Archive for the ‘Lógica para paulistanos’ Category

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Transporte público, vícios privados

14 de dezembro de 2013 - 10:15 am

Congestionamento Monstro

Muitos autores de ficção científica das décadas de 1960, 70 e 80 pintaram as cidades do futuro — esse futuro que chegou e que virou nada mais do que nosso presente — em tons pessimistas, produzindo distopias que nos assombravam e alertavam para os (des)caminhos que tomávamos em nossas escolhas cotidianas e no panorama maior da vida política e econômica de nossas sociedades. Nos mostravam cenários de decadência acelerada povoados por milhões de seres humanos reduzidos a condições degradantes, vivendo amontoados, porém solitários, alimentando-se dos restos de uma sociedade pós-hecatombe industrial/nuclear.

Porém, nem mesmo mestres como Philip K. DickFrank Miller ou William Gibson poderiam ter imaginado algo que se assemelhasse a São Paulo. Cidade monstruosa, que dia e noite trama a extensão de seus cinzentos tentáculos para novas direções, promovendo a destruição da natureza e sua substituição pelo asfalto e concreto. “Lar”de quase 20 milhões de almas (se levarmos em conta toda a mancha urbana), São Paulo é um dos maiores desafios jamais imaginados para governantes, urbanistas e todos aqueles que tentam compreendê-la e domá-la. Sobretudo quando se fala em transporte.

Mais do que construir linhas de metrô ou corredores de ônibus, o desafio em São Paulo está em construir uma nova mentalidade em sua população. Por exemplo, torná-la mais afeita às formas de transporte coletivo e alternativo. Em São Paulo (e de resto em toda grande e média cidade brasileira, com as raras exceções de sempre), a ideia de mobilidade é diretamente ligada à posse e ao uso do carro particular. Por muito tempo, o carro foi (e ainda continua sendo) o sonho de consumo de boa parte da população adulta brasileira. Símbolo de status, de independência, de sucesso. Mesmo os mais humildes reservam partes consideráveis de suas parcas economias para em algum momento adquirir — com prestações a perder de vista — o veículo próprio da família. Ele é visto como o símbolo máximo da conquista material. Claro que essas ideias são massivamente despejadas para dentro do imaginário das pessoas por horas e horas de propaganda televisiva em que o automóvel — não importa o modelo ou marca — desfila impávido e triunfal por ruas quase sempre vazias (quimera inventada por agências a serviço da indústria automotiva), transportando dentro de si indivíduos sorridentes, satisfeitos, realizados — o suprassumo da civilização, os vencedores da árdua luta diária travada no mundo moderno.

Talvez por isso, iniciativas como a que ora toma forma na cidade de São Paulo enfrentem resistência de uma parcela considerável de sua população. Mesmo que as pesquisas indiquem que a ampla maioria apoie a implantação de faixas exclusivas para ônibus, mais de 10% (um contingente expressivo) considera essas medidas “populistas”, “irracionais”, e até mesmo “inconstitucionais”(sic!).

Se for para usar argumentos racionais, o carro é de longe a pior alternativa para transportar o mesmo número de pessoas: ele ocupa mais espaço e emite mais CO2.

Por mais que toneladas de estudos apontem o esgotamento do modelo adotado por São Paulo no passado e que se apoiava no uso massivo de veículos individuais, a discussão parece não se dar mais no plano da racionalidade, mas sim no da paixão. É fato: as pessoas são apaixonadas por seus carros — novamente, este é um veio muito explorado pelas agências de propaganda. (Basta ver os que gastam horas de seus fins de semana lavando, encerando e lustrando até pneus…) E é difícil argumentar quando os sentimentos estão em jogo. Mas este talvez seja apenas o lado mais “romântico” da questão. E mais ingênuo.

Contudo, há outro ângulo que muitas vezes não é abordado. E talvez seja ele o mais importante de todos. Por mais que se negue, há uma ideologia arraigada na sociedade brasileira — e na paulistana em especial — de segregação social do espaço. Claro que em todo canto do planeta isso ocorre, mas no Brasil e em São Paulo essa realidade é mais aguda. Não vou entrar em detalhes, mas os geógrafos, sociólogos e antropólogos têm centenas de estudos a respeito e podem confirmar que não estou forçando a barra. Há na cultura brasileira um descaso patente ao que é público — e, em contrapartida, uma supervalorização dos bens privados. (As raízes disso, como bem apontou Sergio Buarque de Holanda, ou como aprofundou Raymundo Faoro, para citar dois estudos clássicos, remontam à forma como se deu nossa colonização.) É difícil vermos, mesmo nas cidades mais ricas, boas praças, bons parques, boas bibliotecas públicas — todas e todos sucateados, quando existem. No entanto, temos uma variedade de focos de suntuosidade privada, com mansões que lembram castelos, apartamentos que equivalem ao tamanho de 5 ou 6 moradias médias, casas de campo e de praia que parecem cenários de filme norte-americano etc. etc.

A iniquidade brasileira é famosa e persistente. Séculos de história construíram cenários urbanos em que tudo fica “no seu devido lugar”, isto é, uma parte ínfima da sociedade fica com o que há de melhor, enquanto a imensa maioria se digladia para repartir os nacos que sobram de nossa pujante economia.

Grandes cidades, como São Paulo, veem na irrefreável expansão da malha urbana um de seus maiores dramas e paradoxos. Para que a economia cresça, é necessário gente, muita gente — ou ao menos foi assim, no modelo econômico do século XX. Mas como a forma de repartir a riqueza produzida mantém-se precária, grandes contingentes de seres humanos, com poder de compra bastante restrito, são obrigados a procurar, cada vez mais longe dos polos econômicos da cidade, locais minimamente adequados para fixarem residência. Daí o crescimento explosivo das periferias no país inteiro. E desse movimento, nasce, como consequência clara, uma superdemanda por transporte, seja público ou privado.

Encontram-se, então, as duas pontas da cobra. A mesma e pequeníssima porção da sociedade que fica com a maior parte da riqueza produzida por todos, e que consciente ou inconscientemente alimenta uma lógica que expulsa os mais pobres para cada vez mais longe, torce o nariz para melhorias evidentes no transporte daqueles que são relegados à periferia da cidade — melhorias estas que trariam, inclusive, mais fôlego ao modelo econômico vigente.

É óbvio que a implantação de faixas exclusivas é apenas um arranhão no problema do transporte em São Paulo. Contudo, é um primeiro passo — que outros governantes ou não deram ou fingiram acreditar que não fosse necessário. Um primeiro passo que, até simbolicamente, marca uma virada naquilo que deve ser priorizado: o espaço público, o bem comum, o direito de todos de ir e vir.

@Ronoc_

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Lógica para paulistanos #2

29 de outubro de 2008 - 8:36 pm

Um espetáculo deplorável; em cartaz próximo, muito próximo a você.

Palco: um espaço de cerca de 40m2 cheio de ferros, pseudo-assentos e apinhado de pessoas acotoveladas que desafiam, em vários sentidos, todas as leis da física. Alguns, equivocadamente, chamariam de “ônibus”.

Personagens: duas jovens desequilibradas (e não porque estivessem a ponto de cair; na verdade, ao contrário de quase todos no recinto, estavam muito bem sentadas), um motorista em apuros, a multidão pasmada.

Situação: ônibus lotado parado ou se arrastando à velocidade da lesma há cerca de 15 minutos numa fila interminável, num dos corredores de ônibus (que foram criados para dar fluidez ao transporte público!) magnificamente mal administrados pela atual gestão municipal de São Paulo. Detalhe importante: a cena se repete, sisificamente, todos os dias e noites.

Diálogos:

jovem 1 (voz esganiçada, vencendo o murmúrio geral): Ô, motorista, seu filho da puta, anda logo com essa merda, seu retardado!!

jovem 2 (alguns decibéis acima da primeira): É, seu desgraçado, não sabe dirigir, não, ô?!

jovem 1: É um viado mesmo, um corno! Coloca uma mula pra dirigir que é melhor!

jovem 2: Filho da puta do caralho, anda logo, cacete! Vamo logo, porra!

motorista (já não aguentando mais): Vem dirigir aqui, então! Vem cá, senta aqui!

jovem 1: Cala a sua boca, seu filho da puta! Eu que pago o teu sálario, anda logo antes que eu vá aí encher a tua cara de porrada!

motorista (em tom de deboche): Ô Maria, vem aqui, vem!

jovem 2: É, não tem macho aqui nesse ônibus, é nóis mesmo!

jovem 1: É, não tem macho aqui não! Mas eu não tenho medo de macho, não! Ô, motorista, ô seu idiota, vamo logo, caralho!! Eu paguei essa merda, eu quero andar!

Na verdade, o diálogo se estende por uns bons 15, 20 minutos, mas é tamanha sua riqueza, cheio de nuances e figuras de linguagem raríssimas, que minhas limitações vernaculares me recomendam parar por aqui.

Moral (ou falta dela?): A indignação, a virulência da revolta legítima se esgota num enfrentamento de iguais, que a-pa-ren-te-men-te não são vilões, mas vítimas dessa história. As atitudes equivodas, deslocadas, sem foco, ingênuas, e ridículas até, geram não mobilização, mas mais desgaste, confusão e, gran finale, conformismo.

– Ω –

Antes que me acusem de ser monotemático e de ter uma imaginação que deveria estar trancafiada em alguma masmorra, explicações! Nos últimos tempos, tenho passado cerca de 20% de minhas horas acordadas atuando como dublê de sardinha em lata. É compreensível que o tema da “imobilidade urbana” em São Paulo me domine. É compreensível que me queixe, e que queira deixar minha indignação aqui marcada. Me dêem (não, este blog ainda não está de acordo com as novas normas ortográficas) um desconto! Ah, e só para constar: a cena é real.

– Ω –

E pra não dizer que eu ando um chato incorrigível, fica uma dica excêntrica: experimentem alimentar seus Googles com os termos “busólogo” ou “busologia”. Sim, há pessoas capazes de amar os ônibus. E, mistério: em alguns momentos, eu sou uma delas — como dizem, contexto é tudo!

Escrito por Ronoc ¦

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Lógica para paulistanos #1

27 de outubro de 2008 - 6:54 pm

Cidade de São Paulo: a difícil arte de unir dois pontos

premissa 1: Recente pesquisa indicou que, para realizar seus deslocamentos diários, o paulistano depende mais (55%) do transporte público, cuja qualidade — sobretudo a dos ônibus, de responsabilidade majoritária da Prefeitura — tem decaído a olhos vistos nos últimos anos. (Quem anda de ônibus sabe do que estou falando: gado é mais bem tratado do que as pessoas nesta metrópole. E, sinto dizer, isto não é exagero.)

premissa 2: As eleições — como as que foram concluídas neste 26 de outubro — constituem um dos raros momentos em que o cidadão pode, de fato, alterar o andamento das coisas, deixando claro, por exemplo, que está insatisfeito com o rumo (ou a falta dele) que os investimentos em transporte público têm tomado na cidade.

conclusão 1: A grande maioria da população de São Paulo (mais precisamente, 60,72% dela) diz nas urnas que concorda com tudo que está aí, obrigada e até a próxima!

conclusão 2: Logo na manhã seguinte, em alguns (e eu arriscaria dizer “em todos”, mas só posso dar o testemunho daqueles pelos quais passei) dos milhares de ônibus lotados que se arrastam pelas ruas da capital, ouve-se o já conhecido muxoxo contra a situação humilhante a que somos submetidos dia após dia, blá, blá, blá… (E não me venham dizer que os que reclamam votaram em peso na candidata da oposição, que essa não cola. Basta sair perguntando por aí para constatar…)

– Ω –

Se o resultado das eleições só me fez mergulhar na melancolia, se a ausência de reação por parte de meus concidadãos me deixa cada vez mais amuado, pelo menos posso festejar mais um achado digno de figurar no rol de favoritos: Pra lá e pra cá é o blog de Thiago Guimarães, um paulistano que faz mestrado na Alemanha sobre Planejamento e Desenvolvimento Urbano. Realmente animador conferir o que ele tem postado por lá: reflexões sobre alternativas de transporte urbano, relatos de experiências bem-sucedidas de outras cidades, pesquisas e matérias que abordam os caminhos e descaminhos da vida urbana ao redor do mundo. Em seu último post, Thiago nos presenteia com uma entrevista com Soninha, ex-candidata à Prefeitura de São Paulo.

Escrito por Ronoc ¦