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Lógica para paulistanos #2

29 de outubro de 2008 - 8:36 pm

Um espetáculo deplorável; em cartaz próximo, muito próximo a você.

Palco: um espaço de cerca de 40m2 cheio de ferros, pseudo-assentos e apinhado de pessoas acotoveladas que desafiam, em vários sentidos, todas as leis da física. Alguns, equivocadamente, chamariam de “ônibus”.

Personagens: duas jovens desequilibradas (e não porque estivessem a ponto de cair; na verdade, ao contrário de quase todos no recinto, estavam muito bem sentadas), um motorista em apuros, a multidão pasmada.

Situação: ônibus lotado parado ou se arrastando à velocidade da lesma há cerca de 15 minutos numa fila interminável, num dos corredores de ônibus (que foram criados para dar fluidez ao transporte público!) magnificamente mal administrados pela atual gestão municipal de São Paulo. Detalhe importante: a cena se repete, sisificamente, todos os dias e noites.

Diálogos:

jovem 1 (voz esganiçada, vencendo o murmúrio geral): Ô, motorista, seu filho da puta, anda logo com essa merda, seu retardado!!

jovem 2 (alguns decibéis acima da primeira): É, seu desgraçado, não sabe dirigir, não, ô?!

jovem 1: É um viado mesmo, um corno! Coloca uma mula pra dirigir que é melhor!

jovem 2: Filho da puta do caralho, anda logo, cacete! Vamo logo, porra!

motorista (já não aguentando mais): Vem dirigir aqui, então! Vem cá, senta aqui!

jovem 1: Cala a sua boca, seu filho da puta! Eu que pago o teu sálario, anda logo antes que eu vá aí encher a tua cara de porrada!

motorista (em tom de deboche): Ô Maria, vem aqui, vem!

jovem 2: É, não tem macho aqui nesse ônibus, é nóis mesmo!

jovem 1: É, não tem macho aqui não! Mas eu não tenho medo de macho, não! Ô, motorista, ô seu idiota, vamo logo, caralho!! Eu paguei essa merda, eu quero andar!

Na verdade, o diálogo se estende por uns bons 15, 20 minutos, mas é tamanha sua riqueza, cheio de nuances e figuras de linguagem raríssimas, que minhas limitações vernaculares me recomendam parar por aqui.

Moral (ou falta dela?): A indignação, a virulência da revolta legítima se esgota num enfrentamento de iguais, que a-pa-ren-te-men-te não são vilões, mas vítimas dessa história. As atitudes equivodas, deslocadas, sem foco, ingênuas, e ridículas até, geram não mobilização, mas mais desgaste, confusão e, gran finale, conformismo.

– Ω –

Antes que me acusem de ser monotemático e de ter uma imaginação que deveria estar trancafiada em alguma masmorra, explicações! Nos últimos tempos, tenho passado cerca de 20% de minhas horas acordadas atuando como dublê de sardinha em lata. É compreensível que o tema da “imobilidade urbana” em São Paulo me domine. É compreensível que me queixe, e que queira deixar minha indignação aqui marcada. Me dêem (não, este blog ainda não está de acordo com as novas normas ortográficas) um desconto! Ah, e só para constar: a cena é real.

– Ω –

E pra não dizer que eu ando um chato incorrigível, fica uma dica excêntrica: experimentem alimentar seus Googles com os termos “busólogo” ou “busologia”. Sim, há pessoas capazes de amar os ônibus. E, mistério: em alguns momentos, eu sou uma delas — como dizem, contexto é tudo!

Escrito por Ronoc ¦

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8 comentários

  1. “Baseado em fatos verídicos”?
    Então, pesa-me dizer, mas…

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Lá sou amigo do motorneiro
    Lá pego a condução que eu quero
    No ponto que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Vou-me embora pra Pasárgada
    Aqui eu não sou feliz
    Lá o congestionamento é um mito
    De tal modo inverossímil
    Que Joana a Louca de Espanha
    Rainha e falsa demente
    Vem a ser marronzinho
    Do cruzamento que nunca trava

    E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em Honda 500cc
    Subirei no fofão
    Tomarei banhos de lua!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do Pinheiros
    Mando chamar a mãe-d’água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu motorista
    Cravo vinha me contar
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Em Pasárgada tem tudo
    É outra metrópole
    Tem um trânsito seguro
    Sem quaisquer acidentes
    Tem câmbio automático
    Tem wi-fi móvel à vontade
    Tem combustível verde
    Para a gente não poluir

    E quando eu estiver mais estressado
    Mas estressado de não ter jeito
    Quando de noite me der
    Vontade de dirigir
    — Lá sou amigo do motorneiro —
    Terei a condução que eu quero
    No ponto que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada.


  2. só uma pergunta. Vítimas de quem ó cara pálida?
    Do sistema?
    Dos oligarcas?
    Dos colonizadores europeus?
    Dos colonizadores africanos e árabes que colonizaram a africa?
    Quem nesta redondo esfera de vitimismos é o culpado?


  3. álias desculpe.
    das tribos africanas que se escravizavam entre si e depois capturavam negros de tribos inimigos e vendiam aos brancos europeus?
    aos antigos egipcíos que escravizaram os judeus?
    dos colonizadores africanos e árabes que colonizaram a europa?
    Quem nesta redondo esfera de vitimismos é o culpado?


  4. Dio, exatamente por acreditar que também são “vilões”, ou, melhor dizendo, são sujeitos da própria história e por isso diretamente responsáveis, sim, pela realidade que os cerca, capazes que são (mesmo que na maior parte das vezes, não o percebam) de a transformar, ainda que aos poucos, ainda que aos trancos e barrancos; exatamente por acreditar nisso tudo que coloquei o “aparentemente” em negrito e dividido silabicamente. Era para invalidar essa divisão maniqueísta “vilão/vítima”. É triste, mas no episódio que eu presenciei (como em tantos que a gente vê todos os dias) fica evidente a ignorância, a falta de ânimo, a falta de mobilização, a falta de direcionamento da “revolta legítima”. É tudo isso que nos mata, é tudo isso que nos “auto-escraviza”.


  5. Quanto às suas observações sobre a escravidão, nenhuma das suas provocações é indevida. Para seguir um exemplo seu, sim, os africanos guerreavam entre si e os vencidos acabavam virando escravos; essa prática execrável era corrente entre os povos antigos — inclusive na Grécia, “berço da democracia”. O problema, contudo, é observar que nações ditas “civilizadas” não conseguiam superar essa lógica, mas a reproduziam e estimulavam. O problema é observar que neste “sistema tão avançado” que é o capitalismo, continua-se recorrendo ao uso do trabalho escravo, literalmente (dê uma olhada na página http://www.reporterbrasil.com.br) ou na forma de aviltamento do trabalhador (ex.: condições sub-humanas de trabalho e remuneração em diversas partes do mundo, como na China, e que são muito bem aproveitadas pelos maiores conglomerados do mundo “livre”, “avançado” e portador de todas as boas intenções do universo…).


  6. Walter, simplesmente genial sua versão do poema! ahahaha Estou rindo até agora!


  7. meu caro,

    é óbvio que o capitalismo tem defeitos, simplesmente pelo fato que a vida humana é cheia de falhas, é contingente.

    minha defesa do mesmo é que, mesmo com seus defeitos, nenhum sistema até hoje conseguiu tirar tanta gente da miséria, não há na história humana outra meio que não o esforço pessoal para melhorar alguma coisa. e nisso o capitalismo é o melhor que conseguimos.

    lembrando que mesmo este, nunca irá tirar toda a população de suas condições miséraveis, simplesmente pelo fato que existem coisas como corrupção, ganância, preguiça e perdoe a palavra, sorte, que se apresenta na vida de todos nós.

    quando digo vitimismo é isso, esquecer que nossa condição é falha, por natureza, e que o melhor é tentar melhorar o que temos, e não abolir isso em nome de algum plano racional e iluminista. Os cadáveres do século xx sabem disso.


  8. Sinceramente, para amar os ônibus basta não depender deles todos os dias!

    Pedale por Sampa e você vai ver que busão é uma coisa legal. Mas os motoristas as vezes merecem xingamentos mesmo! ehhe

    abs



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