Archive for julho \11\UTC 2009

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Que gosto tem o Japão?

11 de julho de 2009 - 11:51 am

Perambulando por bairros de Tóquio, em cidades vizinhas ou distantes, um homem, seu terno e sua fome — melhor: e sua vontade de comer. Poderíamos resumir Gourmet (São Paulo: Conrad, 2009, 202p., tradução de Drik Sada), de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, dessa forma. E estaríamos cometendo uma tremenda heresia — algo como cortar spaghetti, sabem?

Nas orelhas do livro, a editora se questiona sobre qual seria a melhor classificação para Gourmet: longe de ser um “simples” mangá, poderia funcionar como um guia para quem pretende conhecer o Japão, mas não causaria estranheza se fosse encarado como poesia visual. Eu tendo a concordar com a segunda opção, tamanha é a beleza desta obra de Taniguchi, mas ainda prefiro chamar os 18 capítulos de contos. De qualquer forma, é preciso encarar Gourmet como um prato que se saboreia com reverência e que somente aos poucos vai revelando seus ingre- dientes e temperos em insuspeitadas combinações. O que não se diz, mas apenas é insinuado pelos painéis que Taniguchi vai montando do espaço visitado por seu personagem, é tão ou mais importante do que aquilo que nos oferece em primeiro plano. Os silêncios, a incrível expressividade que imprime a seu gourmet solitário nos fazem parar, ao final de cada capítulo, e refletir.

Os traços limpos, precisos, contrastam com a total falta de definição dos roteiros do protagonista (do qual sequer ficamos sabendo o nome). O acaso, temperado pelas reuniões de negócios (sabemos apenas que se trata de um comerciante autônomo), é seu menu. Mas se estivermos atentos, veremos que o homem refaz um percurso marcado pela nostalgia: parques visitados em companhia de antigas namoradas, locais da infância, territórios da memória, transformados pela passagem do tempo.

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

O sabor é amargo em alguns desses “contos”. Como quando “o comerciante” presencia um dono de lanchonete humilhando um empregado — o que faz seu apetite cessar imediatamente —, ou quando busca quase com desespero um local em que havia comido muitos anos antes, e descobre que o crescimento vertiginoso do bairro riscou do mapa o restaurante que procurava. Resta-lhe a memória. Como um gostinho bom que fica na boca e que anos depois volta, trazendo consigo recordações preciosas…

É isso: o menu está aberto. A cada capítulo, uma iguaria e um local nos são ofertados pelo chef Jiro Taniguchi nesta deliciosa viagem gastronômica pelo Japão. Como cortesia da casa, saboreie o primeiro prato de Gourmet. Bom apetite!

Escrito por Ronoc ¦

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Político NÃO é tudo a mesma coisa

7 de julho de 2009 - 11:05 pm

Há políticos e Políticos. Gente que só quer se autopromover e colecionar vantagens, e pessoas que realmente querem modificar para melhor (e para todos, é preciso ser claro) a realidade que nos cerca. Não há dúvidas de a qual categoria a subprefeita da Lapa, Soninha Francine, pertence. (Para aqueles de fora de São Paulo, e que talvez não a conheçam tão bem, explicito: à segunda.)

Podem até dizer que Soninha tem lá seus defeitos (pessoalmente, só sei de um: ser palmeirense), mas acredito que a falta de coerência jamais será um deles. Fiquei surpreso — mas nem tanto — quando a vi chegar à Livraria Cultura da Pompéia portando sua Flexbike devidamente decorada com o adesivo “Um carro a menos”. Finalmente um político que pratica aquilo que prega! Por essas e por outras que não me arrependo de nenhum dos votos que dei a ela (e sei que não me arreperenderei dos que ainda vou dar, nas próximas eleições).

Por essas e por outras que, embora corinthiano, faço questão de divulgar aqui o lançamento do novo livro de Soninha, Meu pequeno palmeirense (Caxias do Sul, RS: Editora Belas Letras, 2009, 24p., com ilustrações de Baptistão), o mais recente título da série Meu Time do Coração.

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O homem que amava um bom mistério

4 de julho de 2009 - 9:10 am

Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!

Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.

Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.

Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história.  Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.

Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam com sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.

De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.

– Ω –

Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.

Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.

Escrito por Ronoc ¦