Posts Tagged ‘literatura’

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A vida é um jogo

12 de dezembro de 2010 - 9:09 am

O grande jogo de Billy Phelan, de William KennedyAs ruas de Albany, capital do estado de Nova York, nos anos que sucederam a Grande Depressão formam o cenário deste romance que a editora Cosac Naify escolheu para apresentar — ou reapresentar, já que algumas de suas obras já haviam circulado por aqui na década de 1980 — ao público brasileiro o autor norte-americano William Kennedy. Com O grande jogo de Billy Phelan (São Paulo: Cosac Naify, 2009, 344p.), a editora deu início à publicação no Brasil do chamado Ciclo de Albany, conjunto de sete livros que têm a cidade como pano de fundo e as tor- tuosas relações entre seus habitantes como foco. À medida que escrevia as obras, o autor começou a perceber que elas constituíam “uma série aberta de narrativas não-seqüenciais, cada uma das quais se concentrava num único indivíduo que conduzia histórias alheias, cada uma delas escrita como obra capaz de se afirmar por si só, independente das demais do Ciclo; ainda assim, todos os livros se entrelaçavam” [1].

Neste primeiro ato, conhecemos o jovem Billy Phelan, uma “estrela” da noite de Albany, especialmente dos jogos que reúnem sua gente e animam sua sofrida existência. Seja nas pistas de boliche, nas mesas de pôquer ou de bilhar, ou ainda administrando as apostas nas corridas de cavalos, Billy é um exímio jogador. Do jogo vem seu sustento. No jogo exercita toda sua habilidade, aplica todo seu conhecimento.

Pouco a pouco, Kennedy vai nos deixando claro que nesta história o que está em jogo é a própria vida de Billy Phelan. O jogo tem suas regras: os códigos não escritos que regem as relações do submundo, os cógidos de honra e solidariedade que domesticam e influenciam as tensões sociais, unindo e afastando as pessoas; a linguagem do poder, que tem de ser compreendida desde cedo: Manda quem pode, obedece quem tem juízo… Afinal, o jogo tem seus donos. Senhores do mundo e do submundo de Albany, a família McCall domina a política, a economia e a jogatina da cidade. Quem quiser mover-se por qualquer um desses domínios — ou seja, quem quiser viver por ali — tem que lhes prestar vassalagem.

Mas deve ser assim sempre? Não haverá brechas por onde se mover, espaços a conquistar, caminhos alternativos a percorrer? É isso que Billy parece questionar durante todo o romance. Será o baixar a cabeça e aceitar o que se apresenta à sua frente a única saída? Mas, esperem, entrar nesse jogo não é para qualquer um. Sair derrotado de uma pista, de uma mesa, de um salão é uma coisa — mesmo que você saia com uma dívida impossível de saldar –; no grande jogo de Albany, o que se joga, como já dissemos, é o direito de existir. E Billy sabe disso muito bem.

O livro começa com Billy fazendo o impossível numa pista de boliche, acertando strike após strike e se aproximando magicamente da perfeição, que lhe escapa por um triz; e termina com Billy equilibrando-se entre forças poderosas que ameaçam lhe fechar todas as portas de sua cidade, tirar-lhe o oxigênio, quase como quem joga para fora de um aquário um peixe que passou ali toda a sua vida. Billy é sim um jogador nato. Conhece as regras do jogo. Conhece-as tão bem, que consegue subvertê-las, colocando-se acima delas. Jogando na defensiva ou sendo arrojado aos limites da imprudência, Billy tenta iludir e superar seus adversários, um a um, ou todos juntos, numa grande e intrincada disputa.

Logicamente, como já se disse e o próprio título enfatiza, Billy é o foco principal deste primeiro romance do ciclo. Mas há muito mais em O grande jogo de Billy Phelan. A relação pai-filho, que tantas obras-primas legou à literatura, ao cinema, à música ou a qualquer outra das artes, ocupa também aqui o papel de uma das molas propulsoras da trama. Seja na dolorosa ausência do pai de Billy, Francis Phelan, — personagem, aliás, que toma o centro de outro dos livros do ciclo de Albany, Ironweed, também lançado pela Cosac Naify –; seja na relação de outra figura importante, o jornalista Martin Daugherty, com seu pai, um escritor e dramaturgo que custou para ver sua obra ser reconhecida (algum paralelo com o próprio Kennedy, que também sofreu para obter reconhecimento?). Martin ainda atua como uma espécie de “narrador paralelo” da história de Billy, compondo um mosaico de vozes e reflexões que só faz tornar a obra ainda mais interessante de se ler.

– Ω –

Vale dizer que quem me indicou — já faz um bom tempo — O grande jogo de Billy Phelan foi meu amigo Diego Blanco. Todo reconhecimento para sua dica e também para sua persistência, porque foi graças a ela que pude finalmente conhecer William Kennedy. Aliás, quem quiser saber mais sobre o mundo da cultura, da política e da economia sob ângulos nada convencionais precisa ouvir o Num faz cabimento, podcast “de cunho anarco-partidário, sem fins lucrativos e desenvolvido por quatro caras que não têm o rabo preso com ninguém” que o Diego e outros três amigos (o Dionisius, o João e o Ricardinho) jogam nas teias da rede semanalmente. Realmente imperdível!

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Pitada de sal #16

10 de julho de 2010 - 10:05 am

“Avilo: esgoto do mundo?, fim da cauda do rio onde a chuva faz as vinganças dela? Chuva já não era chuva!, até nós aqui chegamos de meter respeito nos bródas moçam- bicanos, mesmo eles especialistas das enchentes. As costuras do céu tinham rebentado e o costu- reiro-anjo tava de férias — e nós aqui, a aguentar as aquáticas consequências: mais calamidade menos calamidade, quem quer mesmo saber? Internacionalmente somos mais destacados é na guerra e na fome, única chuva que lhes interessa vir aqui sofrer é chuva petroleo-diamantífera, tás a captar, uí?, outras chuvas das lamas dos mosquitos gordos de matar ndengues na febre das madrugadas, ou mesmo chuva do sorriso repentino e rebentado dos alcatrões de nunca mais lhes consertarem, ou chuva molhada nas nenhumas tendas e telhas dos deslocados provinciais da nossa guerra gorda e engordante, essas são chuvas mais próprias pra pobres, e essas ninguém veio aqui pôr pele dele pra ser salpicado na visão dos olhos: andar já era nadar, conduzir já era navegar, viver já era só sofrer. Nosso povo mesmo é que me causa espanto no coração: rir é rir, um ato labial de para-sempre, e rir não só pra dentro, mas de dentro pros outros também, pra atingir e tingir a vida. Agora parece vou ter que te falar isto: aqui a vida é que está a ser adoptada, fosse uma criança d’olhos bem ramelados que você no olhar lhe busca e encontra a ternura — aí você lhe gosta, lhe habitua. Aqui a vida parece uma criança enteada que lhe aceitamos em casa, ela a fugir da guerra…”

O escritor angolano Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki (palavra umbundu, uma das línguas oficiais de Angola, que signfica “aquele que enfrenta desafios” ou “guerreiro”), em seu mais recente livro lançado no Brasil, Quantas madrugadas tem a noite (São Paulo: Leya, 2010, p.21).

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Livros em movimento #1

16 de março de 2010 - 8:04 am

Cada vez mais comuns, os curtas promocionais sobre livros proliferam na internet. Alguns chegam realmente a ser sensacionais, não somente cumprindo com perfeição o objetivo de despertar o interesse sobre o livro em questão, mas indo além, constituindo-se em pequenas obras de arte. Algumas editoras brasileiras ensaiam entrar na onda, mas por enquanto restringem-se ainda apenas a vídeos informativos, sem grandes arroubos de criatividade — espero que sigam o caminho e apostem mais nessa vertente de comunicação. Abaixo, para inaugurar em grande estilo esta nova seção, um curta promocional sobre o New Zealand Book Council, que tem como personagem principal o livro Going West, do escritor neozelandês Maurice Gee.

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A China de Paulo (e de Ricardo)

20 de fevereiro de 2010 - 9:39 am

Paulo, executivo de um grande banco multinacional, com sede em Londres e presença em boa parte do globo, vive um momento de grande expectativa em sua carreira. A matriz do banco elabora uma ousada entrada no mercado chinês e busca em seus quadros os melhores nomes para levar o projeto à frente. O nome de Paulo destaca-se.

Aliás, o nome destaca-se até não mais poder. Isto porque Paulo, que tem como secretária a Paula (filha do seu Paulo e tia do Paulinho), e conta com o apoio da Paula do RH (que, por sua vez, responde diretamente ao presidente do banco no Brasil, o irlandês Paul), faz de tudo para ser escolhido pelo figurão Paulson, em Londres, para chefiar o Projeto China. No meio do caminho, contudo, sofre com as fofocas que correm pela empresa: a Paula cochicha com a Paula que o Paulo se veste mal, o Paulo ri com o Paulo sobre as pretensões do chefe Paulo. Tudo isso só poderia ocorrer, claro, em São Paulo…

A princípio a estratégia de Ricardo Lísias em seu O livro dos mandarins (Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, 344p.) pode deixar o leitor confuso (um efeito certamente pretendido), mas logo o torvelinho em que o autor nos coloca começa a jogar a favor da trama. Egocêntrico, auto-centrado, Paulo enxerga o mundo como um espelho. Tudo e todos estão lá para validar sua trajetória, existindo meramente para evidenciar sua supremacia. Vale dizer: alguns dos outros poucos nomes que aparecem no livro são o de Fernando Henrique Cardoso (ídolo absoluto de Paulo), Mao Tse-Tung e Godói (“esse filho da puta”), o grande antagonista da trama. O nome vai ganhando variações, incorporando adjetivos, ou transmutando-se conforme a história avança: “o homem Paulo”, “profissional brilhante”, “Maozinho”, Paul*, depois Pau**, até chegar ao enigmático e despersonalizado *****.

Utilizando como recurso estilístico o maçante jargão corporativo, o romance de Ricardo Lísias é o registro de uma existência alienada. Retire o ambiente empresarial e os infinitos estratagemas de Paulo para ganhar prestígio e galgar postos mais altos dentro da hierarquia do banco e o que teremos? Nada. Nenhum amigo, nenhum familiar — as pessoas que se sucedem na trama são como degraus, peças num jogo estúpido de um único jogador. O único traço que o distingue como indivíduo é uma dor nas costas que o acompanha desde criança. A única característica que o faz humano (e não apenas um apêndice da corporação) é a dor.

Outro recurso utilizado com bastante habilidade pelo autor, a reiteração de informações (sobre a dor, sobre a futura descoberta da cama Ceragem, sobre as características profissionais de Paulo ou de seus colegas de empresa), que voltam e voltam pontuando o avanço da história, parece ser remédio para um “leitor esquecido”, pouco antento, que está “sempre chegando” ou que está pouco se lixando para o que está sendo dito. Parece indicar um diálogo autista com o mundo, em que o narrador tem pouca segurança de que aquilo que diz está sendo realmente recebido pelos possíveis leitores. Um discurso em que pouco importa o que o receptor está achando do que está sendo dito. Importa falar, exprimir, “colocar para fora”, e não necessariamente se comunicar. Parece indicar a absoluta solidão em que Paulo — perdido em meio a seus infinitos reflexos — se encontra. É como se o narrador emergisse da consciência atual, passada e futura do protagonista. O resultuado é um fluxo narrativo entrecortado, confuso, cheio de retornos e tautologia.

Ricardo Lísias, por Leonardo Wen / Folha Imagem (reprodução)

Sob certo ponto de vista, O livro dos mandarins pode não ser das leituras mais agradáveis — no sentido de uma leitura “edificante”, que apresenta a cada esquina de parágrafo respostas e alívios morais para o leitor. Não, nesse sentido não é definitivamente um livro agradável. Pelo contrário, ele incomoda, angustia, sacode e procura gerar esclarecimento (dando fim à verdade aparente, confortável, e trazendo à luz as milhares de facetas dela que se escondem atrás das certezas do dia-a-dia). É esse o projeto de Ricardo Lísias. E para levá-lo a cabo, o autor corre todos os riscos, indo até os limites, desafiando as fronteiras do que poderia ser considerado pelos mais apressados “chato”, “maçante”, “esquemático”.  O fato é que há diversos sabores a serem apreciados no mundo: o amargo, o azedo, o ácido, dependendo da combinação e da habilidade do chef, podem dar origem a pratos de valor inigualável. E até agora, Ricardo Lísias tem provado ser um grande chef.

Escrito por Ronoc ¦

– Ω –

Trecho: “Para aproveitar melhor as poucas horas de sono que lhe restam, ele precisa organizar a cabeça. Em primeiro lugar, o projeto exige isso e aquilo dele e, para cumprir essas metas, o branquelo deve aprofundar seu conhecimento sobre o país para onde foi enviado. Os chineses são realmente complexos, já lhe tinham dito. Depois, um sono curto mas profundo logo virá. Basta que ele crie uma estratégia de ação, organize os horários e a maneira de agir e desenvolva um plano de diálogo que lhe permita otimizar os lucros do banco […] o bom executivo sabe que de tudo é importante sempre tirar algum tipo de enriquecimento pessoal.” (p. 132)

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Sobre guerra, livros e… tortas!

19 de fevereiro de 2010 - 8:46 am

Decidi finalmente ler A sociedade literária e a torta de casca de batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 304p.), após ouvir amigos e colegas elogiarem algumas vezes o romance. E, bem, se você trabalha com livros e não dá ouvidos ao que seus colegas de profissão dizem sobre as leituras que estão fazendo, das duas uma: ou você tem um plano totalmente seu, rigorosamente independente, de leitura, ou é um chato de galochas — em ambos os casos, não sabe o que está perdendo…

Engraçado é que, deixado à própria sorte, o livro pode simplesmente passar despercebido, sumir em meio à babélia das livrarias. Isto porque ao folhear rapidamente ou dar uma espiada nas orelhas de A sociedade literária… você talvez se veja encurralado pela simplória mas irresistível pergunta “Mais um romance sobre a Segunda Guerra Mundial?” e passe adiante.

Poderíamos começar respondendo para nós mesmos que enquanto nascerem seres humanos, surgirão com eles, dia após dia, novos e talvez tão ou mais interessantes pontos-de-vista sobre questões do passado. Outros seriam ainda mais contundentes e lembrariam que apenas no dia em que pudermos honestamente dizer que nenhum conflito armado deixa suas lamentáveis marcas sobre a Terra, somente nesse dia poderemos dizer sem risco de engano que talvez seja mesmo desnecessário revisitar antigos conflitos atrás de lições. O caso pede uma abordagem mais serena: afinal, A sociedade literária… defende a si mesmo de forma mais do que competente.

A sociedade literária… é, como o próprio título sugere, um livro sobre livros, sobre o amor à leitura, sobre o poder dos livros e das histórias de elevarem o espírito humano e de, no extremo, darem sentido à nossa existência. É, sim, uma obra sobre a Segunda Guerra Mundial, mas para começo de conversa, o centro da ação não se passa em nenhuma capital européia, nem no front russo ou japonês. O palco é Guernsey, uma das ilhas do Canal da Mancha que fazem parte do Império Britânico e que permaneceram ocupadas pelos alemães (completamente isoladas do mundo) durante cinco anos. A mudança de foco geográfico, por si só, já traz um frescor à trama, colocando em evidência personagens, paisagens e situações que não estamos acostumados a ver em romances históricos sobre o período.

Mary Ann Shaffer (direita) e sua sobrinha Annie Barrows, que a ajudou a concluir "A sociedade literária..."

Estamos em 1946. A guerra acabou há pouco mais de um ano, e o cenário ainda é de desespero e destruição; indivíduos e famílias tentam se reerguer, procurando superar as atrocidades que viveram ou presenciaram, e tentando esquecer as vidas que deixaram para trás, os familiares que jamais reencontrarão. Somos apresentados a Juliet Ashton, jovem escritora em ascensão, que durante a guerra assinou uma coluna em um grande jornal inglês encarnando uma correspondente que preferia guardar um olhar otimista e bem-humorado sobre o horror que assolava o mundo. Ciente de que seu trabalho ajudou muitos a enxergarem uma luz no fim do túnel durante os momentos mais sombrios, Juliet, contudo, está cansada e quer novos rumos para sua carreira. Durante uma turnê de divulgação do livro que reuniu suas colunas, a escritora recebe uma inesperada carta de um certo Dawsey Adams, residente de Guernsey, que diz ter chegado à autora por ter adquirido um livro usado que pertencera a Juliet (e que continha seu nome e endereço numa das capas). Dawsey escreve porque adorou o livro e gostaria de saber mais sobre seu autor. Dessa aparentemente simples demanda nasce uma intensa troca de correspondências que conduzirá toda a história e nos apresenterá seus personagens. Pelas cartas, conheceremos um grupo de fazendeiros (do qual Dawsey faz parte) que a princípio pouco sabem uns dos outros, mas que a Ocupação Nazista obrigará a se aproximar. Gente humilde, simples, cheia de dignidade e vontade de viver. É graças a esse apego à vida (que leva inclusive à subversão) que o grupo vivencia um episódio que transformará cada um dos envolvidos. Como consequência, surgirá a Sociedade Literária do título. Podemos dizer que a explicação completa sobre a fundação da sociedade — bem como o porque do “Torta de casca de batata” — é um dos grandes trunfos do romance, e portanto o guardaremos para que cada um o saboreie a seu tempo.

Mary Ann Shaffer, falecida em 2008, sem ver o enorme sucesso que seu livro alcançaria em todo o mundo, teve uma vida dedicada aos livros: foi bibliotecária, livreira e editora. Assim, não poderia mesmo ter deixado o planeta sem acrescentar à infinita biblioteca da humanidade uma obra que levasse sua assinatura. Annie Barrows, autora de livros infantis (nenhum deles traduzido no Brasil até o momento), sobrinha de Mary Ann, foi a responsável pela conclusão da obra, quando sua tia adoeceu.

A dupla criou um daqueles livros que, quando percebemos que as páginas vão chegando ao fim, começamos a ler mais lentamente porque já antecipamos a dor de ter de fechar as capas e retirar-nos da história. Que tenham conseguido fazer isso escrevendo sobre um tema pretensamente já tão visitado constitui um feito digno de ser divulgado.

Escrito por Ronoc ¦

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Espionagem a serviço da literatura

18 de fevereiro de 2010 - 4:00 pm

Todo texto literário que se preze conta não uma, mas inúmeras histórias simultaneamente. Enquanto umas correm na superfície, outras estão entranhadas na carne das palavras. Assim, embora Luis Fernando Verissimo narre em seu mais novo livro — Os Espiões (Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2009, 142p.) — as peripécias e trapalhadas de uma trupe de amigos convertidos da noite para o dia em investigadores nada profissionais, fala também sobre a indomável necessidade que sentimos de povoar de fantasia a realidade que nos cerca. E do desejo de exprimir, de levar aos outros essas realidades paralelas, nossos mundos sonhados. Afinal, como alguém já deve ter dito, somos todos filhos de Sherazade, contando histórias uns para os outros para tentar escapar das garras da morte.

Os Espiões apresenta Verissimo como o conhecemos tão bem: inteligente, bem-humorado, econômico e certeiro. Alguns sentenciam que escrever é apagar, cortar, suprimir; pois bem, talvez não exista escritor no Brasil que faça isso de forma tão eficiente quanto Verissimo. Sem perder o pulso da trama, sem sonegar nenhum prazer ao leitor, compõe um texto limpo, direto e ao mesmo tempo instigante e saboroso.

A história se desenrola entre Porto Alegre e uma provavelmente fictícia pequena cidade do interior chamada Frondosa, sendo narrada por um faz-tudo de uma obscura editora da capital gaúcha. Frustrado em sua vida pessoal e profissional, acostumado a passar metade da semana bebendo e a outra tentando se recuperar da ressaca, o sujeito recebe certa vez um envelope branco contendo um trecho xerocado de um manuscrito. Encarregado, entre outras coisas, de responder aos aspirantes a escritores, indicando se os originais enviados interessam ou não à editora, o narrador — normalmente azedo e cético quanto à capacidade humana de produzir relatos realmente interessantes — vê-se tragado pela história que tem em mãos. Revelando as desventuras de uma tal Ariadne, o manuscrito apresenta-se como um relato biográfico que encerra ao mesmo tempo denúncias, sofrimento e uma espécie de despedida de um mundo que se tornou cruel demais para ser suportado. Pronto! É o suficiente para fazer germinar a semente da obsessão. Determinado a descobrir mais sobre a autora do manuscrito, o protagonista vai arrastar a si e a seus companheiros mais próximos para uma jornada de improváveis e risíveis aventuras pelo mundo da espionagem.

Sem estragar qualquer surpresa, podemos dizer que, como em tantos dos textos de Verissimo, o ponto alto do livro é a galeria de personagens: os convivas impagáveis que maquinam planos para desfazer o novelo de um mistério com cheiro de romance noir -B enquanto se embriagam, mentem para si próprios e disparam absurdos um atrás do outro; o falso professor que vive de enxovalhar o meio literário e que vai fazer as mais estapafúrdias palestras sobre assuntos dos quais não conhece uma linha; o padre que por ser surdo obriga os fiéis a gritar seus pecados, transformando as confissões em um big brother interiorano; entre tantas e tantas figuras que vão temperando o enredo aparentemente simples e nos envolvendo linha a linha.

De maneira sintética, à la Verissimo: Os Espiões é para ler e se divertir!

Escrito por Ronoc ¦

– Ω –

Trecho: “O Dubin dizia que a má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever, à magnífica compulsão. Dizia isso para me provocar, nas nossas intermináveis discussões na mesa do Espanhol, mas naqueles dias, enfeitiçado pelos textos da Ariadne e com minha misantropia natural dissolvida em água mineral, eu lhe dei razão. Todos nós merecíamos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer.” (p.84)

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A estrada

8 de setembro de 2009 - 8:44 am

Começam a ser divulgados os primeiros trailers e imagens do filme A estrada, do diretor australiano John Hillcoat, adaptação do romance homônimo de Cormac McCarthy. A distopia que apresenta um mundo distruído e o choque entre a busca pela sobrevivência e a permanência do amor em meio à barbárie traz Viggo Mortensen à frente de um grupo de grandes atores. A previsão para a estreia no Brasil é 05 de fevereiro de 2010. Se o filme tiver apenas 1 décimo da força do livro, será imperdível.