Archive for julho \12\UTC 2013

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Como dizer adeus a quem se ama…

12 de julho de 2013 - 5:29 am

livro_tibetano“Às vezes, a pessoa que vai morrer pode resistir por muitos meses ou semanas além do que os médicos previram, e passar por um tremendo sofrimento físico. […] para essas pessoas se sentirem prontas para deixar tudo e morrer em paz, elas precisam ser tranquilizadas verbal e explicitamente por aqueles que amam sobre pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, precisam obter deles permissão para morrer, e em segundo ter a certeza de que estarão bem depois que ele ou ela se for, e que não há motivo para preocupação a respeito.

Quando alguém me pergunta qual a melhor forma de dar permissão para morrer, peço-lhe que imagine a si próprio diante do leito da pessoa que ama, dizendo-lhe com a mais profunda e sincera ternura: ‘Estou aqui com você, e eu o amo. Você está morrendo e isso é absolutamente natural; acontece com todos. Gostaria que pudesse ficar aqui comigo, mas não quero que sofra mais. O tempo que passamos juntos foi muito bom e vou sempre me lembrar dele com carinho. Por favor, agora não se agarre à vida por mais tempo. Solte-se. Dou a você a minha plena e sincera permissão para morrer. Você não está sozinho agora, e nem estará nunca. E tem todo o meu amor’.”

Sogyal Rinpoche em “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (São Paulo: Talento / Palas Athena, 12a. ed., 2010, pp. 237-238)

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As memórias que guardo de meu pai #1

11 de julho de 2013 - 11:25 am

Imagem compartilhada pela querida amiga Danielli

Fico impressionado como o mecanismo do trauma ao mesmo tempo tem o poder de bloquear e libertar nossas memórias mais profundas. Certa vez, ao sofrer um acidente de bicicleta tão grave que chegou a rachar meu capacete (que salvou minha vida, imagino), percebi que uns 20 a 30 minutos daquele episódio simplesmente haviam sido apagados da minha mente. Lembrava (e ainda lembro) apenas de momentos antes do acidente acontecer, e depois de aparecer como por encanto em um banheiro com a testa ensanguentada e dois senhores me amparando. Entre uma coisa e outra, é como se nada existisse. O médico logo me corrigiu: o episódio não havia sido apagado. O mais correto, explicou, seria dizer que um mecanismo complexo de nosso cérebro nos ajuda a superar momentos traumáticos “trancafiando” as memórias deles em algum canto bem escondido de nossa cabeça. A memória está lá, mas fica inacessível. Para nos proteger da dor…

Agora que meu pai se foi, contudo, o trauma está agindo no sentido oposto, trazendo à tona episódios que eu nem sabia mais que haviam existido. Vêm falas, imagens, silêncios e gargalhadas, brotando num ímpeto que às vezes se torna até opressor tamanha a dificuldade de lidar com tantas emoções que se atropelam — todas urgentes, todas necessárias, todas alucinadamente se arremessando em minha consciência, exigindo minha atenção, implorando para que eu as coloque numa ordem lógica qualquer, que faça algum sentido. Qualquer um, mas que traga isso: sentido.

Muito provavelmente, estou equivocado. O que deve estar agindo neste momento deve ser algum mecanismo tão poderoso quanto, mas disparado pela perda. E esses fragmentos de lembranças voltam porque talvez eu esteja tentando desesperadamente me agarrar a cada pedaço vivo (ainda que intangível) de meu pai. Como se magicamente fosse capaz de reconstituí-lo. 

Independente das minhas ou das suas crenças, o fato é que meu pai continua vivo em mim — e nas pessoas que ele tocou durante sua passagem por este planeta. E o sentido biológico disso é o menor e menos importante. Ele continua em tudo que presenciei e compartilhei com ele, em tudo que me ensinou, ou que me deu a chance de experimentar. Esse patrimônio, pretendo passá-lo da maneira mais fiel possível à minha filha, para que ela saiba de onde vieram suas raízes, para que ela possa compreender melhor seu próprio pai, sabendo a origem de minhas virtudes e defeitos.

Sei que tudo isso talvez só diga respeito a mim, e à minha família. Porém, vou deixando aqui registrado, para que não se perca, para que uma espécie de legado (palavra que aqui soa tão pretensiosa, desculpem) vá sendo criado. Para que eu siga compartilhando meus dias com a memória de meu pai.

por Ronoc |