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As surpresas das urnas. Surpresas?

8 de outubro de 2008 - 8:20 pm
toma, que a Câmara é sua!

Netinho, ex-Negritude Júnior, agora vereador: toma, que a Câmara é sua!

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista e professor da FAU-USP, talvez uma das pessoas desta metrópole com idéias mais claras, interessantes e pertinentes sobre os problemas de São Paulo e os caminhos para os solucionar, não conseguiu reunir número suficiente de votos para garantir sua permanência na Câmara de Vereadores. Obteve a preferência de 24.055 paulistanos (dos quais me orgulho de ter sido um), o que o deixou apenas na 56ª posição no pleito deste 05 de outubro.

Em compensação, a Câmara ganhou nomes de peso, como Netinho de Paula (“Beijo geladinho”) e Marcelo Aguiar (“Não dá pra fazer amor sem ter você”), sem falar de uma extensa lista de homens e mulheres de passado político questionável. Pra completar, por pouco eles não tiveram a oportunidade de desfrutar da companhia de Dinei (“Corinthiano vota em corinthiano. Awú!” — eu não votei!) e Sérgio Mallandro (“Glu-glu!”). E olha que foi realmente por muito pouco. Aqui não vai qualquer juízo de valor sobre as pessoas citadas — guardo simplesmente o direito e o dever de observar que não se encontram preparadas para exercer o cargo que conquistaram ou quase conquistaram. (Por sugestão de meu grande amigo Walter, a relação da “Câmara do Terror”, elaborada pelo também amigo André, codinome Marmota, que por sua vez sugere a relação de Carol, do Nossa, Canossa!.)

Neste ponto, alguns simplesmente desabafariam: gastar saliva pra quê?! Falar em conscientização política no Brasil ou em São Paulo — que é, teoricamente, a cidade mais “avançada” do país —, é quase uma piada de mau gosto. Sérgio Buarque de Hollanda que me valha! Não vou começar a desfiar (não aqui, não agora) o rosário das causas de nossa infantilidade em assuntos públicos. Basta dizer que ainda somos fracos, muito fracos na hora de escolher nossos representantes e a cada eleição podemos coletar inúmeras provas disso.

Quem estiver me interpretando mal, se sacuda na cadeira. Não, não estou falando de um pretenso “povo ignorante”, de uma massa de manobra ingênua que se encaminha bovinamente em direção às urnas. Não vou cair na ladainha fácil de que o “povo sem cultura não sabe escolher direito”. É óbvio que se faz de tudo para conduzir as massas — e isso não é exclusividade brasileira, nem de países subdesenvolvidos, ou como os quiserem chamar. Não há dúvida de que a educação precária prepara mal as pessoas para entender o que se passa à sua volta, que dirá para escolher entre propostas e programas políticos! Porém, os dados mostram que o “voto ruim” não respeita as fronteiras de classe social, escolaridade, faixa etária etc. E é por isso que, por incrível que pareça, não creio que o pior de todo esse quadro sejam os netinhos, os dineis ou sérgios mallandros que se sucedem nos cargos públicos país afora. Pra mim, o que mais causa aflição é o egoísmo atroz que quase sempre transborda das urnas brasileiras.

O grande desafio da Política hoje (e talvez tenha sido sempre) é precisamente levar as pessoas, sobretudo aquelas mais aquinhoadas, a abrirem mão de seus pontos-de-vista, por alguns instantes que seja, e adotar o ponto-de-vista do outro. Ainda mais quando “o outro” em questão tem pouco ou nenhum acesso a educação, saúde, habitação e transporte de qualidade. É difícil: vivemos em um país que quase sempre disputa a coroa da pior distribuição de renda do planeta. Ouvem-se discursos bem intencionados a torto e a direito. Mas na hora de realmente tocar nas causas profundas de nossas mazelas, as posições tornam-se claras. Salvo raríssimas exceções (e elas existem de fato, é bom frisar), quem tem muito quer ter mais e não abre mão de naco algum em prol de quem quer que seja.

É triste ver pessoas que nunca puseram as solas de seus caros sapatos nas ruas (quando elas existem) da periferia de São Paulo, que não sabem com quantas viagens de ônibus lotado se faz um corpo cansado, que nunca sentiram o desespero e a humilhação de verem seus familiares morrendo em filas absurdas às portas dos hospitais públicos; é triste, repito, ver essas pessoas condenarem governos “assistencialistas”, que esbanjam dinheiro em obras equivocadas (leia-se qualquer obra que esteja longe dos roteiros das classes média ou alta paulistanas). Há quatro anos, justamente quando se disputava a prefeitura de São Paulo, rabisquei algumas linhas sobre isso. É triste, também, perceber o quanto minha rabugentice permanece atual, notar que nada mudou na mentalidade do “paulistano médio”. Posso estar tremendamente enganado, mas o resultado de 15 de novembro infelizmente deve me dar razão.

Escrito por Ronoc ¦

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5 comentários

  1. E eu, que já cheguei a criticar os que daqui se evadiam em busca de terras mais civilizadas, naqueles dias pensava em permanecer no Brasil para ajudar. Mas vejo no cotidiano de atitudes e posturas para mim tão triviais –parar para um pedestre ou usar o cinto no banco traseiro, entre outras– o egoismo e o egocentrismo de outrem.

    Lembra-me, porém, que algumas terras de degredo de outrora ora vicejam. São mostras de que o correr de gerações pode depurar a mais turva das águas. Ainda assim, confesso pouco me animar a ficar e algo fazer. Dia desses ainda recebo um chamado ultramarino e largo o fardo no chão.

    P.S.: O Marmota elencou[1] alguns dos notáveis da vez.
    [1] http://www.interney.net/blogs/marmota/


  2. e quando, mesmo tendo passado por várias das situações de perrengue que o sr. coloca, temos a convicção que o melhor estado é o menor estado? que o assistêncialismo estatal é a principal causa da perpetuação da miséria?

    p.s. gostei desse seu blog, diferentemente do sr., irei me aventurar com comentários por aqui, já que meu blog é veementemente ignorado pelo sr.


  3. p.s.2

    mesmo com essas figuras tentando se eleger, mesmo com todo a náusea que isso causa, é necessário que nós mantenhamos a “esperança” na Democrácia. Não acreditar nela é abrir espaço para totálitarismos e tiranias.

    É difícil, mas necessário, que tenhamos sempre em mente que a liberdade cobra um preço.


  4. E também o Inagaki arrolou uma lista:
    http://www.interney.net/blogs/inagaki/2008/10/10/eleicoes_bizarras_vereador_tse_candidato/


  5. Aproveitando o ensejo, eis o link pro supracitado post do Marmota:
    http://www.interney.net/blogs/marmota/2008/10/05/camara_do_terror/



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