Archive for dezembro \28\UTC 2008

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2009: dez anos do primeiro homem em Marte

28 de dezembro de 2008 - 2:56 pm

Imagine que após séculos de sonhos e décadas de ensaio, a humanidade finalmente consegue por os pés em Marte, descobre que o planeta não só possui construções de fabulosa arquitetura, mas também — segurem seus queixos — é habitado por figuras que lembram, em muitos aspectos, os terráqueos. Imagine que os astronautas enviados nessa venturosa missão inaugural buscam a primeira casa que avistam, dirigem-se à porta, batem nela, vêem-na abrir-se e, quase engasgados de emoção, dizem: “Olá! Viemos da Terra!” Do outro lado, uma dona de casa marciana recebe a notícia com o entusiasmo de quem aguenta a lenga-lenga de vendedores de bugigangas…

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Quando ainda não havia spirits vasculhando o solo marciano e de lá nos enviando cartões-postais improváveis, quando metade do Planeta Terra era, ele sim, vermelho, e os comunistas ocupavam o posto de vilões favoritos da “América”, um autor norte-americano utilizava toda sua potência criativa para descrever a epopéia humana rumo a Marte. Ray Bradbury (1920- ) — talvez mais conhecido por Fahrenheit 451, que foi levado ao cinema por François Truffaut — lançou como livro, em 1950, a reunião de 26 contos que vinham sendo publicados em diversas revistas de pulp fiction. Ao conjunto, deu o título As crônicas marcianas (São Paulo: Globo, 2005).

Aqueles que torcem o nariz para a literatura de ficção científica, rotulando-a como escapista, alienada e alienante, não fariam mal em aprender uma ou duas boas lições com Ray Bradbury (com Philip K. Dick e William Gibson, também, só para citar mais dois grandes escritores do gênero).

Na verdade, As crônicas marcianas tratam, antes de mais nada, dos encontros e desencontros da espécie humana consigo mesma. E só por essa razão, sua leitura será valiosa hoje e no futuro, como foi em sua época. Busca por liberdade, por significado e compreensão da existência, limites da tolerância, identidade versus alteridade, choques culturais, desenvolvimento sustentável — são alguns dos temas que, com maior ou menor intensidade, atravessam as narrativas de Bradbury, conferindo-lhes profundidade e possibilidades de interpretação variadas.

Alguns contos, como Flutuando no espaço (pp. 159-179) e Usher II (pp. 182-203), escancaram o tom político, avançando sem pudores sobre questões chave dos EUA da época, como os direitos civis da população negra e o flerte com a censura trazido pela paranóia macartista.

“Os antigos nomes marcianos eram nomes de água, ar e de colinas. Eram nomes de neves que caíam no sul em canais de pedra para preencher os mares vazios. E nomes de feiticeiras enterradas, de torres e de obeliscos. E os foguetes esmagavam todos os nomes como marretas, transformando o mármore em argila, despedaçando os marcos de barro que davam nome às antigas cidades, e nesses escombros enfiavam-se postes suntuosos com novos nomes: CIDADE DO FERRO, CIDADE DO AÇO, CIDADE DO ALUMÍNIO…” (pp. 180-181) Estava Bradbury falando de foguetes humanos invadindo Marte, ou de caravelas singrando os mares rumo ao Novo Mundo? De astronautas, ou de garimpeiros em busca de um Oeste “selvagem”? São analogias óbvias, que o próprio autor se encarrega de alimentar ou explicitar aqui e ali nos contos. Mas deve-se destacar que essas aproximações, apesar dos 50 anos de idade, ainda obrigam a pensar, seguem provocando incômodo.

Em 2009, comemoram-se os 10 anos da primeira pegada humana deixada em solo marciano — ao menos se acreditarmos nos relatos de Bradbury… Prepare-se para as comemorações (re)descobrindo este clássico da ficção científica.

Escrito por Ronoc e também publicado no Blog da Cultura ¦

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Uma viagem pelas livrarias da Europa

25 de dezembro de 2008 - 2:51 pm

Não existe publicação que se assemelhe aos guias de viagem, mas que trate, de forma específica, exclusiva, de livrarias. Ao menos, não que eu conheça. (No Brasil, o que mais se aproxima disso é o excelente Guia de Sebos, elogiável iniciativa de Antonio Carlos Secchin, publicado pela Lexikon.)

Não existe publicação impressa, devo me corrigir. Porque há, na internet, o Bookstore Guide, que se apresenta como “um guia amador para compras de livros Europa afora”. Isso já esclarece algo sobre o guia e sua abrangência, mas é interessante saber que ele nasceu das mentes de Sonja (sérvia) e Ivan (eslovaco), quando eles passavam férias em Sarajevo, na Bósnia. Fruto da reunião de duas paixões — a de viajar e a de ler —, o BG apresenta as descobertas que o casal vai colecionando sempre que passeia pelo velho continente. Já são mais de 70 cidades visitadas e a lista continua crescendo.

Livraria Bertrand (Lisboa, Portugal)

Livraria Bertrand em Lisboa, Portugal: rumo aos 300 anos de existência.

O último local visitado foi a Livraria Bertrand, localizada no bairro do Chiado, em Lisboa, Portugal. A história da Bertrand daria um livro: fundada em 1732, destruída pelo terremoto que assolou a capital portuguesa em 1755, foi obrigada a se mudar para junto de uma capela enquanto as partes afetadas da cidade eram reconstruídas; demorou quase duas décadas, mas finalmente a livraria pôde voltar para a região em que havia sido fundada, desta vez na Rua Garret, por onde, diz um texto institucional no site da livraria, costumavam passar e permanecer em “acesas tertúlias” eminentes figuras da intelectualidade lusitana como Alexandre Herculano, Antero de Quental e Eça de Queirós. Sede do que hoje é uma cadeia de 52 livrarias espalhadas por todo o país, a Bertrand do Chiado arrebatou o primeiro posto no Top 5: Oldest Bookstores on the Continent, elaborado por Sonja e Ivan.

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Parece um palacete, mas é uma livraria.

Aliás, também é portuguesa a livraria que encabeça outro ranking (o Top 5: Impressive Appearance) mantido pelos criadores do BG. A suntuosa Lello & Irmão, localizada na cidade do Porto, poderia facilmente ser confundida com um palacete, de tão indescritível que é a beleza de suas também centenárias (abriu as portas em 1906) dependências. (Confira um tour virtual, provavelmente clandestino, pela livraria. E, no blog O Leitor, mais fotos da Lello, juntamente com um link para matéria do The Guardian em que o jornal inglês também exalta a beleza da livraria portuguesa.)

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A lendária Shakespeare and Company também está no Bookstore Guide.

Não se engane. O aparente domínio de livrarias portuguesas é apenas isso: aparente. Desde a lendária Shakespeare and Company (para quem não a conhece, vale a dica de dois ótimos livros que têm a livraria como personagem principal: Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, de Sylvia Beach, escritora e editora que fundou a livraria; e Um livro por dia, do jornalista canadense Jeremy Mercer, que seguindo o hábito de alguns assíduos frequentadores do local, viveu alguns dias literalmente entre livros) até uma pequena livraria na capital da Armênia, Yerevan, o BG traz inúmeros achados, capazes de deleitar até os que não são assim tão apaixonados por livros.

Não se trata de um guia impresso, mas em tempos de pequenas e maravilhosas engenhocas como iPhone e similares, o Bookstore Guide pode se converter num precioso companheiro de viagens.

Escrito por Ronoc ¦

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Pitada de sal #4

12 de dezembro de 2008 - 8:15 am

cormac_mccarthy“Ele voltou para a floresta e se ajoelhou ao lado do pai. Ele estava envolvido por um cobertor como o homem tinha prometido e o menino não o descobriu mas se sentou ao seu lado e chorava e não conseguia parar. Chorou por muito tempo. Vou conversar com você todo dia, sussurrou. E não vou me esquecer. Não importa o que aconteça. Então ele se levantou e se virou e caminhou de volta para a estrada.”

Trecho do estupendo, do colossal A estrada, de Cormac McCarthy (Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p.233), na não menos brilhante tradução de Adriana Lisboa.