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O homem que amava um bom mistério

4 de julho de 2009 - 9:10 am

Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!

Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.

Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.

Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história.  Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.

Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam com sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.

De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.

– Ω –

Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.

Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.

Escrito por Ronoc ¦

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5 comentários

  1. “[…] pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros.”

    Esses três primeiros livros não seriam a trilogia do meio, seriam? Tipo… lançar os volumes IV, V e VI; depois, um “prequel” em forma de outra trilogia; por fim, quatro volumes que só seriam lançados numa livraria distante, muito distante.


  2. Hehehe. Também lembrei disso, digníssimo amigo. Agora, essa história de contratar outros escritores para continuar a obra de finados autores é bem polêmica, não?


  3. Que horror! Ronoc, olhe só, no Submarino o livro está pela metade do preço: http://www.submarino.com.br/produto/1/21428470/homens+que+nao+amavam+as+mulheres,+os

    Esse eu comprei só porque estava barato – além, é claro, para me livrar do custo do frete, que acima de dois livros, numa dessas promoções sazonais, sai de graça.


  4. Olá, Henry. De fato, o livro ficou rondando a casa dos R$19,00 cerca de um mês, devido a uma promoção da própria Companhia das Letras, que rebaixou o preço do primeiro para impulsionar as vendas do segundo. As livrarias que o compraram em demasia — e devem estar com um estoque nas alturas — andam fazendo de tudo para se livrar dele… Você detestou o livro, ou o ‘horror’ se referiu a quê?

    Um abraço e obrigado pela visita.


  5. […] dos livros de Larsson, considerados policiais apenas por falta de classificação mais apropriada (Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia, trata de crimes econômicos, tráfico de influência política, questões […]



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