Arquivo da categoria ‘Politicoterapia’

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Pitada de Sal #11

20 Outubro, 2009 - 8:07 pm

“Os marqueteiros transformam Peter Pan em seu flautista de Hamelin, fingindo libertar os jovens das restrições da disciplina adulta para lhes impor a disciplina do mercado de consumo. O flautista de Hamelin atraiu para longe as crianças da vila porque seus pais não lhe pagavam para livrá-los dos ratos. O flautista de Hamelin do mercado atrai as crianças porque seus pais são ‘guardiões’ que ficam no caminho da indução das crianças ao hall dos consumidores. Assim como o flautista da história fez, o mercado hoje em dia finge capacitar as crianças que seduz dizendo-lhes que elas ficarão potentes com a descapacitação de seus pais. Libertadas de pais possessivos, elas estão, na verdade, encarceradas nos corredores do shopping da mente juvenil.”

Benjamin R. Barber dissecando o mundo do hiperconsumo em seu Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos (Rio de Janeiro: Record, 2009, p.131; na tradução de Bruno Casotti).

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Político NÃO é tudo a mesma coisa

7 Julho, 2009 - 11:05 pm

Há políticos e Políticos. Gente que só quer se autopromover e colecionar vantagens, e pessoas que realmente querem modificar para melhor (e para todos, é preciso ser claro) a realidade que nos cerca. Não há dúvidas de a qual categoria a subprefeita da Lapa, Soninha Francine, pertence. (Para aqueles de fora de São Paulo, e que talvez não a conheçam tão bem, explicito: à segunda.)

Podem até dizer que Soninha tem lá seus defeitos (pessoalmente, só sei de um: ser palmeirense), mas acredito que a falta de coerência jamais será um deles. Fiquei surpreso — mas nem tanto — quando a vi chegar à Livraria Cultura da Pompéia portando sua Flexbike devidamente decorada com o adesivo “Um carro a menos”. Finalmente um político que pratica aquilo que prega! Por essas e por outras que não me arrependo de nenhum dos votos que dei a ela (e sei que não me arreperenderei dos que ainda vou dar, nas próximas eleições).

Por essas e por outras que, embora corinthiano, faço questão de divulgar aqui o lançamento do novo livro de Soninha, Meu pequeno palmeirense (Caxias do Sul, RS: Editora Belas Letras, 2009, 24p., com ilustrações de Baptistão), o mais recente título da série Meu Time do Coração.

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2009: dez anos do primeiro homem em Marte

28 Dezembro, 2008 - 2:56 pm

Imagine que após séculos de sonhos e décadas de ensaio, a humanidade finalmente consegue por os pés em Marte, descobre que o planeta não só possui construções de fabulosa arquitetura, mas também — segurem seus queixos — é habitado por figuras que lembram, em muitos aspectos, os terráqueos. Imagine que os astronautas enviados nessa venturosa missão inaugural buscam a primeira casa que avistam, dirigem-se à porta, batem nela, vêem-na abrir-se e, quase engasgados de emoção, dizem: “Olá! Viemos da Terra!” Do outro lado, uma dona de casa marciana recebe a notícia com o entusiasmo de quem aguenta a lenga-lenga de vendedores de bugigangas…

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Paisagem marciana, pelas lentes da sonda Mars Pathfinder.

Quando ainda não havia spirits vasculhando o solo marciano e de lá nos enviando cartões-postais improváveis, quando metade do Planeta Terra era, ele sim, vermelho, e os comunistas ocupavam o posto de vilões favoritos da “América”, um autor norte-americano utilizava toda sua potência criativa para descrever a epopéia humana rumo a Marte. Ray Bradbury (1920- ) — talvez mais conhecido por Fahrenheit 451, que foi levado ao cinema por François Truffaut — lançou como livro, em 1950, a reunião de 26 contos que vinham sendo publicados em diversas revistas de pulp fiction. Ao conjunto, deu o título As crônicas marcianas (São Paulo: Globo, 2005).

Aqueles que torcem o nariz para a literatura de ficção científica, rotulando-a como escapista, alienada e alienante, não fariam mal em aprender uma ou duas boas lições com Ray Bradbury (com Philip K. Dick e William Gibson, também, só para citar mais dois grandes escritores do gênero).

Na verdade, As crônicas marcianas tratam, antes de mais nada, dos encontros e desencontros da espécie humana consigo mesma. E só por essa razão, sua leitura será valiosa hoje e no futuro, como foi em sua época. Busca por liberdade, por significado e compreensão da existência, limites da tolerância, identidade versus alteridade, choques culturais, desenvolvimento sustentável — são alguns dos temas que, com maior ou menor intensidade, atravessam as narrativas de Bradbury, conferindo-lhes profundidade e possibilidades de interpretação variadas.

Alguns contos, como Flutuando no espaço (pp. 159-179) e Usher II (pp. 182-203), escancaram o tom político, avançando sem pudores sobre questões chave dos EUA da época, como os direitos civis da população negra e o flerte com a censura trazido pela paranóia macartista.

“Os antigos nomes marcianos eram nomes de água, ar e de colinas. Eram nomes de neves que caíam no sul em canais de pedra para preencher os mares vazios. E nomes de feiticeiras enterradas, de torres e de obeliscos. E os foguetes esmagavam todos os nomes como marretas, transformando o mármore em argila, despedaçando os marcos de barro que davam nome às antigas cidades, e nesses escombros enfiavam-se postes suntuosos com novos nomes: CIDADE DO FERRO, CIDADE DO AÇO, CIDADE DO ALUMÍNIO…” (pp. 180-181) Estava Bradbury falando de foguetes humanos invadindo Marte, ou de caravelas singrando os mares rumo ao Novo Mundo? De astronautas, ou de garimpeiros em busca de um Oeste “selvagem”? São analogias óbvias, que o próprio autor se encarrega de alimentar ou explicitar aqui e ali nos contos. Mas deve-se destacar que essas aproximações, apesar dos 50 anos de idade, ainda obrigam a pensar, seguem provocando incômodo.

Em 2009, comemoram-se os 10 anos da primeira pegada humana deixada em solo marciano — ao menos se acreditarmos nos relatos de Bradbury… Prepare-se para as comemorações (re)descobrindo este clássico da ficção científica.

Escrito por Ronoc e também publicado no Blog da Cultura ¦

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As inesgotáveis (e não aprendidas) lições de 29

13 Novembro, 2008 - 9:50 pm

Sem muita elaboração ou rodeios (como preferirem chamar), que a dor de cabeça e o cansaço realmente não me permitem mais do que algumas linhas por hoje. No dia em que se noticia que as demissões na Europa atingem a casa das 10 mil por dia, um texto curto e de grosso calibre atinge o alvo com a precisão de um atirador de elite: o problema é a ganância desenfreada. Cerca de 20 anos após a crise de 1929, aponta o texto, um ex-presidente do FED, o banco central dos EUA, atestava: “Se a riqueza nacional tivesse sido melhor repartida, isto é, se as empresas se tivessem contentado com lucros menos elevados, se as classes mais ricas tivessem auferido rendimentos mais baixos e os agregados familiares mais modestos remunerações mais elevadas, a estabilidade da nossa economia teria sido maior.” Parece simplório, parece óbvio. Mas, como duramente estamos testemunhando, a obviedade teima em passar a quilômetros de distância de nós — na verdade, ela pode nos fazer cócegas no nariz que sequer a notaremos. Aliás, chega a ser tragicamente fascinante como a humanidade insiste em não aprender com os próprios erros…

Meu amigo Dionisius adora me lembrar que o capitalismo é o sistema que mais riqueza gerou na história da humanidade, que mais gente retirou da pobreza. Ok, de acordo. Mas até Marx afirmava isso. O problema é que o capitalismo, como qualquer construção humana, precisa de humanos para funcionar. Senão, desmorona e, com o tempo, vira ruína. Como dizem por aí: nunca confunda liberdade com libertinagem. Será que dessa vez vamos aprender isso?

Escrito por Ronoc ¦

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Lógica para paulistanos #2

29 Outubro, 2008 - 8:36 pm

Um espetáculo deplorável; em cartaz próximo, muito próximo a você.

Palco: um espaço de cerca de 40m2 cheio de ferros, pseudo-assentos e apinhado de pessoas acotoveladas que desafiam, em vários sentidos, todas as leis da física. Alguns, equivocadamente, chamariam de “ônibus”.

Personagens: duas jovens desequilibradas (e não porque estivessem a ponto de cair; na verdade, ao contrário de quase todos no recinto, estavam muito bem sentadas), um motorista em apuros, a multidão pasmada.

Situação: ônibus lotado parado ou se arrastando à velocidade da lesma há cerca de 15 minutos numa fila interminável, num dos corredores de ônibus (que foram criados para dar fluidez ao transporte público!) magnificamente mal administrados pela atual gestão municipal de São Paulo. Detalhe importante: a cena se repete, sisificamente, todos os dias e noites.

Diálogos:

jovem 1 (voz esganiçada, vencendo o murmúrio geral): Ô, motorista, seu filho da puta, anda logo com essa merda, seu retardado!!

jovem 2 (alguns decibéis acima da primeira): É, seu desgraçado, não sabe dirigir, não, ô?!

jovem 1: É um viado mesmo, um corno! Coloca uma mula pra dirigir que é melhor!

jovem 2: Filho da puta do caralho, anda logo, cacete! Vamo logo, porra!

motorista (já não aguentando mais): Vem dirigir aqui, então! Vem cá, senta aqui!

jovem 1: Cala a sua boca, seu filho da puta! Eu que pago o teu sálario, anda logo antes que eu vá aí encher a tua cara de porrada!

motorista (em tom de deboche): Ô Maria, vem aqui, vem!

jovem 2: É, não tem macho aqui nesse ônibus, é nóis mesmo!

jovem 1: É, não tem macho aqui não! Mas eu não tenho medo de macho, não! Ô, motorista, ô seu idiota, vamo logo, caralho!! Eu paguei essa merda, eu quero andar!

Na verdade, o diálogo se estende por uns bons 15, 20 minutos, mas é tamanha sua riqueza, cheio de nuances e figuras de linguagem raríssimas, que minhas limitações vernaculares me recomendam parar por aqui.

Moral (ou falta dela?): A indignação, a virulência da revolta legítima se esgota num enfrentamento de iguais, que a-pa-ren-te-men-te não são vilões, mas vítimas dessa história. As atitudes equivodas, deslocadas, sem foco, ingênuas, e ridículas até, geram não mobilização, mas mais desgaste, confusão e, gran finale, conformismo.

- Ω -

Antes que me acusem de ser monotemático e de ter uma imaginação que deveria estar trancafiada em alguma masmorra, explicações! Nos últimos tempos, tenho passado cerca de 20% de minhas horas acordadas atuando como dublê de sardinha em lata. É compreensível que o tema da “imobilidade urbana” em São Paulo me domine. É compreensível que me queixe, e que queira deixar minha indignação aqui marcada. Me dêem (não, este blog ainda não está de acordo com as novas normas ortográficas) um desconto! Ah, e só para constar: a cena é real.

- Ω -

E pra não dizer que eu ando um chato incorrigível, fica uma dica excêntrica: experimentem alimentar seus Googles com os termos “busólogo” ou “busologia”. Sim, há pessoas capazes de amar os ônibus. E, mistério: em alguns momentos, eu sou uma delas — como dizem, contexto é tudo!

Escrito por Ronoc ¦

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Lógica para paulistanos #1

27 Outubro, 2008 - 6:54 pm

Cidade de São Paulo: a difícil arte de unir dois pontos

premissa 1: Recente pesquisa indicou que, para realizar seus deslocamentos diários, o paulistano depende mais (55%) do transporte público, cuja qualidade — sobretudo a dos ônibus, de responsabilidade majoritária da Prefeitura — tem decaído a olhos vistos nos últimos anos. (Quem anda de ônibus sabe do que estou falando: gado é mais bem tratado do que as pessoas nesta metrópole. E, sinto dizer, isto não é exagero.)

premissa 2: As eleições — como as que foram concluídas neste 26 de outubro — constituem um dos raros momentos em que o cidadão pode, de fato, alterar o andamento das coisas, deixando claro, por exemplo, que está insatisfeito com o rumo (ou a falta dele) que os investimentos em transporte público têm tomado na cidade.

conclusão 1: A grande maioria da população de São Paulo (mais precisamente, 60,72% dela) diz nas urnas que concorda com tudo que está aí, obrigada e até a próxima!

conclusão 2: Logo na manhã seguinte, em alguns (e eu arriscaria dizer “em todos”, mas só posso dar o testemunho daqueles pelos quais passei) dos milhares de ônibus lotados que se arrastam pelas ruas da capital, ouve-se o já conhecido muxoxo contra a situação humilhante a que somos submetidos dia após dia, blá, blá, blá… (E não me venham dizer que os que reclamam votaram em peso na candidata da oposição, que essa não cola. Basta sair perguntando por aí para constatar…)

- Ω -

Se o resultado das eleições só me fez mergulhar na melancolia, se a ausência de reação por parte de meus concidadãos me deixa cada vez mais amuado, pelo menos posso festejar mais um achado digno de figurar no rol de favoritos: Pra lá e pra cá é o blog de Thiago Guimarães, um paulistano que faz mestrado na Alemanha sobre Planejamento e Desenvolvimento Urbano. Realmente animador conferir o que ele tem postado por lá: reflexões sobre alternativas de transporte urbano, relatos de experiências bem-sucedidas de outras cidades, pesquisas e matérias que abordam os caminhos e descaminhos da vida urbana ao redor do mundo. Em seu último post, Thiago nos presenteia com uma entrevista com Soninha, ex-candidata à Prefeitura de São Paulo.

Escrito por Ronoc ¦

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Antes que a história se apague

11 Outubro, 2008 - 9:05 pm

Antes que ele seja inapelavelmente varrido para debaixo do tapete da História, vale o registro de um desabafo pintado nos tapumes do que outrora foi um posto de combustíveis em uma das maiores avenidas de São Paulo, a Rebouças. Visivelmente rabiscada às pressas, provavelmente na não tão calada noite da metrópole, a tinta negra dispara: “Eleições ilegítimas. Quem tem fome não sabe votar! Odeio!”.

Não concordo totalmente com seu(s) autor(es). Como disse no post anterior, para mim está mais do que provado que voto irresponsável não é exclusividade de quem tem pouco estudo e parco acesso a informação e bens culturais — ou, no extremo, passa fome. Pelo contrário, não raro nos surpreendemos com os posicionamentos políticos das pessoas.

Descontando o provavelmente involuntário tom patético do “Odeio!”, não deixa de ser reanimador ver, assim escancarada aos olhos de todos, uma manifestação política nesta cidade “tão limpa”, tão esterilizada, que raramente discute seus problemas, que raramente se mobiliza. Seria bom ver mais gente debatendo, nos ônibus, nas ruas, durante o almoço ou o cafezinho, temas que não os placares da rodada, os rumos das novelas, as casas e festas das celebridades.

A propósito, outro dia, assistimos intrigados, minha esposa, minha cunhada, eu e meus sogros, a uma bela reunião de jovens — bem jovens mesmo e em expressivo número — sob o vão livre do MASP. Vociferavam palavras de ordem, agitavam bandeiras e cartazes; em seus rostos se via energia, se via indignação. Ficamos curiosos: contra o que mesmo se levantavam? O descaso com os serviços públicos, a morosidade da justiça? Apurando o olhar, depois de um tempo, descobrimos: protestavam contra a dissolução do grupo teen RBD…

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Mundano e sua batalha contra a hipocrisia do cinza

Mundano e sua batalha contra a hipocrisia do cinza

Ainda sobre a mensagem indignada, desconfio que seja de autoria de um artista paulistano que se auto-intitula Mundano. Você já deve ter se deparado com alguns de seus graffitis espalhados pelos muros de São Paulo. Sempre com frases provocativas, como “Você é um escravo do trânsito” ou “Apaguem a corrupção, e não a arte do povo”, Mundano trava uma verdadeira batalha contra o que ele denominou “cinza kassabiano” e diz que, cansado dos “hipócritas que só vão às exposições atrás de bebida e comida de graça”, procura levar suas manifestações para onde “as pessoas reais” estão: as ruas.

Escrito por Ronoc ¦

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As surpresas das urnas. Surpresas?

8 Outubro, 2008 - 8:20 pm
toma, que a Câmara é sua!

Netinho, ex-Negritude Júnior, agora vereador: toma, que a Câmara é sua!

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista e professor da FAU-USP, talvez uma das pessoas desta metrópole com idéias mais claras, interessantes e pertinentes sobre os problemas de São Paulo e os caminhos para os solucionar, não conseguiu reunir número suficiente de votos para garantir sua permanência na Câmara de Vereadores. Obteve a preferência de 24.055 paulistanos (dos quais me orgulho de ter sido um), o que o deixou apenas na 56ª posição no pleito deste 05 de outubro.

Em compensação, a Câmara ganhou nomes de peso, como Netinho de Paula (“Beijo geladinho”) e Marcelo Aguiar (“Não dá pra fazer amor sem ter você”), sem falar de uma extensa lista de homens e mulheres de passado político questionável. Pra completar, por pouco eles não tiveram a oportunidade de desfrutar da companhia de Dinei (“Corinthiano vota em corinthiano. Awú!” — eu não votei!) e Sérgio Mallandro (“Glu-glu!”). E olha que foi realmente por muito pouco. Aqui não vai qualquer juízo de valor sobre as pessoas citadas — guardo simplesmente o direito e o dever de observar que não se encontram preparadas para exercer o cargo que conquistaram ou quase conquistaram. (Por sugestão de meu grande amigo Walter, a relação da “Câmara do Terror”, elaborada pelo também amigo André, codinome Marmota, que por sua vez sugere a relação de Carol, do Nossa, Canossa!.)

Neste ponto, alguns simplesmente desabafariam: gastar saliva pra quê?! Falar em conscientização política no Brasil ou em São Paulo — que é, teoricamente, a cidade mais “avançada” do país —, é quase uma piada de mau gosto. Sérgio Buarque de Hollanda que me valha! Não vou começar a desfiar (não aqui, não agora) o rosário das causas de nossa infantilidade em assuntos públicos. Basta dizer que ainda somos fracos, muito fracos na hora de escolher nossos representantes e a cada eleição podemos coletar inúmeras provas disso.

Quem estiver me interpretando mal, se sacuda na cadeira. Não, não estou falando de um pretenso “povo ignorante”, de uma massa de manobra ingênua que se encaminha bovinamente em direção às urnas. Não vou cair na ladainha fácil de que o “povo sem cultura não sabe escolher direito”. É óbvio que se faz de tudo para conduzir as massas — e isso não é exclusividade brasileira, nem de países subdesenvolvidos, ou como os quiserem chamar. Não há dúvida de que a educação precária prepara mal as pessoas para entender o que se passa à sua volta, que dirá para escolher entre propostas e programas políticos! Porém, os dados mostram que o “voto ruim” não respeita as fronteiras de classe social, escolaridade, faixa etária etc. E é por isso que, por incrível que pareça, não creio que o pior de todo esse quadro sejam os netinhos, os dineis ou sérgios mallandros que se sucedem nos cargos públicos país afora. Pra mim, o que mais causa aflição é o egoísmo atroz que quase sempre transborda das urnas brasileiras.

O grande desafio da Política hoje (e talvez tenha sido sempre) é precisamente levar as pessoas, sobretudo aquelas mais aquinhoadas, a abrirem mão de seus pontos-de-vista, por alguns instantes que seja, e adotar o ponto-de-vista do outro. Ainda mais quando “o outro” em questão tem pouco ou nenhum acesso a educação, saúde, habitação e transporte de qualidade. É difícil: vivemos em um país que quase sempre disputa a coroa da pior distribuição de renda do planeta. Ouvem-se discursos bem intencionados a torto e a direito. Mas na hora de realmente tocar nas causas profundas de nossas mazelas, as posições tornam-se claras. Salvo raríssimas exceções (e elas existem de fato, é bom frisar), quem tem muito quer ter mais e não abre mão de naco algum em prol de quem quer que seja.

É triste ver pessoas que nunca puseram as solas de seus caros sapatos nas ruas (quando elas existem) da periferia de São Paulo, que não sabem com quantas viagens de ônibus lotado se faz um corpo cansado, que nunca sentiram o desespero e a humilhação de verem seus familiares morrendo em filas absurdas às portas dos hospitais públicos; é triste, repito, ver essas pessoas condenarem governos “assistencialistas”, que esbanjam dinheiro em obras equivocadas (leia-se qualquer obra que esteja longe dos roteiros das classes média ou alta paulistanas). Há quatro anos, justamente quando se disputava a prefeitura de São Paulo, rabisquei algumas linhas sobre isso. É triste, também, perceber o quanto minha rabugentice permanece atual, notar que nada mudou na mentalidade do “paulistano médio”. Posso estar tremendamente enganado, mas o resultado de 15 de novembro infelizmente deve me dar razão.

Escrito por Ronoc ¦

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Che reloaded

2 Outubro, 2008 - 9:37 pm

Lendo neste exato momento: “Ernesto Guevara, também conhecido como Che”, de Paco Ignacio Taibo II (Expressão Popular, 2008, 768 pags.). Dúvida por enquanto: entre o Che de Jorge Castañeda e o de Jon Lee Anderson, que espaço ocupa esta biografia, publicada originalmente no Brasil em 1997, pela Editora Escritta, e agora em oportuna segunda edição?

Em breve, falo mais sobre o livro aqui no blog.

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São Paulo a duas rodas

28 Setembro, 2008 - 6:34 pm

Bicicletas e São Paulo: algo a ver?

Os mais céticos dirão que não passa de mais uma jogada política às vésperas de eleição. E eu quase me junto ao grupo. As inaugurações do aguardado Caminho Verde, na Zona Leste de São Paulo, e de novos bicicletários ao longo da linha vermelha do metrô soam mesmo às famigeradas manobras caça-voto, estrategicamente programadas para ocorrer, digamos assim, em momentos bem propícios às carreiras políticas dos espertalhões de plantão.

De qualquer forma, o fato de estarmos falando de ciclovias e de empréstimo de bicicletas em estações de metrô, e não de pontes, túneis ou viadutos que só fazem cócegas no enlouquecido trânsito paulistano, já é um começo. (Mas, para cada passo num sentido correto que damos… Que dizer da recente inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira, no Morumbi? Tirando a Rede Globo, que ganhou um vistoso pano de fundo para seus telejornais, e as agências de publicidade, que colocam a ponte em 7 entre 10 comerciais, não vejo muitos beneficiados por esse monstruoso monumento ao faraonismo urbano.)

É claro que a falta de planejamento e sobretudo de coerência por parte dos principais pretendentes à Prefeitura de São Paulo (a grande exceção, justiça seja feita, é a Soninha, que há tempos milita pela causa dos ciclistas) não nos permite sonhar muito. A verdade é que mesmo com todas as novidades apresentadas nos últimos dias, São Paulo ainda tem uma malha cicloviária menor do que Sorocaba, só para ficar com um exemplo próximo.

É claro, também, que seria padecer de pollyannismo agudo esperar que o uso de bicicletas resolva o problema do transporte na cidade — este é exatamente o ponto que um post antigo do Transporte Ativo aborda. Aliás, fica a dica: o TA é um dos bons lugares na rede que refletem sobre o uso das bikes como alternativa (séria!) de deslocamento urbano.

O negócio é torcer (e pressionar) para que os espasmos de boas práticas se transformem em políticas duradouras e bem estruturadas, verdadeiramente voltadas à construção de uma matriz de transportes variada e eficiente, capaz de desfazer o nó que nos afoga dia e noite em São Paulo. Um bom início é pensar muito bem antes de apertar os botões neste 05 de outubro…

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Sim, isto é uma bicicleta!

Sim, isto é uma bicicleta!

Pode ser apenas mais uma dessas grandes coincidências que nos assolam vez por outra, mas nas últimas duas semanas vi pelo menos três pessoas na região da Paulista desfilando bicicletas que ainda não conhecia, mas que depois descobri se tratar da Flexbike. Vocês podem até me perguntar em que planeta andei vivendo, mas realmente não conhecia essa bicicleta dobrável que, dentro de uma sacola própria, pode ser facilmente transportada no metrô, no ônibus e que ocupa quase nada do cada vez mais escasso espaço dos cada vez menores lares paulistanos.

O conceito parece ótimo. Só resta saber — como muito bem perguntou minha esposa — se o paulistano também vai ser flexível a ponto de não dirigir um olhar fuzilante àqueles “flexbikers” que ousarem reservar um pouquinho mais de espaço vital nos apinhados vagões do metrô ou nos impossíveis ônibus para suas magrelas dobráveis…

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Outro blog muito legal sobre a difusão da bicicleta como meio de transporte urbano, desta vez em São Bernardo do Campo, é o Pedal-Driven. Aliás, por causa dele, acabei descobrindo o Apocalipse Motorizado, muito bom também.

Escrito por Ronoc ¦