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São Paulo, mostra a tua cara*

* publicado originalmente no extinto Fissurando o Monolito, em 09 de outubro de 2004. Estava disponível até ontem (07/10/2008) em seu domínio original, até que as Organizações Globo fecharam o Blogger.com, tornando-o exclusivo aos seus assinantes.

Virtual derrota de Marta faz cair o véu de hipocrisia
sob o qual se esconde a “elite” paulistana

Quantas vezes você já ouviu essa ladainha? Escandalizadas, pessoas bem nutridas e bem vestidas, que estudam ou estudaram nas melhores escolas/universidades, desfiam seu pessimismo a respeito do Brasil. É um país injusto. A miséria, que horror! Até quando, meu Deus? Alguém tem de fazer alguma coisa! Me sinto até mal de poder comer todos os dias. E essas crianças no farol, hein, que absurdo! Lamúrias e revoltas lançadas ao ar, em segundos se dissolvem aumentando a poluição atmosférica. Aliviadas por terem exibido em público seus atestados de boas intenções, suas “posturas cidadãs”, essas pessoas baixam a cabeça e dão mais uma garfada, ou correm os olhos pela próxima vitrine.

Ao que parece, a revolta para muitas dessas pessoas esgota-se num mero ajuste de contas consigo mesmo. Não pretendem mudar nada, apenas ficar com a consciência tranqüila. Você que, como eu, faz parte dessa “elite” que come todos os dias, que vai ao cinema, que reclama da lentidão da internet ou da falta de opção na TV a cabo sabe muito bem do que estou falando.

Um governo herda uma cidade semidestruída, em que sequer a coleta de lixo é feita de forma regular. As finanças públicas estão arruinadas, assim como escolas, postos de saúde, ruas. Arruinada também está a auto-estima da população. A cidade é o caos. Soluções parecem todas impossíveis. Somos terra arrasada, produto de uma hecatombe deflagrada pela mais devastadora das armas de destruição em massa: a corrupção.

O governo que se depara com essa situação desesperadora muito apropriadamente se auto-intitula “da Reconstrução”. Um governo não isento de erros, mas que apesar das enormes dificuldades dá início a uma administração bastante satisfatória. Sobretudo porque centra esforços e recursos em áreas até então esquecidas da cidade. Um governo que faz a clara opção por aqueles que mais precisam. Mas que nem por isso abandona o resto do município. Ápice desse governo, constroem-se Centros Educacionais Unificados, que fincam nos bairros mais carentes de São Paulo um padrão de excelência no serviço público até então inimaginável. Uma população imensa e abismada põe pela primeira vez os pés em um teatro, em um cinema. Vê comovida seus filhos tocando numa sinfônica mirim. Idosos exercitam-se em piscinas. Jovens mergulham no universo cibernético. O que se observa, sob muitos aspectos, só pode ser classificado como revolução. Uma revolução pacífica, alegre, que resgata a vontade de viver em seres acostumados a uma rotina diária de sofrimento.

Frente a tudo isso, o que fazem os digníssimos membros da “elite” de São Paulo, aqueles que nas mesas dos barzinhos da moda se dizem indignados com a desigualdade social do país? Esbravejam contra um governo “que nada fez”, “que desperdiçou dinheiro com obras desnecessárias”. Na lista de “obras desnecessárias”, claro, incluem os CEUs. Rasgam a pele de cordeiro da solidariedade de fachada e desnudam a verdade: querem a perfeição apenas para a porta de suas casas, querem um governo a serviço exclusivo dos privilegiados. O resto que se lixe.

Seria o caso de se fazer às pessoas que mais criticam o atual governo municipal uma pergunta constrangedora mas necessária. Quantas vezes em suas existências puseram os pés nos bairros da periferia profunda da cidade de São Paulo? Encaremos os fatos: falar em Capão Redondo, Jardim Ângela, Guaianases ou Itaquera para a “elite” paulistana é como falar em Marte. Aliás, Marte está mais próximo.

Um dos comerciais da campanha petista em São Paulo enfia o braço até o cotovelo na ferida. Em tom de desabafo, uma menina conclui que o que muitos pensam mas não ousam dizer é que pobre não necessita de produtos e serviços de boa qualidade. Em outras palavras, para muita gente, pobre é cidadão de segunda classe. E portanto pode se contentar com uma vida de segunda classe, com “qualquer coisa”. É a repugnante lógica da esmola: o que não serve para mim, para um miserável está bom demais. Uma lógica que não pode mais ser tolerada.

Não sei se gosto de Marta, nunca tive oportunidade de trocar palavras com ela. Sei, sim, que gosto muito do governo que chefiou. E por isso volto a escolhê-lo para minha cidade. Meu voto será pela gratidão. E contra a hipocrisia.

Rodrigo Nunes de Oliveira Cardoso, paulistano
São Paulo, 18 de setembro de 2004

[publicado também no site da campanha de Marta Suplicy]

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One comment

  1. […] paulistanas). Há quatro anos, justamente quando se disputava a prefeitura de São Paulo, rabisquei algumas linhas sobre isso. É triste, também, notar que nada mudou na mentalidade do “paulistano […]



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