eles poderosos ou humildes ao extremo, de “levar vantagem em tudo” e ainda se gabar disso?

Nove Rainhas (Argentina, 2000): ou da execrável arte de passar a perna em todos à sua volta

Recuando à época colonial para investigar as raízes dos tropeços que deitaram por terra aquela que já foi uma das nações mais ricas e desenvolvidas do mundo, Aguinis nos confronta com mais um ponto facilmente reconhecível pelo público brasileiro. A ojeriza pelo trabalho, que era visto como tarefa de seres inferiores, escravos ou não, e a predileção pelo ganho fácil, que evitava a todo custo o risco do empreendimento concreto, jogava e continua séculos depois a jogar muitos dos donos do dinheiro a uma sanha especulativa desenfreada e escapista, pouco atrelada a atividades que promovam, mesmo que com imperfeições, o desenvolvimento da coletividade. Entre esforço e risco, e ócio e ganho fácil, não havia e não há muitas dúvidas.

Junto a isso, uma mítica crença de que tudo se resolve magicamente por si só — dá-se um jeitovamos tocando, e por aí vai — contribuiu para que problemas estruturais, mesmo quando identificados, nunca fossem encarados de frente, com a seriedade e firmeza necessárias.

Outro ponto de semelhança: a infantil necessidade de aprovação externa, o nefasto complexo de inferioridade que, desculpem a insistência, também não nos é nem um pouco desconhecido. Aguinis cita alguns exemplos. Entre eles, o esbanjamento insano de recursos públicos promovido à altura da comemoração do centenário (1810-1910) da revolução de maio (que marcou o início da emancipação argentina) com o único intuito de provar aos milhares de estrangeiros convidados o tão almejado pertencimento ao restrito clube das nações desenvolvidas. Enquanto o dinheiro escoava descontroladamente para festas e celebrações, muitos desses observadores internacionais, contudo, preferiam, mal-agradecidos, destacar os escândalos de uma justiça e de uma administração pública ineficientes e/ou corrompidas. Todos viam, mas os argentinos preferiam fazer de conta que não, aguilhoa o autor.

Mas nem tudo são espinhos. Um dos trechos mais belos do livro é aquele em que Marcos Aguinis investiga origens e desenvolvimento do tango. Uma das mais caras jóias do hoje combalido orgulho argentino, o tango sofreu para ser aceito pela “sociedade”. Exemplo perfeito daquele complexo de inferioridade que já mencionamos acima. Foi necessário ocorrer a aprovação externa do tango para que este fosse finalmente abraçado pelo povo argentino como um todo e elevado ao patamar de bem cultural nacional inestimável. Oriundo do “arrabalde”, do subúrbio, gestado em mentes e corações “impuros” e renegados, o gênero foi primeiramente taxado de sexualmente apelativo, de insolente e inconveniente pelas classes mais altas. Mas o tango, como sagazmente nos mostra o autor, talvez seja uma das mais perfeitas representações do que é ser argentino: em tudo que carrega de dor, de esperanças, de ideologias dos múltiplos povos que se reuniram para formar o que hoje é a Argentina. O tango é essencialmente a miscigenação de almas e, talvez por isso, se perpetue através dos tempos, sofrendo transformações maiores ou menores, no coração de tantas e tantas gerações.

COMENTÁRIOS SOBRE O OBJETO EM SI

Ainda que nos últimos anos possamos notar uma crescente preocupação das editoras em ter um cuidado especial no aspecto físico de seus livros, raras vezes se viu no mercado editorial brasileiro um projeto gráfico tão belo mas, sobretudo, tão pleno de pertinência como o que nos oferece este O atroz encanto de ser argentino.

Não quero parecer fetichista, mas sob certo aspecto o livro já cumpre seu papel mesmo sem ser lido. Porque para aquele que simplesmente o manuseia, sem dele sequer ler uma frase, o livro já se oferece rico em possibilidades simbólicas.

Na capa, contra-capa e lombada predominam tranqüilas as cores branca e azul-clara, que remetem obviamente à albiceleste bandeira argentina, e de alguma forma preparam as emoções do leitor para o que ele irá encontrar à frente.

O papel utilizado na impressão, como nos adverte uma pequena nota ao final do livro, é um novo produto de uma companhia brasileira, um papel reciclado que, ainda segundo a nota, tem parte de sua composição proveniente de uma cooperativa de catadores de papel, e reverte uma porcentagem da renda gerada com sua comercialização para o sustento de uma organização não-governamental que apóia projetos socioambientais. Numa época em que, tanto cá como lá, não suportamos mais ouvir a cantilena do sacrifício de tudo e de (quase) todos em nome exclusivamente de responsabilidades fiscais, que na maior parte das vezes esgotam-se em si mesmas, uma iniciativa empresarial como essa, com intenções ecológico e socialmente responsáveis, não deixa de ser um bom indicativo. Mas podemos tomar a adoção desse papel reciclado como uma mensagem metafórica — simpática não só aos argentinos mas também a todos aqueles povos que, como nós, sabem o que é viver numa espécie de inesgotável crise social — de que vale a pena insistir, lutar, se reinventar. Há e sempre deve haver esperança de renascimento, mesmo quando as coisas parecem ter sido arremessadas ao abismo infinito.

Mas o detalhe, ainda para falar apenas da parte física do livro, que mais chama a atenção é mesmo a capa. Com rara felicidade se decidiu que a capa seria prateada, de um prateado brilhante, o que evoca a viagem etimológica que Aguinis promove a respeito do vocábulo Argentina: prata que seduziu e atraiu milhões de pessoas de todo o mundo, aguçando ganâncias e rivalidades, prata que deu nomes e se fixou para sempre no imaginário argentino, também como sinônimo de dinheiro. Mas a prata brilhante da capa é também um quase-espelho, volta-nos uma imagem um tanto turva, pouco definida, mais adivinhada que exata. É, penso eu, a grande chave de todo o livro. É o convite definitivo à reflexão: em dois dos sentidos que a palavra refletir comporta: pensar, meditar sobre algo, mas também espelhar.

Quem lê esse Atroz Encanto de Marcos Aguinis vê o quão imbecil é essa rivalidade que durante anos e anos foi sendo erguida entre brasileiros e argentinos, vê, repito, quantos são os pontos, positivos e negativos, de contato entre nossos dois povos. Me ocorreu várias vezes durante a leitura que este deveria ser um livro entusiasticamente recomendado a estudantes do ensino médio e superior: talvez assim pudéssemos ver finalmente pulverizada a muralha que esconde brasileiros de argentinos e vice-versa. Talvez assim víssemos nascer uma nova e única nação, construída sobre o verdadeiro e belo sentido da palavra hermano/irmão.

Para retomar A Nuvem, lembremos da luta pela preservação da memória que o filme apresenta. O embate se dá com o novo, que se coloca de forma incisiva, inapelável, apagando violentamente qualquer vestígio de lembrança de pessoas, de eventos, da História. Não se trata de uma luta pelo conservadorismo, mas tão-somente pela preservação da identidade, pela possibilidade do auto-conhecimento. Na verdade, este é um desafio comum a argentinos e brasileiros. É como se ambos devessem aceitar o novo, mas pesando-o, julgando-o, recuperando também o que de bom oferece o passado, as origens comuns, e, por meio deste retorno, construir uma história única. Uma história na qual gigantes adormecidos acordam de um profundo pesadelo e apresentam-se ao mundo como irmãos fortes, capazes de enfrentar juntos as turbulências do presente.

P.S.: Quem quiser conhecer melhor Marcos Aguinis pode acessar sua página na internet, em www.aguinis.net. Entre outras informações, pode-se ter uma idéia de sua vasta produção literária, que é composta por mais de vinte livros, divididos em ensaios, romances, contos e biografias.

Escrito por Ronoc ¦

(*) Texto publicado originalmente em janeiro de 2003, no número 11 da (agora finada) revista eletrônica Rabisco.

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Livros perdidos, nunca mais!

9 de novembro de 2008 - 8:37 am

Livros, livros e mais livros!

Na casa em que Ernest Hemingway viveu em San Francisco de Paula, Cuba, a quantidade de livros é tão grande, que eles estão presentes até mesmo no banheiro. Certa vez, o escritor australiano Peter Carey revelou que sempre que comprava um livro novo se via obrigado a um torturante exercício: de qual volume teria de se desfazer para abrir espaço em seu apartamento para a nova aquisição? Com Sérgio Buarque de Holanda, a situação não era muito melhor: tinha tantas obras em sua biblioteca pessoal, que sua esposa em determinado momento passou a proibi-lo de comprar qualquer livro. O sociólogo não pestanejou: desenvolveu um astucioso sistema  para contrabandear os volumes para dentro de casa. (Fica a dica do documentário Raízes do Brasil, de Nelson Pereira dos Santos, em que, se não estou muito enganado, o próprio Sérgio Buarque conta essa e muitas outras histórias impagáveis.)

É um drama bastante comum para quem sofre do delicioso mal da bibliofilia. Além de ler (muito) e falar (muito) sobre livros, ainda sentimos a necessidade incontrolável de tê-los por perto. Só que um belo dia, eles sorrateiramente já ocuparam todas as estantes e prateleiras disponíveis, deitados, em pé, às vezes socados, coitados. Espalham-se pelo quarto, em pilhas ao lado da cama, em cima da mesa; ocupam os móveis da sala, arriscam-se pela cozinha, ensaiam um avanço por todos os cantos livres da casa. A não ser que você possua uma memória prodigiosa, nesse momento será muito difícil dizer: onde está aquele romance russo que eu nunca consegui terminar? Ou: quantos livros de literatura latino-americana eu tenho mesmo? Para não falar na constrangedora situação de chegar em casa feliz da vida com aquela obra que você sempre quis adquirir e alguns dias depois, no meio de uma faxina, descobrir que você já a havia comprado fazia um bom tempo…

Se você está lendo este post com um sorriso no canto da boca, meneando a cabeça em sinal afirmativo, como quem diz “sei muito bem do que você está falando”, talvez sua coleção também tenha saído do controle. Antes de entrar num embate derradeiro do tipo “ou eles ou eu” e decidir que os livros ficam e você sai, experimente o LibraryThing.

O LT é um programa on-line de catalogação e organização de livros, que permite ainda estabelecer contato com todos os usuários que possuem obras em comum com você. Finquei bandeira por lá faz mais ou menos um mês, e posso garantir: além de bastante útil, o LT pode ser também muito divertido. Quanto aos livros, você pode cadastrar todos os dados (autor, editora, ano, edição, páginas, capa, ISBN etc.), bem como os assuntos de que trata. Depois, você pode organizar sua coleção como quiser e fazer qualquer tipo de busca — tudo depende do volume de dados que você inserir. Quer saber quais os livros da Clarice Lispector você tem? Um clique. O mais interessante vai ser quando você procurar saber quem mais possui A hora da estrela. Você vai encontrar italianos fanáticos por L’ora della stella, franceses encantados com L’heure de l’étoile, e até suecos apaixonados por Stjärnans ögonblick

Além de dar ordem na sua coleção, você ainda pode cadastrar suas livrarias e bibliotecas prediletas (e permitir que qualquer usuário localize-as com o Google Maps), escrever resenhas, montar grupos de discussão, acompanhar o desenvolvimento das bibliotecas de seus amigos. Enfim, o que o LibraryThing acaba oferecendo é um ponto de encontro global para todos aqueles que vêem no livro nada menos que um objeto de devoção.

– Ω –

Escrito por Ronoc. Post também publicado no Blog da Cultura.