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As memórias que guardo de meu pai #1

11 de julho de 2013 - 11:25 am

Imagem compartilhada pela querida amiga Danielli

Fico impressionado como o mecanismo do trauma ao mesmo tempo tem o poder de bloquear e libertar nossas memórias mais profundas. Certa vez, ao sofrer um acidente de bicicleta tão grave que chegou a rachar meu capacete (que salvou minha vida, imagino), percebi que uns 20 a 30 minutos daquele episódio simplesmente haviam sido apagados da minha mente. Lembrava (e ainda lembro) apenas de momentos antes do acidente acontecer, e depois de aparecer como por encanto em um banheiro com a testa ensanguentada e dois senhores me amparando. Entre uma coisa e outra, é como se nada existisse. O médico logo me corrigiu: o episódio não havia sido apagado. O mais correto, explicou, seria dizer que um mecanismo complexo de nosso cérebro nos ajuda a superar momentos traumáticos “trancafiando” as memórias deles em algum canto bem escondido de nossa cabeça. A memória está lá, mas fica inacessível. Para nos proteger da dor…

Agora que meu pai se foi, contudo, o trauma está agindo no sentido oposto, trazendo à tona episódios que eu nem sabia mais que haviam existido. Vêm falas, imagens, silêncios e gargalhadas, brotando num ímpeto que às vezes se torna até opressor tamanha a dificuldade de lidar com tantas emoções que se atropelam — todas urgentes, todas necessárias, todas alucinadamente se arremessando em minha consciência, exigindo minha atenção, implorando para que eu as coloque numa ordem lógica qualquer, que faça algum sentido. Qualquer um, mas que traga isso: sentido.

Muito provavelmente, estou equivocado. O que deve estar agindo neste momento deve ser algum mecanismo tão poderoso quanto, mas disparado pela perda. E esses fragmentos de lembranças voltam porque talvez eu esteja tentando desesperadamente me agarrar a cada pedaço vivo (ainda que intangível) de meu pai. Como se magicamente fosse capaz de reconstituí-lo. 

Independente das minhas ou das suas crenças, o fato é que meu pai continua vivo em mim — e nas pessoas que ele tocou durante sua passagem por este planeta. E o sentido biológico disso é o menor e menos importante. Ele continua em tudo que presenciei e compartilhei com ele, em tudo que me ensinou, ou que me deu a chance de experimentar. Esse patrimônio, pretendo passá-lo da maneira mais fiel possível à minha filha, para que ela saiba de onde vieram suas raízes, para que ela possa compreender melhor seu próprio pai, sabendo a origem de minhas virtudes e defeitos.

Sei que tudo isso talvez só diga respeito a mim, e à minha família. Porém, vou deixando aqui registrado, para que não se perca, para que uma espécie de legado (palavra que aqui soa tão pretensiosa, desculpem) vá sendo criado. Para que eu siga compartilhando meus dias com a memória de meu pai.

por Ronoc |

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One comment

  1. Me emocionei ao ler o seu texto, suas palavras “(…) trazendo à tona episódios que eu nem sabia mais que haviam existido. Vêm falas, imagens, silêncios e gargalhadas, brotando num ímpeto que às vezes se torna até opressor tamanha a dificuldade de lidar com tantas emoções que se atropelam”, refletiram um sentimento muito parecido. Perdi meu pai aos sete anos e por muito tempo quando alguém me perguntava algo sobre minha infância eu dizia “isso aconteceu quando eu tinha sete anos”, não conseguia me lembrar de nada que aconteceu antes ou pouco depois de sua morte, até que aos 14 anos comecei escrever e fragmentos de histórias começaram a surgir, de risos, de ensinamentos e, sobretudo, de momentos de felicidade, diferentes daquele de perda que havia congelado em minha memória. Obrigada por partilhar um pouco de sua história, de sua relação com seu pai conosco, por me fazer relembrar através de suas memórias, fragmentos da minha própria história. Um grande abraço.



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