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O passado bate à sua porta

25 de outubro de 2008 - 9:54 am

Faz um par de semanas, o Walter me presenteou com uma pérola que só mesmo a internet é capaz de nos oferecer: o trailer original do De Volta para o Futuro (o primeiro da trilogia, de 1985). Acho que é o filme que mais vezes vi. Entre fitas de locadoras de bairro, gravações porcas em VHS que abrigavam até três longas, e infinitas sessões da tarde, telas quentes e cinemas especiais foram talvez umas 30 sessões de muita, mas muita diversão.

O crítico de cinema Luiz Carlos Merten sempre diz que um dos temas por excelência do cinema norte-americano é a “segunda chance”. Responda rápido: quantos filmes você lembra de ter visto com pais que resolvem voltar para suas casas depois de anos de sumiço, grandes executivos que vão da bancarrota ao novo sucesso, não sem antes passarem por um ritual de “re-humanização”, jogadores de qualquer esporte que deixam a fama subir à cabeça, perdem-se mas depois reencontram-se e voltam melhores ainda, jovens que acordam de pesadelos bem no finzinho do filme e resolvem mudar o rumo de suas vidas?

De Volta para o Futuro escancarava a temática da segunda chance colocando um jovem simples de uma cidade do interior viajando no tempo para corrigir os desvios de sua própria história. Mesmo quando desencadeava situações aparentemente incontornáveis, sempre havia uma forma de corrigi-las — bastava fazer uma nova viagem. Muito do charme da trilogia estava aí: nessa afirmação quase ingênua de que sempre há uma chance de reescrever nosso papel no teatro do mundo.

Hey, McFly!: Lea Thompson, Michael J. Fox e Christopher Lloyd vivendo as agruras das viagens no tempo

O eternamente jovem Michael J. Fox e o tresloucado Christopher Lloyd marcaram tanto o imaginário da minha adolescência, que eu não sei quantos donos e funcionários de locadoras eu torturei com a insistente pergunta: Tio, quando sai a continuação do De Volta para o Futuro? Sim, porque pra quem não se lembra, o filme terminava com o provocante letreiro: To be continued… Para um garoto de 9, 10 anos de idade que estava começando a descobrir as delícias do cinema, quatro anos de espera — o segundo longa chegou às telonas em 1989, e logo no ano seguinte a trilogia foi fechada — era mesmo uma eternidade.

O pior é que estávamos a galáxias de distância da internet e de toda essa avalanche de informações que qualquer um consegue reunir após alguns minutos de busca. Para saber o que viria por aí, esgueirava-me pelas prateleiras das raras livrarias que trabalhavam com revistas importadas e folheava, cheio de receio das reprovações dos donos, publicações sobre cinema, sobretudo as de ficção científica, fantasia e horror.

Engraçado lembrar de tudo isso agora. Engraçado como um simples trailer põe em funcionamento todo esse intrincado e fascinante mecanismo da memória. E como toda boa lembrança fica ainda melhor quando compartilhada, segue abaixo o trailer achado pelo Walter. Boa viagem!

Escrito por Ronoc ¦

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2 comentários

  1. Às “gravações porcas em VHS que abrigavam até três longas” eu chamaria “registros caseiros em velocidade LP”, subdivididos em duas categorias: com comerciais; só com o plim-pl… …m-plim.

    À “segunda chance” assemelha-se uma parte do mito dos heróis, segundo o qual herói é aquele que, tragado a um vórtice de infortúnios e reveses, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

    À categoria referenciada somam-se os filmes e episódios (de seriados) que tratam do que poderíamos chamar de “segundas chances até a redenção”. O representante mais célebre é o filme “Groundhog Day” (“Feitiço do Tempo”, in terra brasilis), em que o protagonista (interpretado por Bill Murray) revive o mesmo dia vezes a fio, até que consiga levantar às 6h, sacodir a poeira do Dia da Marmota e dar a volta por cima na própria vida.

    Há outros exemplos, incluindo episódios de “Star Trek: The Next Generation” (“Jornada nas Estrelas, a Nova Geração”) e “The Dead Zone” (“O Vidente”), além do próprio seriado “Tru Calling”. Mas isso já são quinhentos para um post que planejo há dúzias de meses.


  2. Aproveitando o ensejo, eis o curta “Outra Chance”, de temática afim, protagonizado por Ricardo Oshiro:



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