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Pitada de sal #16

10 de julho de 2010 - 10:05 am

“Avilo: esgoto do mundo?, fim da cauda do rio onde a chuva faz as vinganças dela? Chuva já não era chuva!, até nós aqui chegamos de meter respeito nos bródas moçam- bicanos, mesmo eles especialistas das enchentes. As costuras do céu tinham rebentado e o costu- reiro-anjo tava de férias — e nós aqui, a aguentar as aquáticas consequências: mais calamidade menos calamidade, quem quer mesmo saber? Internacionalmente somos mais destacados é na guerra e na fome, única chuva que lhes interessa vir aqui sofrer é chuva petroleo-diamantífera, tás a captar, uí?, outras chuvas das lamas dos mosquitos gordos de matar ndengues na febre das madrugadas, ou mesmo chuva do sorriso repentino e rebentado dos alcatrões de nunca mais lhes consertarem, ou chuva molhada nas nenhumas tendas e telhas dos deslocados provinciais da nossa guerra gorda e engordante, essas são chuvas mais próprias pra pobres, e essas ninguém veio aqui pôr pele dele pra ser salpicado na visão dos olhos: andar já era nadar, conduzir já era navegar, viver já era só sofrer. Nosso povo mesmo é que me causa espanto no coração: rir é rir, um ato labial de para-sempre, e rir não só pra dentro, mas de dentro pros outros também, pra atingir e tingir a vida. Agora parece vou ter que te falar isto: aqui a vida é que está a ser adoptada, fosse uma criança d’olhos bem ramelados que você no olhar lhe busca e encontra a ternura — aí você lhe gosta, lhe habitua. Aqui a vida parece uma criança enteada que lhe aceitamos em casa, ela a fugir da guerra…”

O escritor angolano Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki (palavra umbundu, uma das línguas oficiais de Angola, que signfica “aquele que enfrenta desafios” ou “guerreiro”), em seu mais recente livro lançado no Brasil, Quantas madrugadas tem a noite (São Paulo: Leya, 2010, p.21).

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Na Companhia do Luiz

5 de julho de 2010 - 7:16 am

Grandes editores do passado — como os lendários José Olympio e Jorge Zahar — não tiveram às suas mãos essas maravilhas da comunicação que existem hoje, como a internet e um de seus subprodutos mais difundidos, o blog. Não puderam, portanto, fazer o que tem feito há algumas semanas Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras, no recém-inaugurado Blog da Companhia.

Não conheço pessoalmente o Luiz (não sei se é simpático, humilde, generoso, ou arrogante, pretensioso, cheio de si — ou se uma mistura de tudo isso e de outros infindáveis ingredientes, como a quase totalidade de nós, seres terrenos). Conheço a objetivação de seus sonhos, de seu trabalho (e do de todas as pessoas que estão a seu lado): seus livros. E isso me basta para sentir por ele uma profunda e respeitosa admiração. Quem é do meio (de que vertente for: editorial, comercial, autoral, crítica) sabe o quanto de espírito kamikaze está presente numa pessoa que conscientemente se predispõe a viver de livros no Brasil. Assim, observar no que Luiz transformou essa Companhia nesses vinte e quatro anos de existência, observar a qualidade e esmero que transbordam de cada uma das milhares de páginas trazidas a público todos os meses por sua editora, parece quase como assistir a um dos trabalhos de Hércules sendo executado bem em frente aos nossos olhos.

Quem consegue observar isso — e entender isso — pode ter um vislumbre do privilégio que é poder conhecer, semanalmente, alguns dos episódios mais curiosos, tocantes e surpreendentes que marcaram e vem marcando a trajetória deste homem dos livros.

Não quero me estender, porque isto aqui não era para ser uma hagiografia — e se ficou parecendo, foi porque perdi a mão, inábil que sou. Quero apenas deixar sublinhada com ênfase (e por isso vale a redundância) a sugestão para que todos aqueles que amam o livro aproveitem essa oportunidade de conhecer um de nossos maiores editores vivos. Fica também a sugestão — e a torcida — para que mais editores brasileiros copiem a iniciativa da Companhia e abram suas casas para o público leitor. Farão um bem incalculável ao culto do livro e da leitura em nosso país.

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Pitada de sal #15

4 de julho de 2010 - 11:43 am

“As ações que geram blowback em geral são totalmente ocultas do público americano e da maioria de seus representantes no Congresso. Isto significa que quando civis inocentes se tornam vítimas de um ataque de retaliação, eles são inicialmente incapazes de pôr isso num contexto ou de compreenderem a seqüência de acontecimentos que levou àquilo. Em sua definição mais rigorosa, blowback não significa meras reações a acontecimentos his- tóricos, mas a operações clandestinas realizadas pelo governo dos EUA com o objetivo de derrubar regimes estrangeiros, ou de obter a execução de pessoas que os Estados Unidos querem ver eliminadas por exércitos estrangeiros ‘amigos’, ou de ajudar a lançar operações de terrorismo de Estado contra populações além-mar. O povo americano pode não saber o que é feito em seu nome, mas aqueles que são alvos certamente sabem — inclusive os povos do Irã (1953), Guatemala (1954), Cuba (de 1959 até hoje), Congo (1960), Brasil (1964), Indonésia (1965), Vietnã (1961-73), Laos (1961-73), Camboja (1961-73), Grécia (1967-74), Chile (1973), Afeganistão (de 1979 até hoje), El Salvador, Guatemala e Nicarágua (anos 1980), e Iraque (de 1991 até hoje), para citar apenas os mais óbvios.”

Chalmers Johnson, professor emérito da Universidade da Califónia, San Diego, consultor da CIA entre 1967 e 1973, abre dessa forma seu provocativo e premonitório (foi lançado em 1999 no EUA e anteviu muito do quem vem ocorrendo no cenário das relações internacionais norte-americanas, inclusive, de certa forma, o 11 de setembro) Blowback: os custos e as conseqüências do império americano (Rio de Janeiro: Record, 2007, p.9; tradução de Bruno Casotti).

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Frozen noir

1 de julho de 2010 - 7:06 am

Para aqueles que ao final da saga Millennium sentem-se meio órfãos, lamentando não só a perda humana que representou a morte precoce do escritor Stieg Larsson, mas também a impossibilidade de ver seu projeto se desenvolver em sua totalidade (pretendia escrever pelo menos 10 romances com a dupla Blomkvist & Salander), fica a dica (como diria meu amigo Diego Blanco): (re)des- cubram Henning Mankell. Também sueco, também romancista policial (mas não só, já que é dramaturgo e escreve também para o público infanto-juvenil), Mankell acaba de ter seu quinto livro lançado por estas plagas: Guerreiro Solitário (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 488p.; na tradução de George Schlesinger).

Mas, como sentenciariam os sábios, do começo é que se deve começar. Portanto, falemos do primeiro romance de Henning Mankell publicado no Brasil, Assassinos sem rosto (São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 312p.; na tradução de Beth Vieira).

Ao contrário dos livros de Larsson, considerados policiais apenas por falta de classificação mais apropriada (Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia, trata de crimes econômicos, tráfico de influência política, questões morais, embates familiares etc., e tem como protagonistas um jornalista e uma jovem hacker que trabalha numa empresa de segurança privada), Mankell trabalha com a estrutura por excelência do policial clássico: delegacia, tribunal, tiras e bandidos. Kurt Wallander — o personagem principal e que aparece em outros 8 livros — é um investigador experiente  de uma pequena cidade litorânea sueca, Ystad. Aos 43 anos (mesma idade que Mankell tinha à época em que escreveu o livro, 1991), observa com crescente preocupação os rumos que seu país e seus conterrâneos tomam.

Mankell explora também um elemento praticamente indispensável dos romances noir: a solidão do protagonista. Afinal, o fato de sentirem-se à margem das sociedades cujas entranhas devem revirar dota os investigadores ficcionais daquilo que os antropólogos chamariam o olhar de estrangeiro — capaz de notar os detalhes que escapam a todos nós, domesticados pelo dia-a-dia, acostumados a rotinas, hábitos, atitudes e comportamentos que, para alguém de fora, soam peculiares, provocam interesse, exigem decifração.

Assassinos sem rosto abre com um crime brutal: um casal de fazendeiros idosos é atacado em sua casa com requintes de violência nunca antes vistos naquela região — uma cidade pequena, como dissemos. Aliás, a percepção de uma escalada nos níveis — e uma transformação nos tipos — de violência é algo que provoca mal-estar em Wallander (um policial mais acostumado a lidar com beberrões, brigas entre vizinhos e atropelamentos), e o faz perguntar-se diversas vezes ao longo do livro “Para onde está indo este país?”.

O que se destaca em Assassinos sem rosto não é uma trama altamente intrincanda e reviravoltas surpreendentes, de tirar o fôlego, mas sim uma paisagem, um clima de desolação, melancolia e abandono que se adensa em torno dos fatos e dos personagens, e dita o ritmo da história. É quase como se o crime ficasse num plano secundário, eclipsado pelo estupor diante dos mistérios e descaminhos da natureza humana. Não por acaso, o livro é permeado de idas e voltas de seu protagonista aos temas que mais o oprimem: o casamento recentemente desfeito, a incapacidade de se comunicar com sua filha, e também com seu velho pai; a desconfortável sensação de estar envelhecendo, e de não conseguir mais compreender o espaço e o tempo em que vive.

A questão política — no caso, o “descontrole” na política de concessão de asilo para estrangeiros que, martela Wallander, confunde bons e maus cidadãos, abrindo as portas do país para mafiosos e ex-torturadores de antigos regimes ditatoriais — ganha tom acentuado na narrativa de Mankell. O ódio racial, e todos os crimes a ele ligados, caracteriza outro pólo de tensão no romance, que avança oferecendo pistas falsas, embaralhando hipóteses, confundindo e atraindo o leitor até as páginas finais.

Mankell é daquela estirpe de escritores que busca ser coerente com as palavras que assina. Jovem, envolveu-se com todo tipo de manifestação política (contra a Guerra no Vietnã, contra as guerras coloniais na África etc.). Hoje, já na casa dos 60, mantém no ativismo político uma das vertentes mais importantes de sua vida. Por isso, não foi assim tão surpreendente descobrir o nome de Henning Mankell entre os presentes nas embarcações da frota humanitária turca que procurou furar o bloqueio israelense à Faixa de Gaza no final de maio. Vivendo entre a Suécia e Moçambique (onde mantém, desde 1986, um grupo teatral na capital, Maputo), Mankell mantém uma ligação especial com o continente africano, cenário de algumas de suas obras.

Esse filho de juiz que desde pequeno sentiu fascínio por compreender os mecanismos da justiça; que, ainda criança, foi abandonado pela mãe e encontrou na escrita um refúgio onde poderia moldar o mundo de seus sonhos; que, aos 16 anos, cansado da monotonia da escola, resolveu abandonar os estudos e se tornar marinheiro (trabalhando como estivador por 2 anos); tornou-se um escritor habilidoso, multifacetado e aclamado em mais de 30 países globo afora. Trata-se, seguramente, de um autor que o leitor brasileiro — sobretudo os fãs do gênero policial — precisa conhecer (ou conhecer melhor).

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Pitada de sal #14

22 de maio de 2010 - 8:23 am

“Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente. Para todas as artes da paz, o carvão é necessário; e, se a guerra irrompe, é ainda mais necessário. Em épocas de revolução o mineiro precisa continuar trabalhando, do contrário a revolução tem que parar, pois o carvão é essencial tanto para a revolta como para a reação. […] Para que Hitler possa marchar em passo de ganso, para que o papa possa denunciar o bolchevismo, para que os fãs de críquete possam assistir a seu campeonato, para que os ‘Nancy poets’ possam dar palmadinhas nas costas um do outro, o carvão tem que estar disponível. […] O mesmo acontece com todos os tipos de trabalho manual; eles nos mantêm vivos e nos esquecemos totalmente de sua existência. Mais do que qualquer outro, talvez, o mineiro é o típico trabalhador manual, não só porque seu trabalho é tão absurdamente horrível, mas também porque é tão vitalmente necessário, por assim dizer, que somos capazes de esquecê-lo, tal como nos esquecemos do sangue que corre em nossas veias.”

George Orwell em trecho de seu O caminho para Wigan Pier (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp.53-55; na tradução de Isa Mara Lando).

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Livros em movimento #1

16 de março de 2010 - 8:04 am

Cada vez mais comuns, os curtas promocionais sobre livros proliferam na internet. Alguns chegam realmente a ser sensacionais, não somente cumprindo com perfeição o objetivo de despertar o interesse sobre o livro em questão, mas indo além, constituindo-se em pequenas obras de arte. Algumas editoras brasileiras ensaiam entrar na onda, mas por enquanto restringem-se ainda apenas a vídeos informativos, sem grandes arroubos de criatividade — espero que sigam o caminho e apostem mais nessa vertente de comunicação. Abaixo, para inaugurar em grande estilo esta nova seção, um curta promocional sobre o New Zealand Book Council, que tem como personagem principal o livro Going West, do escritor neozelandês Maurice Gee.

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Antes do ‘fim dos livros’, chega ‘Sabático’

13 de março de 2010 - 10:35 am

Chegou-se a anunciar que ele vem para recuperar o espaço, e a missão, do tantas vezes saudado (e tão saudoso, para aqueles que tiveram a oportunidade de o ler) Suplemento Literário, que circulou entre 1956 e 1966, idealizado por ninguém menos que Antonio Candido e dirigido por Décio de Almeida Prado. Cedo ainda para saber se realmente é para tudo isso a chegada do novo Sabático (que, como o próprio nome indica, circula aos sábados), caderno exclusivamente literário lançado hoje pelo jornal O Estado de S. Paulo — que inaugura reformulação gráfica e de conteúdo (no papel e on-line) neste domingo, 14/03/2010.

Com o caderno em mãos há algumas horas, já podemos ensaiar breves considerações. Em termos de design, nada de surpreendente — na verdade, esperava bem mais, pelo que o jornal tem dito sobre a reformulação gráfica. Em termos de espaço — que, afinal, é algo que conta bastante, já que espaço nas publicações é dinheiro — percebemos o diferencial: oito páginas. Para um sábado, é sim um grande avanço, já que o jornal reservava nesse dia 2 ou 3 páginas para os livros. Mas resta saber como ficará o caderno cultural do domingo, quando o campo literário predominava. Na somatória dos dois dias, saberemos se o público leitor realmente sai ganhando ou se permanecemos no zero a zero.

Destaque desta primeiríssima edição do Sabático, Umberto Eco concede entrevista em que fala sobre sua nova obra (em parceria com Jean-Claude Carrière), Não contem com o fim do livro (Rio de Janeiro: Record, 2010, 272p.; tradução de André Telles). Há também um conto inédito (parte de um livro a ser lançado no segundo semestre) de Ronaldo Correia de Brito, autor do premiado Galiléia. E, ponto alto, reprodução de trecho (a íntegra pode ser lida aqui) da crítica de Antonio Candido sobre Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, na estréia do Suplemento, em 06/10/1956.

Por enquanto, fico com o Sérgio Rodrigues. Mesmo sem saber ao certo que caminhos o Sábatico percorrerá, numa época em que só se fala no possível desaparecimento dos livros no formato que o conhecemos, em tempos em que os cadernos literários, estes sim, parecem à beira da extinção, só o frisson em torno do lançamento do novo suplemento — e o esperado aumento de atenção concedida aos livros — já é algo a ser comemorado.