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Pitada de sal #6

22 de março de 2009 - 8:37 am

“A linguagem, precisamente por sua ambigüidade errática, tenta convencer os usuários de sua própria precisão e peso, declarando-se seu caráter absoluto, seu caráter de sistema capaz de congelar o mundo num modo fixo de ser. […] Mas é claro que, apesar dessa visão corrente, cada uso singular da linguagem prova o contrário: que a linguagem se apossa da realidade não petrificando-a, mas reconstruindo-a por via imaginativa, por alusão, inferência e sugestão […], tornando-a móvel e, em última instância, fugidia: tornando-a ‘transparente’. Assim, a linguagem não pode nunca servir aos ditames do poder, seja ele político, religioso ou comercial, a não ser sob a forma de um catecismo fixo de perguntas e respostas; por mais que queira, a linguagem é incapaz de fixar o que quer que seja. Nosso olhar ‘atravessa’ a realidade que a linguagem expõe, camada por camada, à maneira de um palimpsesto, de tal modo que, afinal, nossa leitura das histórias torna-se infinita, cada história aludindo a ou sugerindo outra mais abaixo, sem que nenhuma possa se afirmar como verdade última.”

Passagem de A cidade das palavras, de Alberto Manguel (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.32-33), na tradução de Samuel Titan Jr.

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