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O mundo e o indivíduo, segundo Roth

9 de agosto de 2009 - 10:19 am

Indignação, de Philip RothIndignação (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 171p.; tradução de Jorio Dauster), o mais recente livro do escritor norte-americano Philip Roth, apresenta a história de Marcus Messner, um jovem norte-americano, filho único de uma família judia que tira o sustento de um açougue kosher na cidade de Newark, Nova Jersey. Marcus transita para a vida adulta no início da década de 50, quando seu país está envolvido na Guerra da Coréia, em que milhares de jovens como ele perdem a vida a cada dia.

A passagem para o mundo adulto traz certa liberdade e muitas descobertas para Marcus, mas também a crescente consternação de seu pai quanto ao futuro do filho. Num mundo tão perigoso, como garantir a segurança de todos os sonhos e esperanças materializados na figura de seu único herdeiro? O medo do senhor Messner é difuso: toda e qualquer coisa ameaça seu menino, põe em risco a continuidade de sua família. Já para o jovem, o receio é ir para a guerra e perder a vida, como seus primos ou tantos outros conhecidos. Sentindo-se sufocado pelos cuidados do pai — que Marcus considera à beira da neurose —, o jovem põe em execução seu plano de transferir-se do curso superior que frequenta em sua cidade para outro, desde que seja a quilômetros das trancas da porta de sua casa.

Meio ao acaso, escolhe Winesburg, no estado de Ohio, sem saber que este será apenas o primeiro passo rumo a uma sucessão de armadilhas. Ao chegar à faculdade, além da estranheza natural de novato, Marcus passa a protagonizar uma série de desentendimentos: com colegas de quarto, com membros de fraternidades que a todo custo querem trazê-lo para suas esferas de influência, com o diretor; com o anti-semitismo velado ou escancarado de boa parte dos alunos, com o conservantismo religioso que é a espinha dorsal da instituição.

Marcus não se dá bem com instituições. Não as compreende e não é compreendido por elas. Família, igreja e universidade censuram o rapaz por sua exacerbada independência, por ser irredutível quanto a suas convicções, por não conseguir comungar das crenças predominantes ao seu redor. No extremo, acusam-no de ser intolerante com os outros.

Ora, mas e o que é a guerra senão a negação total do outro, do direito do outro professar suas crenças, sua visão de mundo, seu estilo de vida? É por serem portadores da “liberdade universal” que os Estados Unidos, Europa, Rússia e tantas outras nações lançam-se em três guerras em 50 anos? Ou também por não conseguirem suportar a existência do Outro? Por enxergarem ameaça no que é diferente? Esse paralelo é sutil e magistralmente exercitado ao longo de todo o livro por Roth.

Brilhante nos estudos, tenaz no trabalho, falta a Marcus o que os arautos da psicologia fast-food chamariam de “inteligência emocional”. Por mais que seja um hábil debatedor, capaz de concatenar ideias e discurso de forma admirável, ao se ver encurralado, o jovem aspirante a advogado não consegue muito mais do que recorrer a um bom e sonoro “Vai se foder!”. Ou à fuga.

Marcus foge da família, foge das fraternidades, dos times, das igrejas; não quer ser enquadrado, se sentir pertencendo a ninguém — salvo, talvez, a Olivia Hutton, a colega por quem se apaixona, e que como ele luta para firmar sua existência dentro da lógica de um espaço-tempo que não compreende. Por mais que procure um lugar que seja seu, exclusivamente seu, Marcus se vê cercado, invadido, refém de tradições que despreza. De forma progressivamente dolorosa, vai descobrindo quão frágil é sua posição no interminável enfrentamento entre indivíduo e meio social.

A mudança de Nova Jersey para Ohio traz mais consequências do que o rapaz poderia ter imaginado. Ao deslocamento geográfico, corresponde um deslocamento no campo das ideias. Marcus move-se da acanhada porém aberta Robert Treat, onde os professores defendiam opiniões “decidida e desavergonhadamente de esquerda”, para o coração do conservadorismo WASP (white, anglo-saxon, protestant). Filho de judeus, ateu convicto, Marcus se vê obrigado, entre outras coisas, a frequentar a igreja semanalmente e a aguentar os sermãos de pastores e moralistas que, para ele, só fazem envenenar a mente de seus incautos colegas.

Contra tudo e contra todos, o que pode fazer o jovem e apaixonado Marcus senão se erguer e, indignado, gritar “Não!”?

Precursor da contestadora geração Flower Power, que desabrochará na década de 1960, Marcus se vê enredado em um mundo hipócrita que nos fronts estrangeiros desperdiça a vida de seus jovens para preservar em solo nacional o delírio consumista de um modus vivendi cor-de-rosa, povoado por famílias felizes e perfeitas, garotas e rapazes saudáveis e seus carros reluzentes.

As engrenagens da máquina-mundo moem a carne e dilaceram a mente de Marcus Messner — por mais que procure fugir, em nenhum lugar estará sozinho. Em nenhum lugar estará a salvo. Porque ele mesmo carrega, dentro de si, o embrião das estruturas que o oprimem.

Como diz o presidente de Winesburg em repreensão aos levantes estudantis que em determinado momento tomam conta da faculdade, a História não é o pano de fundo, é o palco. E cada um de nós pode até escolher o papel que pretende encenar, mas o enredo…

Escrito por Ronoc ¦

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