Posts Tagged ‘Luis Fernando Verissimo’

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Espionagem a serviço da literatura

18 de fevereiro de 2010 - 4:00 pm

Todo texto literário que se preze conta não uma, mas inúmeras histórias simultaneamente. Enquanto umas correm na superfície, outras estão entranhadas na carne das palavras. Assim, embora Luis Fernando Verissimo narre em seu mais novo livro — Os Espiões (Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2009, 142p.) — as peripécias e trapalhadas de uma trupe de amigos convertidos da noite para o dia em investigadores nada profissionais, fala também sobre a indomável necessidade que sentimos de povoar de fantasia a realidade que nos cerca. E do desejo de exprimir, de levar aos outros essas realidades paralelas, nossos mundos sonhados. Afinal, como alguém já deve ter dito, somos todos filhos de Sherazade, contando histórias uns para os outros para tentar escapar das garras da morte.

Os Espiões apresenta Verissimo como o conhecemos tão bem: inteligente, bem-humorado, econômico e certeiro. Alguns sentenciam que escrever é apagar, cortar, suprimir; pois bem, talvez não exista escritor no Brasil que faça isso de forma tão eficiente quanto Verissimo. Sem perder o pulso da trama, sem sonegar nenhum prazer ao leitor, compõe um texto limpo, direto e ao mesmo tempo instigante e saboroso.

A história se desenrola entre Porto Alegre e uma provavelmente fictícia pequena cidade do interior chamada Frondosa, sendo narrada por um faz-tudo de uma obscura editora da capital gaúcha. Frustrado em sua vida pessoal e profissional, acostumado a passar metade da semana bebendo e a outra tentando se recuperar da ressaca, o sujeito recebe certa vez um envelope branco contendo um trecho xerocado de um manuscrito. Encarregado, entre outras coisas, de responder aos aspirantes a escritores, indicando se os originais enviados interessam ou não à editora, o narrador — normalmente azedo e cético quanto à capacidade humana de produzir relatos realmente interessantes — vê-se tragado pela história que tem em mãos. Revelando as desventuras de uma tal Ariadne, o manuscrito apresenta-se como um relato biográfico que encerra ao mesmo tempo denúncias, sofrimento e uma espécie de despedida de um mundo que se tornou cruel demais para ser suportado. Pronto! É o suficiente para fazer germinar a semente da obsessão. Determinado a descobrir mais sobre a autora do manuscrito, o protagonista vai arrastar a si e a seus companheiros mais próximos para uma jornada de improváveis e risíveis aventuras pelo mundo da espionagem.

Sem estragar qualquer surpresa, podemos dizer que, como em tantos dos textos de Verissimo, o ponto alto do livro é a galeria de personagens: os convivas impagáveis que maquinam planos para desfazer o novelo de um mistério com cheiro de romance noir -B enquanto se embriagam, mentem para si próprios e disparam absurdos um atrás do outro; o falso professor que vive de enxovalhar o meio literário e que vai fazer as mais estapafúrdias palestras sobre assuntos dos quais não conhece uma linha; o padre que por ser surdo obriga os fiéis a gritar seus pecados, transformando as confissões em um big brother interiorano; entre tantas e tantas figuras que vão temperando o enredo aparentemente simples e nos envolvendo linha a linha.

De maneira sintética, à la Verissimo: Os Espiões é para ler e se divertir!

Escrito por Ronoc ¦

– Ω –

Trecho: “O Dubin dizia que a má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever, à magnífica compulsão. Dizia isso para me provocar, nas nossas intermináveis discussões na mesa do Espanhol, mas naqueles dias, enfeitiçado pelos textos da Ariadne e com minha misantropia natural dissolvida em água mineral, eu lhe dei razão. Todos nós merecíamos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer.” (p.84)

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Livros que cabem no bolso

21 de outubro de 2009 - 4:30 pm

Para felicidade geral do público leitor e de seus desvalidos bolsos, mais uma grande editora brasileira entra no segmento das edições populares, mais conhecidas como pocket books ou livros de bolso. Pertencendo, desde 2005, ao poderoso grupo espanhol Prisa-Santillana, a Editora Objetiva aproveita os braços internacionais a que se encontra ligada para trazer para o país mais um selo, o Ponto de Leitura (que se une às tradicionais marcas Suma de Letras e Alfaguara).

A fornada inaugural apresenta 12 títulos, de Stephen King (Carrie, A Estranha, O Iluminado e A Zona Morta) a James Redfield (A profecia celestina), passando por Nelson Motta (Noites Tropicais) e Luis Fernando Verissimo (O clube dos anjos), entre outros, com preços que vão de R$9,90 a R$29,90.

No final de 2007, a Objetiva havia manifestado interesse nesse nicho de mercado bastante explorado sobretudo nos EUA e Europa, mas que no Brasil somente há pouco tempo vem recebendo investimentos significativos. Com exceção da pioneira L&PM, cuja força repousa justamente no livro de bolso, apenas nos últimos anos os dois maiores grupos editoriais brasileiros — Companhia das Letras e Record — lançaram selos específicos para pockets (Companhia de Bolso e BestBolso, respectivamente). A princípio, os planos da Objetiva apontavam para a aquisição da Martin Claret, mas o interesse levantou antigas suspeitas acerca da qualidade das traduções da pequena editora. A Objetiva/Santillana recuou, esperou 2 anos, para agora entrar com força total no mercado. Como a editora possui autores importantíssimos em seu catálogo, o leitor pode esperar bons lançamentos para os próximos meses.