Posts Tagged ‘livros’

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Pitada de sal #17

29 de dezembro de 2010 - 8:17 am

Maria Rita Kehl“A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibi- cionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosa- mente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. Se o tédio, o spleen, o luto e outras formas de abatimento são malvistos no mundo atual, os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber.”

Maria Rita Kehl em passagem de seu O tempo e o cão: a atualidade das depressões (São Paulo: Boitempo, 2009, p.22).

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A vida é um jogo

12 de dezembro de 2010 - 9:09 am

O grande jogo de Billy Phelan, de William KennedyAs ruas de Albany, capital do estado de Nova York, nos anos que sucederam a Grande Depressão formam o cenário deste romance que a editora Cosac Naify escolheu para apresentar — ou reapresentar, já que algumas de suas obras já haviam circulado por aqui na década de 1980 — ao público brasileiro o autor norte-americano William Kennedy. Com O grande jogo de Billy Phelan (São Paulo: Cosac Naify, 2009, 344p.), a editora deu início à publicação no Brasil do chamado Ciclo de Albany, conjunto de sete livros que têm a cidade como pano de fundo e as tor- tuosas relações entre seus habitantes como foco. À medida que escrevia as obras, o autor começou a perceber que elas constituíam “uma série aberta de narrativas não-seqüenciais, cada uma das quais se concentrava num único indivíduo que conduzia histórias alheias, cada uma delas escrita como obra capaz de se afirmar por si só, independente das demais do Ciclo; ainda assim, todos os livros se entrelaçavam” [1].

Neste primeiro ato, conhecemos o jovem Billy Phelan, uma “estrela” da noite de Albany, especialmente dos jogos que reúnem sua gente e animam sua sofrida existência. Seja nas pistas de boliche, nas mesas de pôquer ou de bilhar, ou ainda administrando as apostas nas corridas de cavalos, Billy é um exímio jogador. Do jogo vem seu sustento. No jogo exercita toda sua habilidade, aplica todo seu conhecimento.

Pouco a pouco, Kennedy vai nos deixando claro que nesta história o que está em jogo é a própria vida de Billy Phelan. O jogo tem suas regras: os códigos não escritos que regem as relações do submundo, os cógidos de honra e solidariedade que domesticam e influenciam as tensões sociais, unindo e afastando as pessoas; a linguagem do poder, que tem de ser compreendida desde cedo: Manda quem pode, obedece quem tem juízo… Afinal, o jogo tem seus donos. Senhores do mundo e do submundo de Albany, a família McCall domina a política, a economia e a jogatina da cidade. Quem quiser mover-se por qualquer um desses domínios — ou seja, quem quiser viver por ali — tem que lhes prestar vassalagem.

Mas deve ser assim sempre? Não haverá brechas por onde se mover, espaços a conquistar, caminhos alternativos a percorrer? É isso que Billy parece questionar durante todo o romance. Será o baixar a cabeça e aceitar o que se apresenta à sua frente a única saída? Mas, esperem, entrar nesse jogo não é para qualquer um. Sair derrotado de uma pista, de uma mesa, de um salão é uma coisa — mesmo que você saia com uma dívida impossível de saldar –; no grande jogo de Albany, o que se joga, como já dissemos, é o direito de existir. E Billy sabe disso muito bem.

O livro começa com Billy fazendo o impossível numa pista de boliche, acertando strike após strike e se aproximando magicamente da perfeição, que lhe escapa por um triz; e termina com Billy equilibrando-se entre forças poderosas que ameaçam lhe fechar todas as portas de sua cidade, tirar-lhe o oxigênio, quase como quem joga para fora de um aquário um peixe que passou ali toda a sua vida. Billy é sim um jogador nato. Conhece as regras do jogo. Conhece-as tão bem, que consegue subvertê-las, colocando-se acima delas. Jogando na defensiva ou sendo arrojado aos limites da imprudência, Billy tenta iludir e superar seus adversários, um a um, ou todos juntos, numa grande e intrincada disputa.

Logicamente, como já se disse e o próprio título enfatiza, Billy é o foco principal deste primeiro romance do ciclo. Mas há muito mais em O grande jogo de Billy Phelan. A relação pai-filho, que tantas obras-primas legou à literatura, ao cinema, à música ou a qualquer outra das artes, ocupa também aqui o papel de uma das molas propulsoras da trama. Seja na dolorosa ausência do pai de Billy, Francis Phelan, — personagem, aliás, que toma o centro de outro dos livros do ciclo de Albany, Ironweed, também lançado pela Cosac Naify –; seja na relação de outra figura importante, o jornalista Martin Daugherty, com seu pai, um escritor e dramaturgo que custou para ver sua obra ser reconhecida (algum paralelo com o próprio Kennedy, que também sofreu para obter reconhecimento?). Martin ainda atua como uma espécie de “narrador paralelo” da história de Billy, compondo um mosaico de vozes e reflexões que só faz tornar a obra ainda mais interessante de se ler.

– Ω –

Vale dizer que quem me indicou — já faz um bom tempo — O grande jogo de Billy Phelan foi meu amigo Diego Blanco. Todo reconhecimento para sua dica e também para sua persistência, porque foi graças a ela que pude finalmente conhecer William Kennedy. Aliás, quem quiser saber mais sobre o mundo da cultura, da política e da economia sob ângulos nada convencionais precisa ouvir o Num faz cabimento, podcast “de cunho anarco-partidário, sem fins lucrativos e desenvolvido por quatro caras que não têm o rabo preso com ninguém” que o Diego e outros três amigos (o Dionisius, o João e o Ricardinho) jogam nas teias da rede semanalmente. Realmente imperdível!

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Desvendando a argentinidade

3 de agosto de 2010 - 10:43 pm

Tão perto, tão longe? — com O atroz encanto de ser argentino, Marcos Aguinis constrói um roteiro para visitar, e compreender, a alma profunda do povo argentino (*)

Existia uma anedota que dizia ser o argentino um italiano que falava espanhol e pensava ser inglês. Mas isso são brincadeiras de tempos idos, diriam os antigos. O argentino não é mais um europeu perdido em terras sul-americanas. Há algum tempo se vê que, final e desafortunadamente, a Argentina se “latino-americanizou”. No entanto, por mais incômodo que seja, não podemos esquecer que ainda falta piorar muito para que a Argentina chegue à condição de desequilíbrio social que assola e sempre assolou o Brasil. Ainda que não sejam portadores da verdade absoluta — e não o são — índices como o IDH da ONU são um bom ingrediente para azedar o humor duvidoso daqueles brasileiros que, num cúmulo de covardia e sadismo, comprazem-se com a derrocada aparentemente interminável dos “rivais” argentinos.

Mesmo vivendo há pouco mais de meio século uma decadência recentemente acelerada, a Argentina mantém em quase todos os aspectos sociais uma vantagem absurda sobre o Brasil. Exércitos de miseráveis espalhados pelas maiores cidades, crianças morrendo por falta de alimento, falência dos sistemas de ensino e saúde públicos são, para o argentino, atordoantes novidades com as quais lamentavelmente o brasileiro há tempos pareceu se acostumar. Estar atento a essa realidade é um passo importante para conhecer melhor nosso vizinho austral, mas não o bastante.

O que faz Marcos Aguinis em seu O atroz encanto de ser argentino (São Paulo: Bei Comunicação, 2002) é justamente nos auxiliar, abrindo caminhos a esse embrenhado complexo que é o âmago do ser argentino. O livro é um ensaio aparentemente despretensioso mas que, à medida em que avançamos, vai ganhando liga, se agigantando e termina por nos arrebatar e surpreender completamente: a mistura fina de leveza e profundidade, de auto-ironia e compromisso político sem dúvida encantam e fazem com que a aproximação do leitor brasileiro com o universo argentino se dê quase que de forma natural.

Os temas oscilam do político ao cultural (às vezes com abordagens que lembram o antropológico), resvalando em pequenos eventos do cotidiano, voltando ao político, ao social, valendo-se de breves retomadas históricas. Em cada frase, em cada passagem, em cada página, Marcos Aguinis parece atormentado, tomado por uma angústia inelutável, a de querer buscar e apresentar, a si, aos seus compatriotas, ao mundo, uma explicação plausível para a atual condição argentina.

Uma seqüência de imagens traduz de forma quase irretocável esse clima. Com um truque cinematográfico simples mas de impacto visual muito forte, numa Buenos Aires entristecida e submetida a aterradoras nuvens escuras (ou a uma única e interminável nuvem escura), o povo nas ruas, multidões de indivíduos silenciosos, cabisbaixos, marcha melancolicamente para trás — vale a referência: o filme é A Nuvem (La Nube, Argentina, 1998), de Fernando Solanas.

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

A nuvem (Argentina, 1998), de Fernando Solanas

É necessário compreender para superar. E é por isso que duas questões permeiam todo o livro: por que tudo deu tão errado? e como reverter o que parece acabado? A obsessão por responder a essas perguntas deve — o que é mais do que compreensível — ter se tornado uma epidemia nacional. O desempenho comercial do livro é eloqüente: num intervalo de cerca de um ano, nada menos que 17 edições foram avidamente absorvidas pelo público argentino.

O ATROZ ENCANTO DE SE VER REFLETIDO

Há mais de argentino no brasileiro e mais de brasileiro no argentino do que nossos vis preconceitos nos permitem enxergar. “Se quiséssemos simplificar as diferenças entre brasileiros e argentinos, poderíamos dizer que os primeiros se divertem ao ritmo do samba e os segundos choram ao ritmo do tango. A alegria do Brasil contrasta com a melancolia da Argentina.”, diz Marcos Aguinis na introdução à edição brasileira de seu livro. Perdoável equívoco. Como o tango, as raízes profundas do samba também se alimentam da tristeza das populações marginalizadas, como tão lindamente e para sempre nos lembrará Vinícius de Moraes em “Samba da Bênção”. Esse — o paralelo entre samba e tango — será apenas um dos tantos pontos de contato com que nos depararemos no decorrer da leitura.

A adesão ao personalismo e a conseqüente aversão às instituições, ou mesmo a alergia a qualquer tipo de lei ou regra, identificadas por Aguinis como ervas daninhas que vicejam na alma coletiva argentina, não por acaso nos lembram (como bem nota Pedro Malan no prefácio) o que dizia Sérgio Buarque de Holanda a respeito do brasileiro, sendo essas algumas das características negativas do que ele chamou de “homem cordial”.

Da mesma forma o ventajero ou vivo argentino — que recebeu um ácido e talvez definitivo retrato na recente película Nove Rainhas (Nueve Reinas, Argentina, 2000), de Fabián Bielinsky —, o famoso trambiqueiro que sobrevive da inocência de terceiros, aplicando golpes em série e se vangloriando disso, não é de forma alguma personagem estranho ao dia-a-dia do brasileiro. Maus hábitos de uma determinada parcela da população e que, às vezes com a anuência silenciosa de todos, acabam se transformando em rótulos negativos fáceis e por isso mesmo largamente difundidos mundo afora, também não nos despertam estranheza. Segundo Aguinis, muito da imagem que circula pelo mundo do argentino como um ser arrogante e espaçoso provém do cultivo e da aceitação, internamente, desses hábitos que desunem e geram tensão. Alguma semelhança com a irritante mania de certos brasileiros, sejam eles poderosos ou humildes ao extremo, de “levar vantagem em tudo” e ainda se gabar disso?

Nove Rainhas (Argentina, 2000): ou da execrável arte de passar a perna em todos à sua volta

Recuando à época colonial para investigar as raízes dos tropeços que deitaram por terra aquela que já foi uma das nações mais ricas e desenvolvidas do mundo, Aguinis nos confronta com mais um ponto facilmente reconhecível pelo público brasileiro. A ojeriza pelo trabalho, que era visto como tarefa de seres inferiores, escravos ou não, e a predileção pelo ganho fácil, que evitava a todo custo o risco do empreendimento concreto, jogava e continua séculos depois a jogar muitos dos donos do dinheiro a uma sanha especulativa desenfreada e escapista, pouco atrelada a atividades que promovam, mesmo que com imperfeições, o desenvolvimento da coletividade. Entre esforço e risco, e ócio e ganho fácil, não havia e não há muitas dúvidas.

Junto a isso, uma mítica crença de que tudo se resolve magicamente por si só — dá-se um jeitovamos tocando, e por aí vai — contribuiu para que problemas estruturais, mesmo quando identificados, nunca fossem encarados de frente, com a seriedade e firmeza necessárias.

Outro ponto de semelhança: a infantil necessidade de aprovação externa, o nefasto complexo de inferioridade que, desculpem a insistência, também não nos é nem um pouco desconhecido. Aguinis cita alguns exemplos. Entre eles, o esbanjamento insano de recursos públicos promovido à altura da comemoração do centenário (1810-1910) da revolução de maio (que marcou o início da emancipação argentina) com o único intuito de provar aos milhares de estrangeiros convidados o tão almejado pertencimento ao restrito clube das nações desenvolvidas. Enquanto o dinheiro escoava descontroladamente para festas e celebrações, muitos desses observadores internacionais, contudo, preferiam, mal-agradecidos, destacar os escândalos de uma justiça e de uma administração pública ineficientes e/ou corrompidas. Todos viam, mas os argentinos preferiam fazer de conta que não, aguilhoa o autor.

Mas nem tudo são espinhos. Um dos trechos mais belos do livro é aquele em que Marcos Aguinis investiga origens e desenvolvimento do tango. Uma das mais caras jóias do hoje combalido orgulho argentino, o tango sofreu para ser aceito pela “sociedade”. Exemplo perfeito daquele complexo de inferioridade que já mencionamos acima. Foi necessário ocorrer a aprovação externa do tango para que este fosse finalmente abraçado pelo povo argentino como um todo e elevado ao patamar de bem cultural nacional inestimável. Oriundo do “arrabalde”, do subúrbio, gestado em mentes e corações “impuros” e renegados, o gênero foi primeiramente taxado de sexualmente apelativo, de insolente e inconveniente pelas classes mais altas. Mas o tango, como sagazmente nos mostra o autor, talvez seja uma das mais perfeitas representações do que é ser argentino: em tudo que carrega de dor, de esperanças, de ideologias dos múltiplos povos que se reuniram para formar o que hoje é a Argentina. O tango é essencialmente a miscigenação de almas e, talvez por isso, se perpetue através dos tempos, sofrendo transformações maiores ou menores, no coração de tantas e tantas gerações.

COMENTÁRIOS SOBRE O OBJETO EM SI

Ainda que nos últimos anos possamos notar uma crescente preocupação das editoras em ter um cuidado especial no aspecto físico de seus livros, raras vezes se viu no mercado editorial brasileiro um projeto gráfico tão belo mas, sobretudo, tão pleno de pertinência como o que nos oferece este O atroz encanto de ser argentino.

Não quero parecer fetichista, mas sob certo aspecto o livro já cumpre seu papel mesmo sem ser lido. Porque para aquele que simplesmente o manuseia, sem dele sequer ler uma frase, o livro já se oferece rico em possibilidades simbólicas.

Na capa, contra-capa e lombada predominam tranqüilas as cores branca e azul-clara, que remetem obviamente à albiceleste bandeira argentina, e de alguma forma preparam as emoções do leitor para o que ele irá encontrar à frente.

O papel utilizado na impressão, como nos adverte uma pequena nota ao final do livro, é um novo produto de uma companhia brasileira, um papel reciclado que, ainda segundo a nota, tem parte de sua composição proveniente de uma cooperativa de catadores de papel, e reverte uma porcentagem da renda gerada com sua comercialização para o sustento de uma organização não-governamental que apóia projetos socioambientais. Numa época em que, tanto cá como lá, não suportamos mais ouvir a cantilena do sacrifício de tudo e de (quase) todos em nome exclusivamente de responsabilidades fiscais, que na maior parte das vezes esgotam-se em si mesmas, uma iniciativa empresarial como essa, com intenções ecológico e socialmente responsáveis, não deixa de ser um bom indicativo. Mas podemos tomar a adoção desse papel reciclado como uma mensagem metafórica — simpática não só aos argentinos mas também a todos aqueles povos que, como nós, sabem o que é viver numa espécie de inesgotável crise social — de que vale a pena insistir, lutar, se reinventar. Há e sempre deve haver esperança de renascimento, mesmo quando as coisas parecem ter sido arremessadas ao abismo infinito.

Mas o detalhe, ainda para falar apenas da parte física do livro, que mais chama a atenção é mesmo a capa. Com rara felicidade se decidiu que a capa seria prateada, de um prateado brilhante, o que evoca a viagem etimológica que Aguinis promove a respeito do vocábulo Argentina: prata que seduziu e atraiu milhões de pessoas de todo o mundo, aguçando ganâncias e rivalidades, prata que deu nomes e se fixou para sempre no imaginário argentino, também como sinônimo de dinheiro. Mas a prata brilhante da capa é também um quase-espelho, volta-nos uma imagem um tanto turva, pouco definida, mais adivinhada que exata. É, penso eu, a grande chave de todo o livro. É o convite definitivo à reflexão: em dois dos sentidos que a palavra refletir comporta: pensar, meditar sobre algo, mas também espelhar.

Quem lê esse Atroz Encanto de Marcos Aguinis vê o quão imbecil é essa rivalidade que durante anos e anos foi sendo erguida entre brasileiros e argentinos, vê, repito, quantos são os pontos, positivos e negativos, de contato entre nossos dois povos. Me ocorreu várias vezes durante a leitura que este deveria ser um livro entusiasticamente recomendado a estudantes do ensino médio e superior: talvez assim pudéssemos ver finalmente pulverizada a muralha que esconde brasileiros de argentinos e vice-versa. Talvez assim víssemos nascer uma nova e única nação, construída sobre o verdadeiro e belo sentido da palavra hermano/irmão.

Para retomar A Nuvem, lembremos da luta pela preservação da memória que o filme apresenta. O embate se dá com o novo, que se coloca de forma incisiva, inapelável, apagando violentamente qualquer vestígio de lembrança de pessoas, de eventos, da História. Não se trata de uma luta pelo conservadorismo, mas tão-somente pela preservação da identidade, pela possibilidade do auto-conhecimento. Na verdade, este é um desafio comum a argentinos e brasileiros. É como se ambos devessem aceitar o novo, mas pesando-o, julgando-o, recuperando também o que de bom oferece o passado, as origens comuns, e, por meio deste retorno, construir uma história única. Uma história na qual gigantes adormecidos acordam de um profundo pesadelo e apresentam-se ao mundo como irmãos fortes, capazes de enfrentar juntos as turbulências do presente.

P.S.: Quem quiser conhecer melhor Marcos Aguinis pode acessar sua página na internet, em www.aguinis.net. Entre outras informações, pode-se ter uma idéia de sua vasta produção literária, que é composta por mais de vinte livros, divididos em ensaios, romances, contos e biografias.

Escrito por Ronoc ¦

(*) Texto publicado originalmente em janeiro de 2003, no número 11 da (agora finada) revista eletrônica Rabisco.

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Pitada de sal #16

10 de julho de 2010 - 10:05 am

“Avilo: esgoto do mundo?, fim da cauda do rio onde a chuva faz as vinganças dela? Chuva já não era chuva!, até nós aqui chegamos de meter respeito nos bródas moçam- bicanos, mesmo eles especialistas das enchentes. As costuras do céu tinham rebentado e o costu- reiro-anjo tava de férias — e nós aqui, a aguentar as aquáticas consequências: mais calamidade menos calamidade, quem quer mesmo saber? Internacionalmente somos mais destacados é na guerra e na fome, única chuva que lhes interessa vir aqui sofrer é chuva petroleo-diamantífera, tás a captar, uí?, outras chuvas das lamas dos mosquitos gordos de matar ndengues na febre das madrugadas, ou mesmo chuva do sorriso repentino e rebentado dos alcatrões de nunca mais lhes consertarem, ou chuva molhada nas nenhumas tendas e telhas dos deslocados provinciais da nossa guerra gorda e engordante, essas são chuvas mais próprias pra pobres, e essas ninguém veio aqui pôr pele dele pra ser salpicado na visão dos olhos: andar já era nadar, conduzir já era navegar, viver já era só sofrer. Nosso povo mesmo é que me causa espanto no coração: rir é rir, um ato labial de para-sempre, e rir não só pra dentro, mas de dentro pros outros também, pra atingir e tingir a vida. Agora parece vou ter que te falar isto: aqui a vida é que está a ser adoptada, fosse uma criança d’olhos bem ramelados que você no olhar lhe busca e encontra a ternura — aí você lhe gosta, lhe habitua. Aqui a vida parece uma criança enteada que lhe aceitamos em casa, ela a fugir da guerra…”

O escritor angolano Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki (palavra umbundu, uma das línguas oficiais de Angola, que signfica “aquele que enfrenta desafios” ou “guerreiro”), em seu mais recente livro lançado no Brasil, Quantas madrugadas tem a noite (São Paulo: Leya, 2010, p.21).

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Na Companhia do Luiz

5 de julho de 2010 - 7:16 am

Grandes editores do passado — como os lendários José Olympio e Jorge Zahar — não tiveram às suas mãos essas maravilhas da comunicação que existem hoje, como a internet e um de seus subprodutos mais difundidos, o blog. Não puderam, portanto, fazer o que tem feito há algumas semanas Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras, no recém-inaugurado Blog da Companhia.

Não conheço pessoalmente o Luiz (não sei se é simpático, humilde, generoso, ou arrogante, pretensioso, cheio de si — ou se uma mistura de tudo isso e de outros infindáveis ingredientes, como a quase totalidade de nós, seres terrenos). Conheço a objetivação de seus sonhos, de seu trabalho (e do de todas as pessoas que estão a seu lado): seus livros. E isso me basta para sentir por ele uma profunda e respeitosa admiração. Quem é do meio (de que vertente for: editorial, comercial, autoral, crítica) sabe o quanto de espírito kamikaze está presente numa pessoa que conscientemente se predispõe a viver de livros no Brasil. Assim, observar no que Luiz transformou essa Companhia nesses vinte e quatro anos de existência, observar a qualidade e esmero que transbordam de cada uma das milhares de páginas trazidas a público todos os meses por sua editora, parece quase como assistir a um dos trabalhos de Hércules sendo executado bem em frente aos nossos olhos.

Quem consegue observar isso — e entender isso — pode ter um vislumbre do privilégio que é poder conhecer, semanalmente, alguns dos episódios mais curiosos, tocantes e surpreendentes que marcaram e vem marcando a trajetória deste homem dos livros.

Não quero me estender, porque isto aqui não era para ser uma hagiografia — e se ficou parecendo, foi porque perdi a mão, inábil que sou. Quero apenas deixar sublinhada com ênfase (e por isso vale a redundância) a sugestão para que todos aqueles que amam o livro aproveitem essa oportunidade de conhecer um de nossos maiores editores vivos. Fica também a sugestão — e a torcida — para que mais editores brasileiros copiem a iniciativa da Companhia e abram suas casas para o público leitor. Farão um bem incalculável ao culto do livro e da leitura em nosso país.

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Frozen noir

1 de julho de 2010 - 7:06 am

Para aqueles que ao final da saga Millennium sentem-se meio órfãos, lamentando não só a perda humana que representou a morte precoce do escritor Stieg Larsson, mas também a impossibilidade de ver seu projeto se desenvolver em sua totalidade (pretendia escrever pelo menos 10 romances com a dupla Blomkvist & Salander), fica a dica (como diria meu amigo Diego Blanco): (re)des- cubram Henning Mankell. Também sueco, também romancista policial (mas não só, já que é dramaturgo e escreve também para o público infanto-juvenil), Mankell acaba de ter seu quinto livro lançado por estas plagas: Guerreiro Solitário (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 488p.; na tradução de George Schlesinger).

Mas, como sentenciariam os sábios, do começo é que se deve começar. Portanto, falemos do primeiro romance de Henning Mankell publicado no Brasil, Assassinos sem rosto (São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 312p.; na tradução de Beth Vieira).

Ao contrário dos livros de Larsson, considerados policiais apenas por falta de classificação mais apropriada (Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia, trata de crimes econômicos, tráfico de influência política, questões morais, embates familiares etc., e tem como protagonistas um jornalista e uma jovem hacker que trabalha numa empresa de segurança privada), Mankell trabalha com a estrutura por excelência do policial clássico: delegacia, tribunal, tiras e bandidos. Kurt Wallander — o personagem principal e que aparece em outros 8 livros — é um investigador experiente  de uma pequena cidade litorânea sueca, Ystad. Aos 43 anos (mesma idade que Mankell tinha à época em que escreveu o livro, 1991), observa com crescente preocupação os rumos que seu país e seus conterrâneos tomam.

Mankell explora também um elemento praticamente indispensável dos romances noir: a solidão do protagonista. Afinal, o fato de sentirem-se à margem das sociedades cujas entranhas devem revirar dota os investigadores ficcionais daquilo que os antropólogos chamariam o olhar de estrangeiro — capaz de notar os detalhes que escapam a todos nós, domesticados pelo dia-a-dia, acostumados a rotinas, hábitos, atitudes e comportamentos que, para alguém de fora, soam peculiares, provocam interesse, exigem decifração.

Assassinos sem rosto abre com um crime brutal: um casal de fazendeiros idosos é atacado em sua casa com requintes de violência nunca antes vistos naquela região — uma cidade pequena, como dissemos. Aliás, a percepção de uma escalada nos níveis — e uma transformação nos tipos — de violência é algo que provoca mal-estar em Wallander (um policial mais acostumado a lidar com beberrões, brigas entre vizinhos e atropelamentos), e o faz perguntar-se diversas vezes ao longo do livro “Para onde está indo este país?”.

O que se destaca em Assassinos sem rosto não é uma trama altamente intrincanda e reviravoltas surpreendentes, de tirar o fôlego, mas sim uma paisagem, um clima de desolação, melancolia e abandono que se adensa em torno dos fatos e dos personagens, e dita o ritmo da história. É quase como se o crime ficasse num plano secundário, eclipsado pelo estupor diante dos mistérios e descaminhos da natureza humana. Não por acaso, o livro é permeado de idas e voltas de seu protagonista aos temas que mais o oprimem: o casamento recentemente desfeito, a incapacidade de se comunicar com sua filha, e também com seu velho pai; a desconfortável sensação de estar envelhecendo, e de não conseguir mais compreender o espaço e o tempo em que vive.

A questão política — no caso, o “descontrole” na política de concessão de asilo para estrangeiros que, martela Wallander, confunde bons e maus cidadãos, abrindo as portas do país para mafiosos e ex-torturadores de antigos regimes ditatoriais — ganha tom acentuado na narrativa de Mankell. O ódio racial, e todos os crimes a ele ligados, caracteriza outro pólo de tensão no romance, que avança oferecendo pistas falsas, embaralhando hipóteses, confundindo e atraindo o leitor até as páginas finais.

Mankell é daquela estirpe de escritores que busca ser coerente com as palavras que assina. Jovem, envolveu-se com todo tipo de manifestação política (contra a Guerra no Vietnã, contra as guerras coloniais na África etc.). Hoje, já na casa dos 60, mantém no ativismo político uma das vertentes mais importantes de sua vida. Por isso, não foi assim tão surpreendente descobrir o nome de Henning Mankell entre os presentes nas embarcações da frota humanitária turca que procurou furar o bloqueio israelense à Faixa de Gaza no final de maio. Vivendo entre a Suécia e Moçambique (onde mantém, desde 1986, um grupo teatral na capital, Maputo), Mankell mantém uma ligação especial com o continente africano, cenário de algumas de suas obras.

Esse filho de juiz que desde pequeno sentiu fascínio por compreender os mecanismos da justiça; que, ainda criança, foi abandonado pela mãe e encontrou na escrita um refúgio onde poderia moldar o mundo de seus sonhos; que, aos 16 anos, cansado da monotonia da escola, resolveu abandonar os estudos e se tornar marinheiro (trabalhando como estivador por 2 anos); tornou-se um escritor habilidoso, multifacetado e aclamado em mais de 30 países globo afora. Trata-se, seguramente, de um autor que o leitor brasileiro — sobretudo os fãs do gênero policial — precisa conhecer (ou conhecer melhor).

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Pitada de sal #14

22 de maio de 2010 - 8:23 am

“Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. […] Para que Hitler possa marchar em passo de ganso, para que o papa possa denunciar o bolchevismo, para que os fãs de críquete possam assistir a seu campeonato, para que os ‘Nancy poets’ possam dar palmadinhas nas costas um do outro, o carvão tem que estar disponível. […] O mesmo acontece com todos os tipos de trabalho manual; eles nos mantêm vivos e nos esquecemos totalmente de sua existência. Mais do que qualquer outro, talvez, o mineiro é o típico trabalhador manual, não só porque seu trabalho é tão absurdamente horrível, mas também porque é tão vitalmente necessário, por assim dizer, que somos capazes de esquecê-lo, tal como nos esquecemos do sangue que corre em nossas veias.”

George Orwell em trecho de seu O caminho para Wigan Pier (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp.53-55; na tradução de Isa Mara Lando).

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Livros em movimento #1

16 de março de 2010 - 8:04 am

Cada vez mais comuns, os curtas promocionais sobre livros proliferam na internet. Alguns chegam realmente a ser sensacionais, não somente cumprindo com perfeição o objetivo de despertar o interesse sobre o livro em questão, mas indo além, constituindo-se em pequenas obras de arte. Algumas editoras brasileiras ensaiam entrar na onda, mas por enquanto restringem-se ainda apenas a vídeos informativos, sem grandes arroubos de criatividade — espero que sigam o caminho e apostem mais nessa vertente de comunicação. Abaixo, para inaugurar em grande estilo esta nova seção, um curta promocional sobre o New Zealand Book Council, que tem como personagem principal o livro Going West, do escritor neozelandês Maurice Gee.

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Antes do ‘fim dos livros’, chega ‘Sabático’

13 de março de 2010 - 10:35 am

Chegou-se a anunciar que ele vem para recuperar o espaço, e a missão, do tantas vezes saudado (e tão saudoso, para aqueles que tiveram a oportunidade de o ler) Suplemento Literário, que circulou entre 1956 e 1966, idealizado por ninguém menos que Antonio Candido e dirigido por Décio de Almeida Prado. Cedo ainda para saber se realmente é para tudo isso a chegada do novo Sabático (que, como o próprio nome indica, circula aos sábados), caderno exclusivamente literário lançado hoje pelo jornal O Estado de S. Paulo — que inaugura reformulação gráfica e de conteúdo (no papel e on-line) neste domingo, 14/03/2010.

Com o caderno em mãos há algumas horas, já podemos ensaiar breves considerações. Em termos de design, nada de surpreendente — na verdade, esperava bem mais, pelo que o jornal tem dito sobre a reformulação gráfica. Em termos de espaço — que, afinal, é algo que conta bastante, já que espaço nas publicações é dinheiro — percebemos o diferencial: oito páginas. Para um sábado, é sim um grande avanço, já que o jornal reservava nesse dia 2 ou 3 páginas para os livros. Mas resta saber como ficará o caderno cultural do domingo, quando o campo literário predominava. Na somatória dos dois dias, saberemos se o público leitor realmente sai ganhando ou se permanecemos no zero a zero.

Destaque desta primeiríssima edição do Sabático, Umberto Eco concede entrevista em que fala sobre sua nova obra (em parceria com Jean-Claude Carrière), Não contem com o fim do livro (Rio de Janeiro: Record, 2010, 272p.; tradução de André Telles). Há também um conto inédito (parte de um livro a ser lançado no segundo semestre) de Ronaldo Correia de Brito, autor do premiado Galiléia. E, ponto alto, reprodução de trecho (a íntegra pode ser lida aqui) da crítica de Antonio Candido sobre Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, na estréia do Suplemento, em 06/10/1956.

Por enquanto, fico com o Sérgio Rodrigues. Mesmo sem saber ao certo que caminhos o Sábatico percorrerá, numa época em que só se fala no possível desaparecimento dos livros no formato que o conhecemos, em tempos em que os cadernos literários, estes sim, parecem à beira da extinção, só o frisson em torno do lançamento do novo suplemento — e o esperado aumento de atenção concedida aos livros — já é algo a ser comemorado.

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Pitada de sal #13

8 de março de 2010 - 4:15 pm

“Todos os impérios que já existiram, em seus discursos oficiais, afirmaram não ser como os outros, explicaram que suas circunstâncias são especiais, que existem com a missão de educar, civilizar e instaurar a ordem e a democracia, e que só em último caso recorrem à força. Além disso, o que é mais triste, sempre aparece um coro de intelectuais de boa vontade para dizer palavras pacificadoras acerca de impérios benignos e altruístas, como se não devêssemos confiar na evidência que nossos próprios olhos nos oferecem quando contemplamos a destruição, a miséria e a morte trazidas pela mais recente mission civilisatrice.”

Edward W. Said em sua mais famosa obra, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente (São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.17; na tradução de Rosaura Eichenberg).

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A China de Paulo (e de Ricardo)

20 de fevereiro de 2010 - 9:39 am

Paulo, executivo de um grande banco multinacional, com sede em Londres e presença em boa parte do globo, vive um momento de grande expectativa em sua carreira. A matriz do banco elabora uma ousada entrada no mercado chinês e busca em seus quadros os melhores nomes para levar o projeto à frente. O nome de Paulo destaca-se.

Aliás, o nome destaca-se até não mais poder. Isto porque Paulo, que tem como secretária a Paula (filha do seu Paulo e tia do Paulinho), e conta com o apoio da Paula do RH (que, por sua vez, responde diretamente ao presidente do banco no Brasil, o irlandês Paul), faz de tudo para ser escolhido pelo figurão Paulson, em Londres, para chefiar o Projeto China. No meio do caminho, contudo, sofre com as fofocas que correm pela empresa: a Paula cochicha com a Paula que o Paulo se veste mal, o Paulo ri com o Paulo sobre as pretensões do chefe Paulo. Tudo isso só poderia ocorrer, claro, em São Paulo…

A princípio a estratégia de Ricardo Lísias em seu O livro dos mandarins (Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, 344p.) pode deixar o leitor confuso (um efeito certamente pretendido), mas logo o torvelinho em que o autor nos coloca começa a jogar a favor da trama. Egocêntrico, auto-centrado, Paulo enxerga o mundo como um espelho. Tudo e todos estão lá para validar sua trajetória, existindo meramente para evidenciar sua supremacia. Vale dizer: alguns dos outros poucos nomes que aparecem no livro são o de Fernando Henrique Cardoso (ídolo absoluto de Paulo), Mao Tse-Tung e Godói (“esse filho da puta”), o grande antagonista da trama. O nome vai ganhando variações, incorporando adjetivos, ou transmutando-se conforme a história avança: “o homem Paulo”, “profissional brilhante”, “Maozinho”, Paul*, depois Pau**, até chegar ao enigmático e despersonalizado *****.

Utilizando como recurso estilístico o maçante jargão corporativo, o romance de Ricardo Lísias é o registro de uma existência alienada. Retire o ambiente empresarial e os infinitos estratagemas de Paulo para ganhar prestígio e galgar postos mais altos dentro da hierarquia do banco e o que teremos? Nada. Nenhum amigo, nenhum familiar — as pessoas que se sucedem na trama são como degraus, peças num jogo estúpido de um único jogador. O único traço que o distingue como indivíduo é uma dor nas costas que o acompanha desde criança. A única característica que o faz humano (e não apenas um apêndice da corporação) é a dor.

Outro recurso utilizado com bastante habilidade pelo autor, a reiteração de informações (sobre a dor, sobre a futura descoberta da cama Ceragem, sobre as características profissionais de Paulo ou de seus colegas de empresa), que voltam e voltam pontuando o avanço da história, parece ser remédio para um “leitor esquecido”, pouco antento, que está “sempre chegando” ou que está pouco se lixando para o que está sendo dito. Parece indicar um diálogo autista com o mundo, em que o narrador tem pouca segurança de que aquilo que diz está sendo realmente recebido pelos possíveis leitores. Um discurso em que pouco importa o que o receptor está achando do que está sendo dito. Importa falar, exprimir, “colocar para fora”, e não necessariamente se comunicar. Parece indicar a absoluta solidão em que Paulo — perdido em meio a seus infinitos reflexos — se encontra. É como se o narrador emergisse da consciência atual, passada e futura do protagonista. O resultuado é um fluxo narrativo entrecortado, confuso, cheio de retornos e tautologia.

Ricardo Lísias, por Leonardo Wen / Folha Imagem (reprodução)

Sob certo ponto de vista, O livro dos mandarins pode não ser das leituras mais agradáveis — no sentido de uma leitura “edificante”, que apresenta a cada esquina de parágrafo respostas e alívios morais para o leitor. Não, nesse sentido não é definitivamente um livro agradável. Pelo contrário, ele incomoda, angustia, sacode e procura gerar esclarecimento (dando fim à verdade aparente, confortável, e trazendo à luz as milhares de facetas dela que se escondem atrás das certezas do dia-a-dia). É esse o projeto de Ricardo Lísias. E para levá-lo a cabo, o autor corre todos os riscos, indo até os limites, desafiando as fronteiras do que poderia ser considerado pelos mais apressados “chato”, “maçante”, “esquemático”.  O fato é que há diversos sabores a serem apreciados no mundo: o amargo, o azedo, o ácido, dependendo da combinação e da habilidade do chef, podem dar origem a pratos de valor inigualável. E até agora, Ricardo Lísias tem provado ser um grande chef.

Escrito por Ronoc ¦

– Ω –

Trecho: “Para aproveitar melhor as poucas horas de sono que lhe restam, ele precisa organizar a cabeça. Em primeiro lugar, o projeto exige isso e aquilo dele e, para cumprir essas metas, o branquelo deve aprofundar seu conhecimento sobre o país para onde foi enviado. Os chineses são realmente complexos, já lhe tinham dito. Depois, um sono curto mas profundo logo virá. Basta que ele crie uma estratégia de ação, organize os horários e a maneira de agir e desenvolva um plano de diálogo que lhe permita otimizar os lucros do banco […] o bom executivo sabe que de tudo é importante sempre tirar algum tipo de enriquecimento pessoal.” (p. 132)

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Sobre guerra, livros e… tortas!

19 de fevereiro de 2010 - 8:46 am

Decidi finalmente ler A sociedade literária e a torta de casca de batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 304p.), após ouvir amigos e colegas elogiarem algumas vezes o romance. E, bem, se você trabalha com livros e não dá ouvidos ao que seus colegas de profissão dizem sobre as leituras que estão fazendo, das duas uma: ou você tem um plano totalmente seu, rigorosamente independente, de leitura, ou é um chato de galochas — em ambos os casos, não sabe o que está perdendo…

Engraçado é que, deixado à própria sorte, o livro pode simplesmente passar despercebido, sumir em meio à babélia das livrarias. Isto porque ao folhear rapidamente ou dar uma espiada nas orelhas de A sociedade literária… você talvez se veja encurralado pela simplória mas irresistível pergunta “Mais um romance sobre a Segunda Guerra Mundial?” e passe adiante.

Poderíamos começar respondendo para nós mesmos que enquanto nascerem seres humanos, surgirão com eles, dia após dia, novos e talvez tão ou mais interessantes pontos-de-vista sobre questões do passado. Outros seriam ainda mais contundentes e lembrariam que apenas no dia em que pudermos honestamente dizer que nenhum conflito armado deixa suas lamentáveis marcas sobre a Terra, somente nesse dia poderemos dizer sem risco de engano que talvez seja mesmo desnecessário revisitar antigos conflitos atrás de lições. O caso pede uma abordagem mais serena: afinal, A sociedade literária… defende a si mesmo de forma mais do que competente.

A sociedade literária… é, como o próprio título sugere, um livro sobre livros, sobre o amor à leitura, sobre o poder dos livros e das histórias de elevarem o espírito humano e de, no extremo, darem sentido à nossa existência. É, sim, uma obra sobre a Segunda Guerra Mundial, mas para começo de conversa, o centro da ação não se passa em nenhuma capital européia, nem no front russo ou japonês. O palco é Guernsey, uma das ilhas do Canal da Mancha que fazem parte do Império Britânico e que permaneceram ocupadas pelos alemães (completamente isoladas do mundo) durante cinco anos. A mudança de foco geográfico, por si só, já traz um frescor à trama, colocando em evidência personagens, paisagens e situações que não estamos acostumados a ver em romances históricos sobre o período.

Mary Ann Shaffer (direita) e sua sobrinha Annie Barrows, que a ajudou a concluir "A sociedade literária..."

Estamos em 1946. A guerra acabou há pouco mais de um ano, e o cenário ainda é de desespero e destruição; indivíduos e famílias tentam se reerguer, procurando superar as atrocidades que viveram ou presenciaram, e tentando esquecer as vidas que deixaram para trás, os familiares que jamais reencontrarão. Somos apresentados a Juliet Ashton, jovem escritora em ascensão, que durante a guerra assinou uma coluna em um grande jornal inglês encarnando uma correspondente que preferia guardar um olhar otimista e bem-humorado sobre o horror que assolava o mundo. Ciente de que seu trabalho ajudou muitos a enxergarem uma luz no fim do túnel durante os momentos mais sombrios, Juliet, contudo, está cansada e quer novos rumos para sua carreira. Durante uma turnê de divulgação do livro que reuniu suas colunas, a escritora recebe uma inesperada carta de um certo Dawsey Adams, residente de Guernsey, que diz ter chegado à autora por ter adquirido um livro usado que pertencera a Juliet (e que continha seu nome e endereço numa das capas). Dawsey escreve porque adorou o livro e gostaria de saber mais sobre seu autor. Dessa aparentemente simples demanda nasce uma intensa troca de correspondências que conduzirá toda a história e nos apresenterá seus personagens. Pelas cartas, conheceremos um grupo de fazendeiros (do qual Dawsey faz parte) que a princípio pouco sabem uns dos outros, mas que a Ocupação Nazista obrigará a se aproximar. Gente humilde, simples, cheia de dignidade e vontade de viver. É graças a esse apego à vida (que leva inclusive à subversão) que o grupo vivencia um episódio que transformará cada um dos envolvidos. Como consequência, surgirá a Sociedade Literária do título. Podemos dizer que a explicação completa sobre a fundação da sociedade — bem como o porque do “Torta de casca de batata” — é um dos grandes trunfos do romance, e portanto o guardaremos para que cada um o saboreie a seu tempo.

Mary Ann Shaffer, falecida em 2008, sem ver o enorme sucesso que seu livro alcançaria em todo o mundo, teve uma vida dedicada aos livros: foi bibliotecária, livreira e editora. Assim, não poderia mesmo ter deixado o planeta sem acrescentar à infinita biblioteca da humanidade uma obra que levasse sua assinatura. Annie Barrows, autora de livros infantis (nenhum deles traduzido no Brasil até o momento), sobrinha de Mary Ann, foi a responsável pela conclusão da obra, quando sua tia adoeceu.

A dupla criou um daqueles livros que, quando percebemos que as páginas vão chegando ao fim, começamos a ler mais lentamente porque já antecipamos a dor de ter de fechar as capas e retirar-nos da história. Que tenham conseguido fazer isso escrevendo sobre um tema pretensamente já tão visitado constitui um feito digno de ser divulgado.

Escrito por Ronoc ¦

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Espionagem a serviço da literatura

18 de fevereiro de 2010 - 4:00 pm

Todo texto literário que se preze conta não uma, mas inúmeras histórias simultaneamente. Enquanto umas correm na superfície, outras estão entranhadas na carne das palavras. Assim, embora Luis Fernando Verissimo narre em seu mais novo livro — Os Espiões (Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2009, 142p.) — as peripécias e trapalhadas de uma trupe de amigos convertidos da noite para o dia em investigadores nada profissionais, fala também sobre a indomável necessidade que sentimos de povoar de fantasia a realidade que nos cerca. E do desejo de exprimir, de levar aos outros essas realidades paralelas, nossos mundos sonhados. Afinal, como alguém já deve ter dito, somos todos filhos de Sherazade, contando histórias uns para os outros para tentar escapar das garras da morte.

Os Espiões apresenta Verissimo como o conhecemos tão bem: inteligente, bem-humorado, econômico e certeiro. Alguns sentenciam que escrever é apagar, cortar, suprimir; pois bem, talvez não exista escritor no Brasil que faça isso de forma tão eficiente quanto Verissimo. Sem perder o pulso da trama, sem sonegar nenhum prazer ao leitor, compõe um texto limpo, direto e ao mesmo tempo instigante e saboroso.

A história se desenrola entre Porto Alegre e uma provavelmente fictícia pequena cidade do interior chamada Frondosa, sendo narrada por um faz-tudo de uma obscura editora da capital gaúcha. Frustrado em sua vida pessoal e profissional, acostumado a passar metade da semana bebendo e a outra tentando se recuperar da ressaca, o sujeito recebe certa vez um envelope branco contendo um trecho xerocado de um manuscrito. Encarregado, entre outras coisas, de responder aos aspirantes a escritores, indicando se os originais enviados interessam ou não à editora, o narrador — normalmente azedo e cético quanto à capacidade humana de produzir relatos realmente interessantes — vê-se tragado pela história que tem em mãos. Revelando as desventuras de uma tal Ariadne, o manuscrito apresenta-se como um relato biográfico que encerra ao mesmo tempo denúncias, sofrimento e uma espécie de despedida de um mundo que se tornou cruel demais para ser suportado. Pronto! É o suficiente para fazer germinar a semente da obsessão. Determinado a descobrir mais sobre a autora do manuscrito, o protagonista vai arrastar a si e a seus companheiros mais próximos para uma jornada de improváveis e risíveis aventuras pelo mundo da espionagem.

Sem estragar qualquer surpresa, podemos dizer que, como em tantos dos textos de Verissimo, o ponto alto do livro é a galeria de personagens: os convivas impagáveis que maquinam planos para desfazer o novelo de um mistério com cheiro de romance noir -B enquanto se embriagam, mentem para si próprios e disparam absurdos um atrás do outro; o falso professor que vive de enxovalhar o meio literário e que vai fazer as mais estapafúrdias palestras sobre assuntos dos quais não conhece uma linha; o padre que por ser surdo obriga os fiéis a gritar seus pecados, transformando as confissões em um big brother interiorano; entre tantas e tantas figuras que vão temperando o enredo aparentemente simples e nos envolvendo linha a linha.

De maneira sintética, à la Verissimo: Os Espiões é para ler e se divertir!

Escrito por Ronoc ¦

– Ω –

Trecho: “O Dubin dizia que a má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever, à magnífica compulsão. Dizia isso para me provocar, nas nossas intermináveis discussões na mesa do Espanhol, mas naqueles dias, enfeitiçado pelos textos da Ariadne e com minha misantropia natural dissolvida em água mineral, eu lhe dei razão. Todos nós merecíamos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer.” (p.84)

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Pitada de sal #12

17 de janeiro de 2010 - 2:16 pm

Felipe Fernández-Armesto (1950- )“As sociedades jamais teriam se distanciado umas das outras se não fossem os desbravadores que, por rotas divergentes, as conduziram para ambientes contrastantes e regiões separadas. Elas nunca teriam restabelecido relações entre si — e se modi- ficado mutuamente — sem gerações poste- riores de exploradores, que descobriram as rotas de contato, de comércio, de conflitos e de contágio responsáveis por reuni-las. Os exploradores foram os engenheiros das infra-estruturas da história, os construtores das estradas da cultura, os forjadores de vínculos, os tecedores de redes.”

Felipe Fernández-Armesto abrindo os caminhos para seu delicioso Os desbravadores: uma história mundial da exploração da Terra (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.14; na tradução de Donaldson M. Garschagen e com capa de Mariana Newlands).

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Julgue o livro pela capa #1

19 de agosto de 2009 - 9:57 pm

A partir deste mês, a editora Companhia das Letras apresenta ao público a nova roupagem de sua extensa Série Policial. O visual sóbrio, em que predominavam fotos em preto e branco sobre um lay-out quase totalmente negro dá lugar a um design mais arrojado, com cores vivas e maior destaque para o nome dos autores. As bordas coloridas, que foram — e ainda são — surpreendentes, e constituem um dos traços diferenciais da série, foram mantidas. Ao que tudo indica, a editora pretende, com esta modificação, dialogar com um público maior, flertando com jovens que, hoje, dificilmente procuram de forma espontânea os livros da coleção. Se o projeto anterior, assinado por João Baptista da Costa Aguiar, evocava cenas de mistério, com uma abordagem mais clássica; o novo, criado por Elisa V. Randow, parece apostar em um clima pop soturno — se é que me faço entender…

Abaixo, uma amostra dos dois primeiros livros a estamparem o novo projeto: O último caso da colecionadora de livros, de John Dunning, e Paciente Particular, de P. D. James. As capas dos demais títulos da série serão substituídas aos poucos, assim que novas tiragens forem sendo impressas.

ultimo_caso

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O mundo e o indivíduo, segundo Roth

9 de agosto de 2009 - 10:19 am

Indignação, de Philip RothIndignação (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 171p.; tradução de Jorio Dauster), o mais recente livro do escritor norte-americano Philip Roth, apresenta a história de Marcus Messner, um jovem norte-americano, filho único de uma família judia que tira o sustento de um açougue kosher na cidade de Newark, Nova Jersey. Marcus transita para a vida adulta no início da década de 50, quando seu país está envolvido na Guerra da Coréia, em que milhares de jovens como ele perdem a vida a cada dia.

A passagem para o mundo adulto traz certa liberdade e muitas descobertas para Marcus, mas também a crescente consternação de seu pai quanto ao futuro do filho. Num mundo tão perigoso, como garantir a segurança de todos os sonhos e esperanças materializados na figura de seu único herdeiro? O medo do senhor Messner é difuso: toda e qualquer coisa ameaça seu menino, põe em risco a continuidade de sua família. Já para o jovem, o receio é ir para a guerra e perder a vida, como seus primos ou tantos outros conhecidos. Sentindo-se sufocado pelos cuidados do pai — que Marcus considera à beira da neurose —, o jovem põe em execução seu plano de transferir-se do curso superior que frequenta em sua cidade para outro, desde que seja a quilômetros das trancas da porta de sua casa.

Meio ao acaso, escolhe Winesburg, no estado de Ohio, sem saber que este será apenas o primeiro passo rumo a uma sucessão de armadilhas. Ao chegar à faculdade, além da estranheza natural de novato, Marcus passa a protagonizar uma série de desentendimentos: com colegas de quarto, com membros de fraternidades que a todo custo querem trazê-lo para suas esferas de influência, com o diretor; com o anti-semitismo velado ou escancarado de boa parte dos alunos, com o conservantismo religioso que é a espinha dorsal da instituição.

Marcus não se dá bem com instituições. Não as compreende e não é compreendido por elas. Família, igreja e universidade censuram o rapaz por sua exacerbada independência, por ser irredutível quanto a suas convicções, por não conseguir comungar das crenças predominantes ao seu redor. No extremo, acusam-no de ser intolerante com os outros.

Ora, mas e o que é a guerra senão a negação total do outro, do direito do outro professar suas crenças, sua visão de mundo, seu estilo de vida? É por serem portadores da “liberdade universal” que os Estados Unidos, Europa, Rússia e tantas outras nações lançam-se em três guerras em 50 anos? Ou também por não conseguirem suportar a existência do Outro? Por enxergarem ameaça no que é diferente? Esse paralelo é sutil e magistralmente exercitado ao longo de todo o livro por Roth.

Brilhante nos estudos, tenaz no trabalho, falta a Marcus o que os arautos da psicologia fast-food chamariam de “inteligência emocional”. Por mais que seja um hábil debatedor, capaz de concatenar ideias e discurso de forma admirável, ao se ver encurralado, o jovem aspirante a advogado não consegue muito mais do que recorrer a um bom e sonoro “Vai se foder!”. Ou à fuga.

Marcus foge da família, foge das fraternidades, dos times, das igrejas; não quer ser enquadrado, se sentir pertencendo a ninguém — salvo, talvez, a Olivia Hutton, a colega por quem se apaixona, e que como ele luta para firmar sua existência dentro da lógica de um espaço-tempo que não compreende. Por mais que procure um lugar que seja seu, exclusivamente seu, Marcus se vê cercado, invadido, refém de tradições que despreza. De forma progressivamente dolorosa, vai descobrindo quão frágil é sua posição no interminável enfrentamento entre indivíduo e meio social.

A mudança de Nova Jersey para Ohio traz mais consequências do que o rapaz poderia ter imaginado. Ao deslocamento geográfico, corresponde um deslocamento no campo das ideias. Marcus move-se da acanhada porém aberta Robert Treat, onde os professores defendiam opiniões “decidida e desavergonhadamente de esquerda”, para o coração do conservadorismo WASP (white, anglo-saxon, protestant). Filho de judeus, ateu convicto, Marcus se vê obrigado, entre outras coisas, a frequentar a igreja semanalmente e a aguentar os sermãos de pastores e moralistas que, para ele, só fazem envenenar a mente de seus incautos colegas.

Contra tudo e contra todos, o que pode fazer o jovem e apaixonado Marcus senão se erguer e, indignado, gritar “Não!”?

Precursor da contestadora geração Flower Power, que desabrochará na década de 1960, Marcus se vê enredado em um mundo hipócrita que nos fronts estrangeiros desperdiça a vida de seus jovens para preservar em solo nacional o delírio consumista de um modus vivendi cor-de-rosa, povoado por famílias felizes e perfeitas, garotas e rapazes saudáveis e seus carros reluzentes.

As engrenagens da máquina-mundo moem a carne e dilaceram a mente de Marcus Messner — por mais que procure fugir, em nenhum lugar estará sozinho. Em nenhum lugar estará a salvo. Porque ele mesmo carrega, dentro de si, o embrião das estruturas que o oprimem.

Como diz o presidente de Winesburg em repreensão aos levantes estudantis que em determinado momento tomam conta da faculdade, a História não é o pano de fundo, é o palco. E cada um de nós pode até escolher o papel que pretende encenar, mas o enredo…

Escrito por Ronoc ¦

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Pitada de sal #10

7 de agosto de 2009 - 6:47 am

kurt-vonnegut“Ele foi até a sala de estar balançando a garrafa como uma sineta e ligou a televisão. Ficou levemente solto no tempo, viu o filme da sessão coruja de trás para frente e depois normalmente. Era um filme sobre bombardeiros americanos na Segunda Guerra Mundial e os homens corajosos que os pilotavam. Vista de trás para frente por Billy, a história era assim:

Aviões americanos, cheios de buracos e homens feridos e cadáveres decolavam de costas de um campo de pouso na Inglaterra. Sobre a França, alguns caças alemães voaram na direção deles ao contrário e sugaram balas e fragmentos de bombas dos aviões e dos tripulantes. Fizeram o mesmo com bombardeiros americanos no solo, que decolaram de costas para se unirem à formação.

A formação voava de costas sobre uma cidade alemã em chamas. Os bombardeiros abriram os alçapões das bombas, empregaram um magnetismo milagroso que diminuiu as chamas, reunindo-as em recipientes cilíndricos de aço e atraiu os recipientes para os bojos das aeronaves. Os recipientes foram perfeitamente armazenados em prateleiras. Os alemães lá embaixo tinham seus próprios equipamentos milagrosos: longos tubos de aço que eram utilizados para sugar mais fragmentos dos tripulantes e aviões. Mas ainda havia alguns americanos feridos, e alguns dos bombardeiros estavam em más condições. Sobre a França, porém, os caças alemães reapareceram, tornando tudo e todos inteiros como novos.

Quando os bombardeiros voltaram à base, os cilindros foram tirados de suas prateleiras e despachados de volta para os Estados Unidos da América, onde as fábricas estavam funcionando noite e dia, desmontando os cilindros e separando o conteúdo perigoso em minerais. Um ponto tocante era o fato de que o trabalho era realizado principalmente por mulheres. Os minerais foram então enviados para especialistas em regiões remotas. A função deles era armazená-los no chão e escondê-los com cuidado, para que nunca mais voltassem a ferir alguém.

Os pilotos americanos devolveram seus uniformes e se tornaram garotos do secundário. E Hitler se transformou num bebê, supôs Billy Pilgrim. Isso não estava no filme. Billy estava extrapolando. Todo mundo virou bebê, e toda a humanidade, sem exceção, conspirou biologicamente para produzir duas pessoas perfeitas chamadas Adão e Eva, supôs também.”

Trecho de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut (Porto Alegre: L&PM, 2005, pp.81-83; na tradução de Cássia Zanon).

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Que gosto tem o Japão?

11 de julho de 2009 - 11:51 am

Perambulando por bairros de Tóquio, em cidades vizinhas ou distantes, um homem, seu terno e sua fome — melhor: e sua vontade de comer. Poderíamos resumir Gourmet (São Paulo: Conrad, 2009, 202p., tradução de Drik Sada), de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, dessa forma. E estaríamos cometendo uma tremenda heresia — algo como cortar spaghetti, sabem?

Nas orelhas do livro, a editora se questiona sobre qual seria a melhor classificação para Gourmet: longe de ser um “simples” mangá, poderia funcionar como um guia para quem pretende conhecer o Japão, mas não causaria estranheza se fosse encarado como poesia visual. Eu tendo a concordar com a segunda opção, tamanha é a beleza desta obra de Taniguchi, mas ainda prefiro chamar os 18 capítulos de contos. De qualquer forma, é preciso encarar Gourmet como um prato que se saboreia com reverência e que somente aos poucos vai revelando seus ingre- dientes e temperos em insuspeitadas combinações. O que não se diz, mas apenas é insinuado pelos painéis que Taniguchi vai montando do espaço visitado por seu personagem, é tão ou mais importante do que aquilo que nos oferece em primeiro plano. Os silêncios, a incrível expressividade que imprime a seu gourmet solitário nos fazem parar, ao final de cada capítulo, e refletir.

Os traços limpos, precisos, contrastam com a total falta de definição dos roteiros do protagonista (do qual sequer ficamos sabendo o nome). O acaso, temperado pelas reuniões de negócios (sabemos apenas que se trata de um comerciante autônomo), é seu menu. Mas se estivermos atentos, veremos que o homem refaz um percurso marcado pela nostalgia: parques visitados em companhia de antigas namoradas, locais da infância, territórios da memória, transformados pela passagem do tempo.

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi

O sabor é amargo em alguns desses “contos”. Como quando “o comerciante” presencia um dono de lanchonete humilhando um empregado — o que faz seu apetite cessar imediatamente —, ou quando busca quase com desespero um local em que havia comido muitos anos antes, e descobre que o crescimento vertiginoso do bairro riscou do mapa o restaurante que procurava. Resta-lhe a memória. Como um gostinho bom que fica na boca e que anos depois volta, trazendo consigo recordações preciosas…

É isso: o menu está aberto. A cada capítulo, uma iguaria e um local nos são ofertados pelo chef Jiro Taniguchi nesta deliciosa viagem gastronômica pelo Japão. Como cortesia da casa, saboreie o primeiro prato de Gourmet. Bom apetite!

Escrito por Ronoc ¦

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O homem que amava um bom mistério

4 de julho de 2009 - 9:10 am

Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!

Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.

Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.

Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história.  Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.

Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam com sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.

De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.

– Ω –

Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.

Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.

Escrito por Ronoc ¦

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O menino e a Árvore

24 de maio de 2009 - 10:57 am

Curiosos os caminhos que nos levam aos livros. Eu, que trabalho com eles, confesso que tinha prestado pouca atenção ao Tobias Lolness – A vida na Árvore (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 351 p.) quando foi lançado, uns dois meses atrás.

Semana passada, porém, graças ao apurado faro bibliotecário de minha esposa, redescobrimos a obra, espremida entre tantas outras numa pequena (a única, até prova em contrário) livraria na belíssima Paraty. Do toque na capa em alto-relevo, do rápido folheio de algumas páginas, que revelaram, além da história, as bonitas ilustrações de François Place, brotou o interesse. Como assim uma aventura de um menino de 13 anos e que não mede mais do que 1 milímetro e meio, e que habita uma árvore, aliás, a Árvore? Mesmo com a pulga, ou melhor, com o minúsculo menino atrás da orelha, não levamos o livro.

Mas assim que voltamos para São Paulo, foi uma das primeiras coisas que fiz.

A editora o apresenta como uma saga ecológica, ganhadora de inúmeros prêmios literários infanto-juvenis (como o Saint-Exupéry), e capaz de suscitar a reflexão sobre “os limites éticos da ciência, da indústria e da política”, levando ainda o leitor a “repensar o racismo e a intolerância em relação às diferenças sociais”.

Esqueça os prêmios (afinal, muitas vezes eles miram mais nas trajetórias políticas do que propriamente em qualidades literárias) e a apontada lista de nobres intenções do texto (que servem mais de isca para adoções escolares) e entregue-se — como eu fiz — à obra em si.

Timothée de Fombelle, criador de Tobias Lolness: falando da Árvore para falar de todos nós.

Contada num ritmo envolvente, alinhavando as frases aqui e ali com um quê de poesia, lançando mão de uma estrutura narrativa que esconde, revela, esconde, revela, o que mantém uma certa tensão e, sem dúvida, retém a atenção do leitor, a história do menino Tobias avança de forma prazerosa. Tem falhas, é óbvio, como apresentar personagens ou eventos que logo em seguida simplesmente são deixados de lado, o que nos faz duvidar se não seriam dispensáveis — e isso mesmo sabendo que falamos apenas da primeira parte de uma história dividida em duas (a continuação ainda não tem data para ser lançada no Brasil o segundo livro, Tobias Lolness – Os olhos de Elisha, foi lançado agora em maio de 2010 pela Rocco). Mas de uma maneira geral, Tobias Lolness surpreende positivamente sobretudo aqueles que à primeira vista o enquadram na restritiva (e muitas vezes injustiçada) categoria de “livro para criança”.

Filho do mais renomado cientista da Árvore, Tobias é um menino esperto, em certo sentido precoce, com uma sensibilidade aguçada, que lhe permite captar toda a beleza que seu mundo lhe oferece — e que muitas vezes escapa aos demais. Corajoso e dono de um espírito libertário, logo no início do livro ficamos sabendo que o menino encontra-se envolvido em uma perseguição que mobiliza toda a sociedade da Árvore. O perseguido? Sim, ele mesmo, Tobias. Por que todo um povo persegue, com uma sanha incontrolável, um menino de 13 anos de idade? É isso que Timothée de Fombelle vai revelando pouco a pouco, auxiliado a cada par de páginas, pelo ilustrador François Place.

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Trecho:

“Todavia o professor Lolness sabia que o conhecimento é um universo que não cessa de expandir os seus limites. Às vezes, ocorria-lhe comparar o conhecimento à própria Árvore.

Isso porque o pai de Tobias defendia a ideia louca de que a Árvore crescia.

Esse era um dos temas mais desconhecidos da ciência e a verdadeira paixão do professor. Todos os sábios se desentendiam a esse respeito. A Árvore se transforma? Ela é eterna? Qual é a sua origem? Haverá um fim do mundo? E, sobretudo: haverá vida fora Árvore? Essas questões provocavam intenso debate, e Sim Lolness não concordava com nenhuma das ideias de seus colegas.

Seu livro a respeito das origens da Árvore foi muito mal recebido. Ele tivera a ousadia de contar a história da Árvore como se ela fosse um ser vivo. Afirmava que as folhas não eram plantas independentes e sim as extremidades de uma imensa força viva.

O que mais chocou seus leitores foi o fato de um livro que era sobre as origens falar na verdade sobre o futuro. Se a Árvore era viva, como uma floresta de musgo, isso significava que era frágil e seria preciso tratar bem daquele grande ser que lhes abria os braços.” (p.68)

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Pitada de sal #9

21 de maio de 2009 - 11:57 am

“Por que não estou escrevendo este livro mais depressa? Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’? Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo — NÃO escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”

Gay Talese refletindo com seus elegantes botões e alfinetando alguns de seus pares em Vida de escritor (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.403; tradução de Donaldson M. Garschagen)

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Pitada de sal #8

14 de maio de 2009 - 8:54 am

“Penso muito no futuro dos livros. Podem continuar a competir com as formas rápidas, baratas, fáceis, que não exigem leitura nem pensamento? Devo dizer que sim, ou que alguns deles estão tentando. Muitos livros hoje são escritos tendo o cinema em mente. Dizem que alguns editores não publicarão um livro se não houver a possibilidade de vendê-lo para o cinema. E até o escritor em muitos casos se envolve, meio escritor e meio vendedor. Tem de ficar numa livraria rotulando seu produto com seu nome. Tem de ir a programas de televisão e tornar-se um macaco treinado. Deve sujeitar sua vida privada, sua vida sexual e seus músculos, até mesmo seu cabelo, ao olhar boçal de seus possíveis leitores. Dizem que está abandonando o livro caso não faça essas coisas. Estará sendo anti-social caso não permita que as revistas populares registrem seu café da manhã e sua esposa ou esposas em papel lustroso.

Não acredito que um livro possa competir com seus rivais nos termos deles. Por outro lado, eles não podem competir com o livro nos termos deste. Nenhum outro meio, exceto a música, pode como ele ‘atrair a mente e as emoções’. Não se pode conceber um filme como pessoal, como um livro amado é pessoal. Nenhum programa de televisão é amigo como um livro é amigo. E nenhum outra forma, exceto outra vez a música, convida à participação do receptor como um livro faz.”

John Steinbeck em texto da década de 1950 e que faz parte de A América e os americanos (Rio de Janeiro: Record, 2004, p.209; tradução de Maria Beatriz de Medina).