Posts Tagged ‘literatura’

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Julgue o livro pela capa #1

19 de agosto de 2009 - 9:57 pm

A partir deste mês, a editora Companhia das Letras apresenta ao público a nova roupagem de sua extensa Série Policial. O visual sóbrio, em que predominavam fotos em preto e branco sobre um lay-out quase totalmente negro dá lugar a um design mais arrojado, com cores vivas e maior destaque para o nome dos autores. As bordas coloridas, que foram — e ainda são — surpreendentes, e constituem um dos traços diferenciais da série, foram mantidas. Ao que tudo indica, a editora pretende, com esta modificação, dialogar com um público maior, flertando com jovens que, hoje, dificilmente procuram de forma espontânea os livros da coleção. Se o projeto anterior, assinado por João Baptista da Costa Aguiar, evocava cenas de mistério, com uma abordagem mais clássica; o novo, criado por Elisa V. Randow, parece apostar em um clima pop soturno — se é que me faço entender…

Abaixo, uma amostra dos dois primeiros livros a estamparem o novo projeto: O último caso da colecionadora de livros, de John Dunning, e Paciente Particular, de P. D. James. As capas dos demais títulos da série serão substituídas aos poucos, assim que novas tiragens forem sendo impressas.

ultimo_caso

paciente_particular

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O mundo e o indivíduo, segundo Roth

9 de agosto de 2009 - 10:19 am

Indignação, de Philip RothIndignação (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 171p.; tradução de Jorio Dauster), o mais recente livro do escritor norte-americano Philip Roth, apresenta a história de Marcus Messner, um jovem norte-americano, filho único de uma família judia que tira o sustento de um açougue kosher na cidade de Newark, Nova Jersey. Marcus transita para a vida adulta no início da década de 50, quando seu país está envolvido na Guerra da Coréia, em que milhares de jovens como ele perdem a vida a cada dia.

A passagem para o mundo adulto traz certa liberdade e muitas descobertas para Marcus, mas também a crescente consternação de seu pai quanto ao futuro do filho. Num mundo tão perigoso, como garantir a segurança de todos os sonhos e esperanças materializados na figura de seu único herdeiro? O medo do senhor Messner é difuso: toda e qualquer coisa ameaça seu menino, põe em risco a continuidade de sua família. Já para o jovem, o receio é ir para a guerra e perder a vida, como seus primos ou tantos outros conhecidos. Sentindo-se sufocado pelos cuidados do pai — que Marcus considera à beira da neurose —, o jovem põe em execução seu plano de transferir-se do curso superior que frequenta em sua cidade para outro, desde que seja a quilômetros das trancas da porta de sua casa.

Meio ao acaso, escolhe Winesburg, no estado de Ohio, sem saber que este será apenas o primeiro passo rumo a uma sucessão de armadilhas. Ao chegar à faculdade, além da estranheza natural de novato, Marcus passa a protagonizar uma série de desentendimentos: com colegas de quarto, com membros de fraternidades que a todo custo querem trazê-lo para suas esferas de influência, com o diretor; com o anti-semitismo velado ou escancarado de boa parte dos alunos, com o conservantismo religioso que é a espinha dorsal da instituição.

Marcus não se dá bem com instituições. Não as compreende e não é compreendido por elas. Família, igreja e universidade censuram o rapaz por sua exacerbada independência, por ser irredutível quanto a suas convicções, por não conseguir comungar das crenças predominantes ao seu redor. No extremo, acusam-no de ser intolerante com os outros.

Ora, mas e o que é a guerra senão a negação total do outro, do direito do outro professar suas crenças, sua visão de mundo, seu estilo de vida? É por serem portadores da “liberdade universal” que os Estados Unidos, Europa, Rússia e tantas outras nações lançam-se em três guerras em 50 anos? Ou também por não conseguirem suportar a existência do Outro? Por enxergarem ameaça no que é diferente? Esse paralelo é sutil e magistralmente exercitado ao longo de todo o livro por Roth.

Brilhante nos estudos, tenaz no trabalho, falta a Marcus o que os arautos da psicologia fast-food chamariam de “inteligência emocional”. Por mais que seja um hábil debatedor, capaz de concatenar ideias e discurso de forma admirável, ao se ver encurralado, o jovem aspirante a advogado não consegue muito mais do que recorrer a um bom e sonoro “Vai se foder!”. Ou à fuga.

Marcus foge da família, foge das fraternidades, dos times, das igrejas; não quer ser enquadrado, se sentir pertencendo a ninguém — salvo, talvez, a Olivia Hutton, a colega por quem se apaixona, e que como ele luta para firmar sua existência dentro da lógica de um espaço-tempo que não compreende. Por mais que procure um lugar que seja seu, exclusivamente seu, Marcus se vê cercado, invadido, refém de tradições que despreza. De forma progressivamente dolorosa, vai descobrindo quão frágil é sua posição no interminável enfrentamento entre indivíduo e meio social.

A mudança de Nova Jersey para Ohio traz mais consequências do que o rapaz poderia ter imaginado. Ao deslocamento geográfico, corresponde um deslocamento no campo das ideias. Marcus move-se da acanhada porém aberta Robert Treat, onde os professores defendiam opiniões “decidida e desavergonhadamente de esquerda”, para o coração do conservadorismo WASP (white, anglo-saxon, protestant). Filho de judeus, ateu convicto, Marcus se vê obrigado, entre outras coisas, a frequentar a igreja semanalmente e a aguentar os sermãos de pastores e moralistas que, para ele, só fazem envenenar a mente de seus incautos colegas.

Contra tudo e contra todos, o que pode fazer o jovem e apaixonado Marcus senão se erguer e, indignado, gritar “Não!”?

Precursor da contestadora geração Flower Power, que desabrochará na década de 1960, Marcus se vê enredado em um mundo hipócrita que nos fronts estrangeiros desperdiça a vida de seus jovens para preservar em solo nacional o delírio consumista de um modus vivendi cor-de-rosa, povoado por famílias felizes e perfeitas, garotas e rapazes saudáveis e seus carros reluzentes.

As engrenagens da máquina-mundo moem a carne e dilaceram a mente de Marcus Messner — por mais que procure fugir, em nenhum lugar estará sozinho. Em nenhum lugar estará a salvo. Porque ele mesmo carrega, dentro de si, o embrião das estruturas que o oprimem.

Como diz o presidente de Winesburg em repreensão aos levantes estudantis que em determinado momento tomam conta da faculdade, a História não é o pano de fundo, é o palco. E cada um de nós pode até escolher o papel que pretende encenar, mas o enredo…

Escrito por Ronoc ¦

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O homem que amava um bom mistério

4 de julho de 2009 - 9:10 am

Enigmas e mistérios fascinam o ser humano. Poucas coisas são mais excitantes — e viciantes — do que se embrenhar em séries de informações desconexas e perguntas aparentemente sem resposta, ruminar pedaços de raciocínio, perder-se entre conclusões conflitantes e debilmente sustentadas, para, no fim, emergir, buscando o ar tal qual um afogado, com a resposta triunfal. Que liberta, sim, mas que também é apenas a ante-sala da escravidão: queremos e precisamos de mais!

Assim nos portamos quando nos cai nas mãos um bom romance policial. Durante dias (quando a leitura toma dias, já que normalmente nos consome de tal maneira, que em horas somos obrigados a concluí-la) nos vemos como que hipnotizados, arrancados de nossa rotina e transportados para um mundo em que criminosos e investigadores se confrontam implacavelmente.

Assim me portei quando finalmente me rendi aos apelos de Os homens que não amavam as mulheres (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 522p.), do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). Já havia lido e ouvido muita coisa — boa e ruim — sobre o livro. Mas por algum motivo ainda não tinha me dado ao trabalho de tirar uma conclusão minha. Saldei a dívida nestes últimos dias. E não me arrependi.

Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história.  Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.

Não me parece que essa forma de distribuir os papéis, embaralhando características supostamente “masculinas” e “femininas”, seja propriamente uma novidade — aliás, a própria distinção por gêneros de traços de caráter é pra lá de questionável. O que realmente me atraiu foi a riqueza de temas que vão se incorporando à trama, e a maneira (quase sempre) segura com que Larsson vai conduzindo-os ao longo do livro. Uma família tradicional e seus segredos? Ok. Um mistério não resolvido do passado e que continua a assombrar os envolvidos dia após dia? Ok. Uma dupla de investigadores cativantes e que nos conquistam com sua inteligência e determinação? Ok. Mas a história é atravessada por crimes econômicos, pontuada por reflexões éticas, avança em múltiplas direções, sem deixar de esmiuçar a vida de seus personagens, nos apresentando os rincões da gélida Suécia e também da alma humana. Acima de tudo, é nessa versatilidade que está a força do romance.

De qualquer forma, não espere que Os homens que não amavam as mulheres seja um clássico. Pode ser que daqui a alguns anos, quando a poeira levantada por filmes (o primeiro começou a estrear em capitais européias no final de maio) e etc. baixar, ele e os outros livros da série caiam no mais completo esquecimento. Quem sabe? Mas para quem não sofre da doença que obriga a condenar tudo quanto é romance policial aos porões da subliteratura, esta pode ser uma leitura bastante satisfatória.

– Ω –

Stieg Larsson morreu em 2004, com apenas cinquenta anos, e pouco tempo após entregar os três primeiros livros da série Millennium. Sim, porque dizem que ele tinha em mente pelo menos 10 livros. Sua viúva garante ter descoberto as primeiras 200 páginas do que seria a quarta aventura. Já se ouvem boatos de que editoras do mundo inteiro disputam o direito de colocar ghost-writers (sem trocadilhos) para escrever como se fossem Larsson (algo como o que se faz com Robert Ludlum). A verdade é que o destino da Millennium talvez nem Blomkvist ou Salander sejam capazes de prever.

Sorte minha que ainda tenho dois livros pela frente.

Escrito por Ronoc ¦

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Pitada de sal #9

21 de maio de 2009 - 11:57 am

“Por que não estou escrevendo este livro mais depressa? Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’? Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo — NÃO escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”

Gay Talese refletindo com seus elegantes botões e alfinetando alguns de seus pares em Vida de escritor (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.403; tradução de Donaldson M. Garschagen)

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Pitada de sal #8

14 de maio de 2009 - 8:54 am

“Penso muito no futuro dos livros. Podem continuar a competir com as formas rápidas, baratas, fáceis, que não exigem leitura nem pensamento? Devo dizer que sim, ou que alguns deles estão tentando. Muitos livros hoje são escritos tendo o cinema em mente. Dizem que alguns editores não publicarão um livro se não houver a possibilidade de vendê-lo para o cinema. E até o escritor em muitos casos se envolve, meio escritor e meio vendedor. Tem de ficar numa livraria rotulando seu produto com seu nome. Tem de ir a programas de televisão e tornar-se um macaco treinado. Deve sujeitar sua vida privada, sua vida sexual e seus músculos, até mesmo seu cabelo, ao olhar boçal de seus possíveis leitores. Dizem que está abandonando o livro caso não faça essas coisas. Estará sendo anti-social caso não permita que as revistas populares registrem seu café da manhã e sua esposa ou esposas em papel lustroso.

Não acredito que um livro possa competir com seus rivais nos termos deles. Por outro lado, eles não podem competir com o livro nos termos deste. Nenhum outro meio, exceto a música, pode como ele ‘atrair a mente e as emoções’. Não se pode conceber um filme como pessoal, como um livro amado é pessoal. Nenhum programa de televisão é amigo como um livro é amigo. E nenhum outra forma, exceto outra vez a música, convida à participação do receptor como um livro faz.”

John Steinbeck em texto da década de 1950 e que faz parte de A América e os americanos (Rio de Janeiro: Record, 2004, p.209; tradução de Maria Beatriz de Medina).

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Passeio de domingo #2

25 de janeiro de 2009 - 9:28 am

O prêmio Nobel de literatura José Saramago é acusado de plágio. Há 3 anos, o escritor mexicano Teófilo Huerta tenta provar que o livro Intermitências da morte, lançado por Saramago em 2005, tem pontos em comum demais com seu conto ¡Últimas Notícias!, publicado em 1987 como parte do livro La segunda muerte. Huerta mantém até um blog de onde dispara seus petardos contra o laureado escritor português. Para que cada um tire suas próprias conclusões, a revista eletrônica Cronópios resolveu publicar uma tradução do conto. Às comparações, pois! Ainda no campo dos grandes mestres, mas do lado de cá do Atlântico, os machadianos de plantão, se é que ainda não a conhecem, devem visitar a Machado de Assis em linha, revista eletrônica de estudos exclusivamente voltados à obra do Bruxo do Cosme Velho produzida pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Pra finalizar, uma dica estritamente bibliófila: uma entrevista com Coralie Bickford-Smith, designer inglesa de capas de livros responsável por algumas das mais inacreditavelmente belas edições que a Penguin tem lançado nos últimos anos.

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2009: dez anos do primeiro homem em Marte

28 de dezembro de 2008 - 2:56 pm

Imagine que após séculos de sonhos e décadas de ensaio, a humanidade finalmente consegue por os pés em Marte, descobre que o planeta não só possui construções de fabulosa arquitetura, mas também — segurem seus queixos — é habitado por figuras que lembram, em muitos aspectos, os terráqueos. Imagine que os astronautas enviados nessa venturosa missão inaugural buscam a primeira casa que avistam, dirigem-se à porta, batem nela, vêem-na abrir-se e, quase engasgados de emoção, dizem: “Olá! Viemos da Terra!” Do outro lado, uma dona de casa marciana recebe a notícia com o entusiasmo de quem aguenta a lenga-lenga de vendedores de bugigangas…

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Quando ainda não havia spirits vasculhando o solo marciano e de lá nos enviando cartões-postais improváveis, quando metade do Planeta Terra era, ele sim, vermelho, e os comunistas ocupavam o posto de vilões favoritos da “América”, um autor norte-americano utilizava toda sua potência criativa para descrever a epopéia humana rumo a Marte. Ray Bradbury (1920- ) — talvez mais conhecido por Fahrenheit 451, que foi levado ao cinema por François Truffaut — lançou como livro, em 1950, a reunião de 26 contos que vinham sendo publicados em diversas revistas de pulp fiction. Ao conjunto, deu o título As crônicas marcianas (São Paulo: Globo, 2005).

Aqueles que torcem o nariz para a literatura de ficção científica, rotulando-a como escapista, alienada e alienante, não fariam mal em aprender uma ou duas boas lições com Ray Bradbury (com Philip K. Dick e William Gibson, também, só para citar mais dois grandes escritores do gênero).

Na verdade, As crônicas marcianas tratam, antes de mais nada, dos encontros e desencontros da espécie humana consigo mesma. E só por essa razão, sua leitura será valiosa hoje e no futuro, como foi em sua época. Busca por liberdade, por significado e compreensão da existência, limites da tolerância, identidade versus alteridade, choques culturais, desenvolvimento sustentável — são alguns dos temas que, com maior ou menor intensidade, atravessam as narrativas de Bradbury, conferindo-lhes profundidade e possibilidades de interpretação variadas.

Alguns contos, como Flutuando no espaço (pp. 159-179) e Usher II (pp. 182-203), escancaram o tom político, avançando sem pudores sobre questões chave dos EUA da época, como os direitos civis da população negra e o flerte com a censura trazido pela paranóia macartista.

“Os antigos nomes marcianos eram nomes de água, ar e de colinas. Eram nomes de neves que caíam no sul em canais de pedra para preencher os mares vazios. E nomes de feiticeiras enterradas, de torres e de obeliscos. E os foguetes esmagavam todos os nomes como marretas, transformando o mármore em argila, despedaçando os marcos de barro que davam nome às antigas cidades, e nesses escombros enfiavam-se postes suntuosos com novos nomes: CIDADE DO FERRO, CIDADE DO AÇO, CIDADE DO ALUMÍNIO…” (pp. 180-181) Estava Bradbury falando de foguetes humanos invadindo Marte, ou de caravelas singrando os mares rumo ao Novo Mundo? De astronautas, ou de garimpeiros em busca de um Oeste “selvagem”? São analogias óbvias, que o próprio autor se encarrega de alimentar ou explicitar aqui e ali nos contos. Mas deve-se destacar que essas aproximações, apesar dos 50 anos de idade, ainda obrigam a pensar, seguem provocando incômodo.

Em 2009, comemoram-se os 10 anos da primeira pegada humana deixada em solo marciano — ao menos se acreditarmos nos relatos de Bradbury… Prepare-se para as comemorações (re)descobrindo este clássico da ficção científica.

Escrito por Ronoc e também publicado no Blog da Cultura ¦