Archive for novembro \20\UTC 2008

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Leitura na Casa da Bruxa

20 de novembro de 2008 - 9:18 pm

Que diriam os irmãos Grimm se soubessem que uma de suas mais famosas histórias acabou servindo de inspiração para um pequeno parque na cidade de Curitiba, no longínquo e ignoto Brasil? É bem provável que dissessem: Wunderbar!! (Fantástico!!) Criado em 1996 e com cerca de 38 mil m2, o Bosque Alemão é um entre os muitos parques que a verde capital do Paraná oferece a seus afortunados habitantes. E uma das principais atrações do local é precisamente a Trilha de João e Maria. Serpenteando pela mata nativa, o caminho apresenta aos visitantes a história em painéis de azulejo com ilustrações e trechos adaptados do texto dos Grimm. Mas o melhor ainda está por vir. O coração do bosque abriga a Casa Encantada, uma “materialização” da casa de doces em que a bruxa má aprisionava crianças, para organizar, digamos assim, festins pra lá de diabólicos. A casa (a do parque, não a do conto), por sua vez, abriga uma biblioteca infantil (bem completa, por sinal), aberta ao público diariamente, e onde acontecem todos os fins de semana contações de história. Quem já teve o privilégio de visitar este belo lugar pode engrossar o testemunho: mesmo que o sujeito tenha tido uma infância tortuosa — isto é, longe do magnífico universo dos livros —, ao se deparar com esta encantadora homenagem às histórias infantis, irá sentir um irreprimível desejo de recuperar o tempo perdido e se entregar à leitura. Se Curitiba não está no seu próximo roteiro de viagens, há um vídeo no YouTube, gravado por um turista uruguaio, que permite um vislumbre do que o Bosque Alemão oferece aos visitantes. Desconsidere a estética bruxadeblairiana da gravação e aproveite o passeio!

Escrito por Ronoc e também publicado no Blog da Cultura ¦

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O local da criação

16 de novembro de 2008 - 10:24 am

Se você ainda não experimentou a sensação, tarda mas não falha: um dia vai experimentar. Ao terminar uma frase, página, capítulo ou o livro todo, sobrevém o assombro. Admirado, você se pergunta: “como é possível escrever tão bem?”, “como é que alguém consegue pensar nisso?”, “de onde vem a inspiração para criar algo assim?”.

Como já se disse tantas vezes, os caminhos da criação são quase sempre insondáveis. Mas uma das peças desse infinito quebra-cabeças é o espaço em que o escritor dá vazão às torrentes de idéias e sentimentos que lhe agitam a mente. Para alguns autores, as idéias vêm enquanto tomam banho, conversam com amigos, quando estão no cinema, ou sentados no parque, observando pombos. Outros já são mais metódicos, e afirmam categoricamente e sem qualquer romantismo que as idéias surgem quando a pessoa se senta à mesa e põe-se a escrever. Não importa o estilo, o fato é que uns e outros elegem um espaço rotineiro de trabalho, onde se sentem confortáveis para transportar para o papel ou o computador as peripécias de seus personagens. Sobretudo para os fãs, esses locais praticamente adquirem o status de sagrados, envoltos em uma aura que combina mistério e adoração.

Big Brother literário?: nessas casas, sim, vale a pena dar uma espiadinha

Com o intuito de saciar (ou seria de aguçar?) a curiosidade acerca dos espaços em que os escritores trabalham, desde o começo de 2007, o jornal inglês The Guardian publica uma série de ensaios fotográficos intitulada Writer’s rooms. A cada semana, um quarto, escritório ou biblioteca de um escritor ou de uma escritora é retirado do campo da especulação e revelado aos nossos olhos. Figuram na coleção, entre tantos outros, os quartos de Virginia Woolf, John Banville, Colm Tóibín, Charles Darwin, Antony Beevor e Eric Hobsbawm. No Brasil, uma das mais interessantes iniciativas que procuram preservar esses espaços é o projeto Acervo de Escritores Mineiros, mantido e desenvolvido pela UFMG. Os escritórios de Henriqueta Lisboa, Oswaldo França Júnior, Murilo Rubião e Cyro dos Anjos foram remontados nas dependências da Federal e estão abertos para visitação pública. Mas você também pode fazer um tour virtual por eles na página do projeto.

Podem até acusar iniciativas como essas de Big Brother literário, mas o fato é que nessas casas, sim, vale a pena dar uma espiadinha.

– Ω –

Escrito por Ronoc. Post também publicado no Blog da Cultura.

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As inesgotáveis (e não aprendidas) lições de 29

13 de novembro de 2008 - 9:50 pm

Sem muita elaboração ou rodeios (como preferirem chamar), que a dor de cabeça e o cansaço realmente não me permitem mais do que algumas linhas por hoje. No dia em que se noticia que as demissões na Europa atingem a casa das 10 mil por dia, um texto curto e de grosso calibre atinge o alvo com a precisão de um atirador de elite: o problema é a ganância desenfreada. Cerca de 20 anos após a crise de 1929, aponta o texto, um ex-presidente do FED, o banco central dos EUA, atestava: “Se a riqueza nacional tivesse sido melhor repartida, isto é, se as empresas se tivessem contentado com lucros menos elevados, se as classes mais ricas tivessem auferido rendimentos mais baixos e os agregados familiares mais modestos remunerações mais elevadas, a estabilidade da nossa economia teria sido maior.” Parece simplório, parece óbvio. Mas, como duramente estamos testemunhando, a obviedade teima em passar a quilômetros de distância de nós — na verdade, ela pode nos fazer cócegas no nariz que sequer a notaremos. Aliás, chega a ser tragicamente fascinante como a humanidade insiste em não aprender com os próprios erros…

Meu amigo Dionisius adora me lembrar que o capitalismo é o sistema que mais riqueza gerou na história da humanidade, que mais gente retirou da pobreza. Ok, de acordo. Mas até Marx afirmava isso. O problema é que o capitalismo, como qualquer construção humana, precisa de humanos para funcionar. Senão, desmorona e, com o tempo, vira ruína. Como dizem por aí: nunca confunda liberdade com libertinagem. Será que dessa vez vamos aprender isso?

Escrito por Ronoc ¦

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Pitada de sal #3

11 de novembro de 2008 - 8:01 pm

Italo Calvino“Ler — ele diz — é sempre isto: existe uma coisa que está ali, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; e por meio dele nos defrontamos com algo que não está presente, algo que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas concebível, imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é passado, perdido, inalcançável, na terra dos mortos […] Ou talvez algo que não está presente porque não existe ainda, algo de desejado, temido, possível ou impossível […] Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será…”

Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno (São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.78)

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Livros perdidos, nunca mais!

9 de novembro de 2008 - 8:37 am

Livros, livros e mais livros!

Na casa em que Ernest Hemingway viveu em San Francisco de Paula, Cuba, a quantidade de livros é tão grande, que eles estão presentes até mesmo no banheiro. Certa vez, o escritor australiano Peter Carey revelou que sempre que comprava um livro novo se via obrigado a um torturante exercício: de qual volume teria de se desfazer para abrir espaço em seu apartamento para a nova aquisição? Com Sérgio Buarque de Holanda, a situação não era muito melhor: tinha tantas obras em sua biblioteca pessoal, que sua esposa em determinado momento passou a proibi-lo de comprar qualquer livro. O sociólogo não pestanejou: desenvolveu um astucioso sistema  para contrabandear os volumes para dentro de casa. (Fica a dica do documentário Raízes do Brasil, de Nelson Pereira dos Santos, em que, se não estou muito enganado, o próprio Sérgio Buarque conta essa e muitas outras histórias impagáveis.)

É um drama bastante comum para quem sofre do delicioso mal da bibliofilia. Além de ler (muito) e falar (muito) sobre livros, ainda sentimos a necessidade incontrolável de tê-los por perto. Só que um belo dia, eles sorrateiramente já ocuparam todas as estantes e prateleiras disponíveis, deitados, em pé, às vezes socados, coitados. Espalham-se pelo quarto, em pilhas ao lado da cama, em cima da mesa; ocupam os móveis da sala, arriscam-se pela cozinha, ensaiam um avanço por todos os cantos livres da casa. A não ser que você possua uma memória prodigiosa, nesse momento será muito difícil dizer: onde está aquele romance russo que eu nunca consegui terminar? Ou: quantos livros de literatura latino-americana eu tenho mesmo? Para não falar na constrangedora situação de chegar em casa feliz da vida com aquela obra que você sempre quis adquirir e alguns dias depois, no meio de uma faxina, descobrir que você já a havia comprado fazia um bom tempo…

Se você está lendo este post com um sorriso no canto da boca, meneando a cabeça em sinal afirmativo, como quem diz “sei muito bem do que você está falando”, talvez sua coleção também tenha saído do controle. Antes de entrar num embate derradeiro do tipo “ou eles ou eu” e decidir que os livros ficam e você sai, experimente o LibraryThing.

O LT é um programa on-line de catalogação e organização de livros, que permite ainda estabelecer contato com todos os usuários que possuem obras em comum com você. Finquei bandeira por lá faz mais ou menos um mês, e posso garantir: além de bastante útil, o LT pode ser também muito divertido. Quanto aos livros, você pode cadastrar todos os dados (autor, editora, ano, edição, páginas, capa, ISBN etc.), bem como os assuntos de que trata. Depois, você pode organizar sua coleção como quiser e fazer qualquer tipo de busca — tudo depende do volume de dados que você inserir. Quer saber quais os livros da Clarice Lispector você tem? Um clique. O mais interessante vai ser quando você procurar saber quem mais possui A hora da estrela. Você vai encontrar italianos fanáticos por L’ora della stella, franceses encantados com L’heure de l’étoile, e até suecos apaixonados por Stjärnans ögonblick

Além de dar ordem na sua coleção, você ainda pode cadastrar suas livrarias e bibliotecas prediletas (e permitir que qualquer usuário localize-as com o Google Maps), escrever resenhas, montar grupos de discussão, acompanhar o desenvolvimento das bibliotecas de seus amigos. Enfim, o que o LibraryThing acaba oferecendo é um ponto de encontro global para todos aqueles que vêem no livro nada menos que um objeto de devoção.

– Ω –

Escrito por Ronoc. Post também publicado no Blog da Cultura.

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Leve seu livro para passear

6 de novembro de 2008 - 11:16 pm

Numa cidade cosmopolita e culturalmente tão efervescente como São Paulo, por que é tão difícil flagrar alguém acompanhado de livros em parques, praças e cafés? (Sim, sempre existirão as exceções, mas elas são exatamente isso — e acabam cumprindo a sina de estarem lá quase que somente para confirmar a regra.) Se você é um amante dos livros, há de convir: é impossível andar pelas ruas desta metrópole e não ser atropelado por essa pergunta. Certa vez, um amigo, o Paulo Vidal, chegou a confidenciar que quando se sentava em alguma praça com um livro nas mãos receava ser confundido com um ET. E pensar que em alguns lugares do mundo, a prática da leitura ao ar livre ou em público (mas sozinho) é praticamente elevada à categoria de Arte… Entre nós, é mais comum observar pessoas lendo em ônibus ou no metrô. Longe de dizer que não seja louvável dedicar todo e qualquer tempo livre para a leitura, mas limitar os livros ao exíguo e opressor espaço do transporte público paulistano é praticamente uma maldade.

Pode-se ponderar: talvez São Paulo não seja a cidade mais convidativa para quem quer se dar ao luxo de parar, sentar, abrir um livro e passear os olhos por suas páginas. Uns dirão que o medo da violência explica tudo. Outros, que leitores talvez sejam figuras mitológicas e onde eles se escondem, quem há de saber? Talvez estejam todos certos. Peço licença, porém, para evitar todas essas teses e levantar aqui a bandeira de um movimento pra lá de legítimo.

Militante, pegue sua mochila, encha-a de livros e tome as ruas! Veja, a beirada do lago do Ibirapuera parece mesmo uma delícia para deitar, se espreguiçar e… mergulhar no mundo das letras. Quer lugar mais charmoso do que a Praça do Pôr do Sol — sobretudo quando este está, de fato, se pondo — para se deixar apaixonar por uma boa história? E que tal avançar páginas e páginas tendo a metrópole todinha a seus pés? — tente a Pedra Grande, lá no Parque Estadual da Serra da Cantareira. Alguém aí já experimentou levar sua obra predileta para o alto do Martinelli e ficar lá, assim como quem não quer nada, desafiando as vertigens e lendo? E será que é pecado misturar a fome com a vontade de ler? Mesmo se for, vamos ao Mercadão devorar pastel de bacalhau e romance policial para ver no que é que dá. O Anhangabaú é ótimo, a escadaria do Municipal, charmosíssima. Ah, sim, tem o Trianon. Ou, logo em frente, o vão livre do MASP. A Praça da Luz, os jardins do Ipiranga, as ruas e avenidas da USP

Pois é, local é o que não falta. Então, fica o convite. Neste fim de semana, junte-se ao movimento: leve seu livro para passear!

– Ω –

Escrito por Ronoc. Post também publicado no Blog da Cultura.