Posts Tagged ‘cidade de São Paulo’

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Transporte público, vícios privados

14 de dezembro de 2013 - 10:15 am

Congestionamento Monstro

Muitos autores de ficção científica das décadas de 1960, 70 e 80 pintaram as cidades do futuro — esse futuro que chegou e que virou nada mais do que nosso presente — em tons pessimistas, produzindo distopias que nos assombravam e alertavam para os (des)caminhos que tomávamos em nossas escolhas cotidianas e no panorama maior da vida política e econômica de nossas sociedades. Nos mostravam cenários de decadência acelerada povoados por milhões de seres humanos reduzidos a condições degradantes, vivendo amontoados, porém solitários, alimentando-se dos restos de uma sociedade pós-hecatombe industrial/nuclear.

Porém, nem mesmo mestres como Philip K. DickFrank Miller ou William Gibson poderiam ter imaginado algo que se assemelhasse a São Paulo. Cidade monstruosa, que dia e noite trama a extensão de seus cinzentos tentáculos para novas direções, promovendo a destruição da natureza e sua substituição pelo asfalto e concreto. “Lar”de quase 20 milhões de almas (se levarmos em conta toda a mancha urbana), São Paulo é um dos maiores desafios jamais imaginados para governantes, urbanistas e todos aqueles que tentam compreendê-la e domá-la. Sobretudo quando se fala em transporte.

Mais do que construir linhas de metrô ou corredores de ônibus, o desafio em São Paulo está em construir uma nova mentalidade em sua população. Por exemplo, torná-la mais afeita às formas de transporte coletivo e alternativo. Em São Paulo (e de resto em toda grande e média cidade brasileira, com as raras exceções de sempre), a ideia de mobilidade é diretamente ligada à posse e ao uso do carro particular. Por muito tempo, o carro foi (e ainda continua sendo) o sonho de consumo de boa parte da população adulta brasileira. Símbolo de status, de independência, de sucesso. Mesmo os mais humildes reservam partes consideráveis de suas parcas economias para em algum momento adquirir — com prestações a perder de vista — o veículo próprio da família. Ele é visto como o símbolo máximo da conquista material. Claro que essas ideias são massivamente despejadas para dentro do imaginário das pessoas por horas e horas de propaganda televisiva em que o automóvel — não importa o modelo ou marca — desfila impávido e triunfal por ruas quase sempre vazias (quimera inventada por agências a serviço da indústria automotiva), transportando dentro de si indivíduos sorridentes, satisfeitos, realizados — o suprassumo da civilização, os vencedores da árdua luta diária travada no mundo moderno.

Talvez por isso, iniciativas como a que ora toma forma na cidade de São Paulo enfrentem resistência de uma parcela considerável de sua população. Mesmo que as pesquisas indiquem que a ampla maioria apoie a implantação de faixas exclusivas para ônibus, mais de 10% (um contingente expressivo) considera essas medidas “populistas”, “irracionais”, e até mesmo “inconstitucionais”(sic!).

Se for para usar argumentos racionais, o carro é de longe a pior alternativa para transportar o mesmo número de pessoas: ele ocupa mais espaço e emite mais CO2.

Por mais que toneladas de estudos apontem o esgotamento do modelo adotado por São Paulo no passado e que se apoiava no uso massivo de veículos individuais, a discussão parece não se dar mais no plano da racionalidade, mas sim no da paixão. É fato: as pessoas são apaixonadas por seus carros — novamente, este é um veio muito explorado pelas agências de propaganda. (Basta ver os que gastam horas de seus fins de semana lavando, encerando e lustrando até pneus…) E é difícil argumentar quando os sentimentos estão em jogo. Mas este talvez seja apenas o lado mais “romântico” da questão. E mais ingênuo.

Contudo, há outro ângulo que muitas vezes não é abordado. E talvez seja ele o mais importante de todos. Por mais que se negue, há uma ideologia arraigada na sociedade brasileira — e na paulistana em especial — de segregação social do espaço. Claro que em todo canto do planeta isso ocorre, mas no Brasil e em São Paulo essa realidade é mais aguda. Não vou entrar em detalhes, mas os geógrafos, sociólogos e antropólogos têm centenas de estudos a respeito e podem confirmar que não estou forçando a barra. Há na cultura brasileira um descaso patente ao que é público — e, em contrapartida, uma supervalorização dos bens privados. (As raízes disso, como bem apontou Sergio Buarque de Holanda, ou como aprofundou Raymundo Faoro, para citar dois estudos clássicos, remontam à forma como se deu nossa colonização.) É difícil vermos, mesmo nas cidades mais ricas, boas praças, bons parques, boas bibliotecas públicas — todas e todos sucateados, quando existem. No entanto, temos uma variedade de focos de suntuosidade privada, com mansões que lembram castelos, apartamentos que equivalem ao tamanho de 5 ou 6 moradias médias, casas de campo e de praia que parecem cenários de filme norte-americano etc. etc.

A iniquidade brasileira é famosa e persistente. Séculos de história construíram cenários urbanos em que tudo fica “no seu devido lugar”, isto é, uma parte ínfima da sociedade fica com o que há de melhor, enquanto a imensa maioria se digladia para repartir os nacos que sobram de nossa pujante economia.

Grandes cidades, como São Paulo, veem na irrefreável expansão da malha urbana um de seus maiores dramas e paradoxos. Para que a economia cresça, é necessário gente, muita gente — ou ao menos foi assim, no modelo econômico do século XX. Mas como a forma de repartir a riqueza produzida mantém-se precária, grandes contingentes de seres humanos, com poder de compra bastante restrito, são obrigados a procurar, cada vez mais longe dos polos econômicos da cidade, locais minimamente adequados para fixarem residência. Daí o crescimento explosivo das periferias no país inteiro. E desse movimento, nasce, como consequência clara, uma superdemanda por transporte, seja público ou privado.

Encontram-se, então, as duas pontas da cobra. A mesma e pequeníssima porção da sociedade que fica com a maior parte da riqueza produzida por todos, e que consciente ou inconscientemente alimenta uma lógica que expulsa os mais pobres para cada vez mais longe, torce o nariz para melhorias evidentes no transporte daqueles que são relegados à periferia da cidade — melhorias estas que trariam, inclusive, mais fôlego ao modelo econômico vigente.

É óbvio que a implantação de faixas exclusivas é apenas um arranhão no problema do transporte em São Paulo. Contudo, é um primeiro passo — que outros governantes ou não deram ou fingiram acreditar que não fosse necessário. Um primeiro passo que, até simbolicamente, marca uma virada naquilo que deve ser priorizado: o espaço público, o bem comum, o direito de todos de ir e vir.

@Ronoc_

> publicado também em Medium

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Leve seu livro para passear

6 de novembro de 2008 - 11:16 pm

Numa cidade cosmopolita e culturalmente tão efervescente como São Paulo, por que é tão difícil flagrar alguém acompanhado de livros em parques, praças e cafés? (Sim, sempre existirão as exceções, mas elas são exatamente isso — e acabam cumprindo a sina de estarem lá quase que somente para confirmar a regra.) Se você é um amante dos livros, há de convir: é impossível andar pelas ruas desta metrópole e não ser atropelado por essa pergunta. Certa vez, um amigo, o Paulo Vidal, chegou a confidenciar que quando se sentava em alguma praça com um livro nas mãos receava ser confundido com um ET. E pensar que em alguns lugares do mundo, a prática da leitura ao ar livre ou em público (mas sozinho) é praticamente elevada à categoria de Arte… Entre nós, é mais comum observar pessoas lendo em ônibus ou no metrô. Longe de dizer que não seja louvável dedicar todo e qualquer tempo livre para a leitura, mas limitar os livros ao exíguo e opressor espaço do transporte público paulistano é praticamente uma maldade.

Pode-se ponderar: talvez São Paulo não seja a cidade mais convidativa para quem quer se dar ao luxo de parar, sentar, abrir um livro e passear os olhos por suas páginas. Uns dirão que o medo da violência explica tudo. Outros, que leitores talvez sejam figuras mitológicas e onde eles se escondem, quem há de saber? Talvez estejam todos certos. Peço licença, porém, para evitar todas essas teses e levantar aqui a bandeira de um movimento pra lá de legítimo.

Militante, pegue sua mochila, encha-a de livros e tome as ruas! Veja, a beirada do lago do Ibirapuera parece mesmo uma delícia para deitar, se espreguiçar e… mergulhar no mundo das letras. Quer lugar mais charmoso do que a Praça do Pôr do Sol — sobretudo quando este está, de fato, se pondo — para se deixar apaixonar por uma boa história? E que tal avançar páginas e páginas tendo a metrópole todinha a seus pés? — tente a Pedra Grande, lá no Parque Estadual da Serra da Cantareira. Alguém aí já experimentou levar sua obra predileta para o alto do Martinelli e ficar lá, assim como quem não quer nada, desafiando as vertigens e lendo? E será que é pecado misturar a fome com a vontade de ler? Mesmo se for, vamos ao Mercadão devorar pastel de bacalhau e romance policial para ver no que é que dá. O Anhangabaú é ótimo, a escadaria do Municipal, charmosíssima. Ah, sim, tem o Trianon. Ou, logo em frente, o vão livre do MASP. A Praça da Luz, os jardins do Ipiranga, as ruas e avenidas da USP

Pois é, local é o que não falta. Então, fica o convite. Neste fim de semana, junte-se ao movimento: leve seu livro para passear!

– Ω –

Escrito por Ronoc. Post também publicado no Blog da Cultura.

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Lógica para paulistanos #2

29 de outubro de 2008 - 8:36 pm

Um espetáculo deplorável; em cartaz próximo, muito próximo a você.

Palco: um espaço de cerca de 40m2 cheio de ferros, pseudo-assentos e apinhado de pessoas acotoveladas que desafiam, em vários sentidos, todas as leis da física. Alguns, equivocadamente, chamariam de “ônibus”.

Personagens: duas jovens desequilibradas (e não porque estivessem a ponto de cair; na verdade, ao contrário de quase todos no recinto, estavam muito bem sentadas), um motorista em apuros, a multidão pasmada.

Situação: ônibus lotado parado ou se arrastando à velocidade da lesma há cerca de 15 minutos numa fila interminável, num dos corredores de ônibus (que foram criados para dar fluidez ao transporte público!) magnificamente mal administrados pela atual gestão municipal de São Paulo. Detalhe importante: a cena se repete, sisificamente, todos os dias e noites.

Diálogos:

jovem 1 (voz esganiçada, vencendo o murmúrio geral): Ô, motorista, seu filho da puta, anda logo com essa merda, seu retardado!!

jovem 2 (alguns decibéis acima da primeira): É, seu desgraçado, não sabe dirigir, não, ô?!

jovem 1: É um viado mesmo, um corno! Coloca uma mula pra dirigir que é melhor!

jovem 2: Filho da puta do caralho, anda logo, cacete! Vamo logo, porra!

motorista (já não aguentando mais): Vem dirigir aqui, então! Vem cá, senta aqui!

jovem 1: Cala a sua boca, seu filho da puta! Eu que pago o teu sálario, anda logo antes que eu vá aí encher a tua cara de porrada!

motorista (em tom de deboche): Ô Maria, vem aqui, vem!

jovem 2: É, não tem macho aqui nesse ônibus, é nóis mesmo!

jovem 1: É, não tem macho aqui não! Mas eu não tenho medo de macho, não! Ô, motorista, ô seu idiota, vamo logo, caralho!! Eu paguei essa merda, eu quero andar!

Na verdade, o diálogo se estende por uns bons 15, 20 minutos, mas é tamanha sua riqueza, cheio de nuances e figuras de linguagem raríssimas, que minhas limitações vernaculares me recomendam parar por aqui.

Moral (ou falta dela?): A indignação, a virulência da revolta legítima se esgota num enfrentamento de iguais, que a-pa-ren-te-men-te não são vilões, mas vítimas dessa história. As atitudes equivodas, deslocadas, sem foco, ingênuas, e ridículas até, geram não mobilização, mas mais desgaste, confusão e, gran finale, conformismo.

– Ω –

Antes que me acusem de ser monotemático e de ter uma imaginação que deveria estar trancafiada em alguma masmorra, explicações! Nos últimos tempos, tenho passado cerca de 20% de minhas horas acordadas atuando como dublê de sardinha em lata. É compreensível que o tema da “imobilidade urbana” em São Paulo me domine. É compreensível que me queixe, e que queira deixar minha indignação aqui marcada. Me dêem (não, este blog ainda não está de acordo com as novas normas ortográficas) um desconto! Ah, e só para constar: a cena é real.

– Ω –

E pra não dizer que eu ando um chato incorrigível, fica uma dica excêntrica: experimentem alimentar seus Googles com os termos “busólogo” ou “busologia”. Sim, há pessoas capazes de amar os ônibus. E, mistério: em alguns momentos, eu sou uma delas — como dizem, contexto é tudo!

Escrito por Ronoc ¦

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Lógica para paulistanos #1

27 de outubro de 2008 - 6:54 pm

Cidade de São Paulo: a difícil arte de unir dois pontos

premissa 1: Recente pesquisa indicou que, para realizar seus deslocamentos diários, o paulistano depende mais (55%) do transporte público, cuja qualidade — sobretudo a dos ônibus, de responsabilidade majoritária da Prefeitura — tem decaído a olhos vistos nos últimos anos. (Quem anda de ônibus sabe do que estou falando: gado é mais bem tratado do que as pessoas nesta metrópole. E, sinto dizer, isto não é exagero.)

premissa 2: As eleições — como as que foram concluídas neste 26 de outubro — constituem um dos raros momentos em que o cidadão pode, de fato, alterar o andamento das coisas, deixando claro, por exemplo, que está insatisfeito com o rumo (ou a falta dele) que os investimentos em transporte público têm tomado na cidade.

conclusão 1: A grande maioria da população de São Paulo (mais precisamente, 60,72% dela) diz nas urnas que concorda com tudo que está aí, obrigada e até a próxima!

conclusão 2: Logo na manhã seguinte, em alguns (e eu arriscaria dizer “em todos”, mas só posso dar o testemunho daqueles pelos quais passei) dos milhares de ônibus lotados que se arrastam pelas ruas da capital, ouve-se o já conhecido muxoxo contra a situação humilhante a que somos submetidos dia após dia, blá, blá, blá… (E não me venham dizer que os que reclamam votaram em peso na candidata da oposição, que essa não cola. Basta sair perguntando por aí para constatar…)

– Ω –

Se o resultado das eleições só me fez mergulhar na melancolia, se a ausência de reação por parte de meus concidadãos me deixa cada vez mais amuado, pelo menos posso festejar mais um achado digno de figurar no rol de favoritos: Pra lá e pra cá é o blog de Thiago Guimarães, um paulistano que faz mestrado na Alemanha sobre Planejamento e Desenvolvimento Urbano. Realmente animador conferir o que ele tem postado por lá: reflexões sobre alternativas de transporte urbano, relatos de experiências bem-sucedidas de outras cidades, pesquisas e matérias que abordam os caminhos e descaminhos da vida urbana ao redor do mundo. Em seu último post, Thiago nos presenteia com uma entrevista com Soninha, ex-candidata à Prefeitura de São Paulo.

Escrito por Ronoc ¦

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Antes que a história se apague

11 de outubro de 2008 - 9:05 pm

Antes que ele seja inapelavelmente varrido para debaixo do tapete da História, vale o registro de um desabafo pintado nos tapumes do que outrora foi um posto de combustíveis em uma das maiores avenidas de São Paulo, a Rebouças. Visivelmente rabiscada às pressas, provavelmente na não tão calada noite da metrópole, a tinta negra dispara: “Eleições ilegítimas. Quem tem fome não sabe votar! Odeio!”.

Não concordo totalmente com seu(s) autor(es). Como disse no post anterior, para mim está mais do que provado que voto irresponsável não é exclusividade de quem tem pouco estudo e parco acesso a informação e bens culturais — ou, no extremo, passa fome. Pelo contrário, não raro nos surpreendemos com os posicionamentos políticos das pessoas.

Descontando o provavelmente involuntário tom patético do “Odeio!”, não deixa de ser reanimador ver, assim escancarada aos olhos de todos, uma manifestação política nesta cidade “tão limpa”, tão esterilizada, que raramente discute seus problemas, que raramente se mobiliza. Seria bom ver mais gente debatendo, nos ônibus, nas ruas, durante o almoço ou o cafezinho, temas que não os placares da rodada, os rumos das novelas, as casas e festas das celebridades.

A propósito, outro dia, assistimos intrigados, minha esposa, minha cunhada, eu e meus sogros, a uma bela reunião de jovens — bem jovens mesmo e em expressivo número — sob o vão livre do MASP. Vociferavam palavras de ordem, agitavam bandeiras e cartazes; em seus rostos se via energia, se via indignação. Ficamos curiosos: contra o que mesmo se levantavam? O descaso com os serviços públicos, a morosidade da justiça? Apurando o olhar, depois de um tempo, descobrimos: protestavam contra a dissolução do grupo teen RBD…

– Ω –

Mundano e sua batalha contra a hipocrisia do cinza

Mundano e sua batalha contra a hipocrisia do cinza

Ainda sobre a mensagem indignada, desconfio que seja de autoria de um artista paulistano que se auto-intitula Mundano. Você já deve ter se deparado com alguns de seus graffitis espalhados pelos muros de São Paulo. Sempre com frases provocativas, como “Você é um escravo do trânsito” ou “Apaguem a corrupção, e não a arte do povo”, Mundano trava uma verdadeira batalha contra o que ele denominou “cinza kassabiano” e diz que, cansado dos “hipócritas que só vão às exposições atrás de bebida e comida de graça”, procura levar suas manifestações para onde “as pessoas reais” estão: as ruas.

Escrito por Ronoc ¦

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As surpresas das urnas. Surpresas?

8 de outubro de 2008 - 8:20 pm
toma, que a Câmara é sua!

Netinho, ex-Negritude Júnior, agora vereador: toma, que a Câmara é sua!

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista e professor da FAU-USP, talvez uma das pessoas desta metrópole com idéias mais claras, interessantes e pertinentes sobre os problemas de São Paulo e os caminhos para os solucionar, não conseguiu reunir número suficiente de votos para garantir sua permanência na Câmara de Vereadores. Obteve a preferência de 24.055 paulistanos (dos quais me orgulho de ter sido um), o que o deixou apenas na 56ª posição no pleito deste 05 de outubro.

Em compensação, a Câmara ganhou nomes de peso, como Netinho de Paula (“Beijo geladinho”) e Marcelo Aguiar (“Não dá pra fazer amor sem ter você”), sem falar de uma extensa lista de homens e mulheres de passado político questionável. Pra completar, por pouco eles não tiveram a oportunidade de desfrutar da companhia de Dinei (“Corinthiano vota em corinthiano. Awú!” — eu não votei!) e Sérgio Mallandro (“Glu-glu!”). E olha que foi realmente por muito pouco. Aqui não vai qualquer juízo de valor sobre as pessoas citadas — guardo simplesmente o direito e o dever de observar que não se encontram preparadas para exercer o cargo que conquistaram ou quase conquistaram. (Por sugestão de meu grande amigo Walter, a relação da “Câmara do Terror”, elaborada pelo também amigo André, codinome Marmota, que por sua vez sugere a relação de Carol, do Nossa, Canossa!.)

Neste ponto, alguns simplesmente desabafariam: gastar saliva pra quê?! Falar em conscientização política no Brasil ou em São Paulo — que é, teoricamente, a cidade mais “avançada” do país —, é quase uma piada de mau gosto. Sérgio Buarque de Hollanda que me valha! Não vou começar a desfiar (não aqui, não agora) o rosário das causas de nossa infantilidade em assuntos públicos. Basta dizer que ainda somos fracos, muito fracos na hora de escolher nossos representantes e a cada eleição podemos coletar inúmeras provas disso.

Quem estiver me interpretando mal, se sacuda na cadeira. Não, não estou falando de um pretenso “povo ignorante”, de uma massa de manobra ingênua que se encaminha bovinamente em direção às urnas. Não vou cair na ladainha fácil de que o “povo sem cultura não sabe escolher direito”. É óbvio que se faz de tudo para conduzir as massas — e isso não é exclusividade brasileira, nem de países subdesenvolvidos, ou como os quiserem chamar. Não há dúvida de que a educação precária prepara mal as pessoas para entender o que se passa à sua volta, que dirá para escolher entre propostas e programas políticos! Porém, os dados mostram que o “voto ruim” não respeita as fronteiras de classe social, escolaridade, faixa etária etc. E é por isso que, por incrível que pareça, não creio que o pior de todo esse quadro sejam os netinhos, os dineis ou sérgios mallandros que se sucedem nos cargos públicos país afora. Pra mim, o que mais causa aflição é o egoísmo atroz que quase sempre transborda das urnas brasileiras.

O grande desafio da Política hoje (e talvez tenha sido sempre) é precisamente levar as pessoas, sobretudo aquelas mais aquinhoadas, a abrirem mão de seus pontos-de-vista, por alguns instantes que seja, e adotar o ponto-de-vista do outro. Ainda mais quando “o outro” em questão tem pouco ou nenhum acesso a educação, saúde, habitação e transporte de qualidade. É difícil: vivemos em um país que quase sempre disputa a coroa da pior distribuição de renda do planeta. Ouvem-se discursos bem intencionados a torto e a direito. Mas na hora de realmente tocar nas causas profundas de nossas mazelas, as posições tornam-se claras. Salvo raríssimas exceções (e elas existem de fato, é bom frisar), quem tem muito quer ter mais e não abre mão de naco algum em prol de quem quer que seja.

É triste ver pessoas que nunca puseram as solas de seus caros sapatos nas ruas (quando elas existem) da periferia de São Paulo, que não sabem com quantas viagens de ônibus lotado se faz um corpo cansado, que nunca sentiram o desespero e a humilhação de verem seus familiares morrendo em filas absurdas às portas dos hospitais públicos; é triste, repito, ver essas pessoas condenarem governos “assistencialistas”, que esbanjam dinheiro em obras equivocadas (leia-se qualquer obra que esteja longe dos roteiros das classes média ou alta paulistanas). Há quatro anos, justamente quando se disputava a prefeitura de São Paulo, rabisquei algumas linhas sobre isso. É triste, também, perceber o quanto minha rabugentice permanece atual, notar que nada mudou na mentalidade do “paulistano médio”. Posso estar tremendamente enganado, mas o resultado de 15 de novembro infelizmente deve me dar razão.

Escrito por Ronoc ¦

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São Paulo a duas rodas

28 de setembro de 2008 - 6:34 pm

Bicicletas e São Paulo: algo a ver?

Os mais céticos dirão que não passa de mais uma jogada política às vésperas de eleição. E eu quase me junto ao grupo. As inaugurações do aguardado Caminho Verde, na Zona Leste de São Paulo, e de novos bicicletários ao longo da linha vermelha do metrô soam mesmo às famigeradas manobras caça-voto, estrategicamente programadas para ocorrer, digamos assim, em momentos bem propícios às carreiras políticas dos espertalhões de plantão.

De qualquer forma, o fato de estarmos falando de ciclovias e de empréstimo de bicicletas em estações de metrô, e não de pontes, túneis ou viadutos que só fazem cócegas no enlouquecido trânsito paulistano, já é um começo. (Mas, para cada passo num sentido correto que damos… Que dizer da recente inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira, no Morumbi? Tirando a Rede Globo, que ganhou um vistoso pano de fundo para seus telejornais, e as agências de publicidade, que colocam a ponte em 7 entre 10 comerciais, não vejo muitos beneficiados por esse monstruoso monumento ao faraonismo urbano.)

É claro que a falta de planejamento e sobretudo de coerência por parte dos principais pretendentes à Prefeitura de São Paulo (a grande exceção, justiça seja feita, é a Soninha, que há tempos milita pela causa dos ciclistas) não nos permite sonhar muito. A verdade é que mesmo com todas as novidades apresentadas nos últimos dias, São Paulo ainda tem uma malha cicloviária menor do que Sorocaba, só para ficar com um exemplo próximo.

É claro, também, que seria padecer de pollyannismo agudo esperar que o uso de bicicletas resolva o problema do transporte na cidade — este é exatamente o ponto que um post antigo do Transporte Ativo aborda. Aliás, fica a dica: o TA é um dos bons lugares na rede que refletem sobre o uso das bikes como alternativa (séria!) de deslocamento urbano.

O negócio é torcer (e pressionar) para que os espasmos de boas práticas se transformem em políticas duradouras e bem estruturadas, verdadeiramente voltadas à construção de uma matriz de transportes variada e eficiente, capaz de desfazer o nó que nos afoga dia e noite em São Paulo. Um bom início é pensar muito bem antes de apertar os botões neste 05 de outubro…

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Sim, isto é uma bicicleta!

Sim, isto é uma bicicleta!

Pode ser apenas mais uma dessas grandes coincidências que nos assolam vez por outra, mas nas últimas duas semanas vi pelo menos três pessoas na região da Paulista desfilando bicicletas que ainda não conhecia, mas que depois descobri se tratar da Flexbike. Vocês podem até me perguntar em que planeta andei vivendo, mas realmente não conhecia essa bicicleta dobrável que, dentro de uma sacola própria, pode ser facilmente transportada no metrô, no ônibus e que ocupa quase nada do cada vez mais escasso espaço dos cada vez menores lares paulistanos.

O conceito parece ótimo. Só resta saber — como muito bem perguntou minha esposa — se o paulistano também vai ser flexível a ponto de não dirigir um olhar fuzilante àqueles “flexbikers” que ousarem reservar um pouquinho mais de espaço vital nos apinhados vagões do metrô ou nos impossíveis ônibus para suas magrelas dobráveis…

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Outro blog muito legal sobre a difusão da bicicleta como meio de transporte urbano, desta vez em São Bernardo do Campo, é o Pedal-Driven. Aliás, por causa dele, acabei descobrindo o Apocalipse Motorizado, muito bom também.

Escrito por Ronoc ¦