
Um espetáculo deplorável; em cartaz próximo, muito próximo a você.
Palco: um espaço de cerca de 40m2 cheio de ferros, pseudo-assentos e apinhado de pessoas acotoveladas que desafiam, em vários sentidos, todas as leis da física. Alguns, equivocadamente, chamariam de “ônibus”.
Personagens: duas jovens desequilibradas (e não porque estivessem a ponto de cair; na verdade, ao contrário de quase todos no recinto, estavam muito bem sentadas), um motorista em apuros, a multidão pasmada.
Situação: ônibus lotado parado ou se arrastando à velocidade da lesma há cerca de 15 minutos numa fila interminável, num dos corredores de ônibus (que foram criados para dar fluidez ao transporte público!) magnificamente mal administrados pela atual gestão municipal de São Paulo. Detalhe importante: a cena se repete, sisificamente, todos os dias e noites.
Diálogos:
jovem 1 (voz esganiçada, vencendo o murmúrio geral): Ô, motorista, seu filho da puta, anda logo com essa merda, seu retardado!!
jovem 2 (alguns decibéis acima da primeira): É, seu desgraçado, não sabe dirigir, não, ô?!
jovem 1: É um viado mesmo, um corno! Coloca uma mula pra dirigir que é melhor!
jovem 2: Filho da puta do caralho, anda logo, cacete! Vamo logo, porra!
motorista (já não aguentando mais): Vem dirigir aqui, então! Vem cá, senta aqui!
jovem 1: Cala a sua boca, seu filho da puta! Eu que pago o teu sálario, anda logo antes que eu vá aí encher a tua cara de porrada!
motorista (em tom de deboche): Ô Maria, vem aqui, vem!
jovem 2: É, não tem macho aqui nesse ônibus, é nóis mesmo!
jovem 1: É, não tem macho aqui não! Mas eu não tenho medo de macho, não! Ô, motorista, ô seu idiota, vamo logo, caralho!! Eu paguei essa merda, eu quero andar!
Na verdade, o diálogo se estende por uns bons 15, 20 minutos, mas é tamanha sua riqueza, cheio de nuances e figuras de linguagem raríssimas, que minhas limitações vernaculares me recomendam parar por aqui.
Moral (ou falta dela?): A indignação, a virulência da revolta legítima se esgota num enfrentamento de iguais, que a-pa-ren-te-men-te não são vilões, mas vítimas dessa história. As atitudes equivodas, deslocadas, sem foco, ingênuas, e ridículas até, geram não mobilização, mas mais desgaste, confusão e, gran finale, conformismo.
- Ω -
Antes que me acusem de ser monotemático e de ter uma imaginação que deveria estar trancafiada em alguma masmorra, explicações! Nos últimos tempos, tenho passado cerca de 20% de minhas horas acordadas atuando como dublê de sardinha em lata. É compreensível que o tema da “imobilidade urbana” em São Paulo me domine. É compreensível que me queixe, e que queira deixar minha indignação aqui marcada. Me dêem (não, este blog ainda não está de acordo com as novas normas ortográficas) um desconto! Ah, e só para constar: a cena é real.
- Ω -
E pra não dizer que eu ando um chato incorrigível, fica uma dica excêntrica: experimentem alimentar seus Googles com os termos “busólogo” ou “busologia”. Sim, há pessoas capazes de amar os ônibus. E, mistério: em alguns momentos, eu sou uma delas — como dizem, contexto é tudo!
Escrito por Ronoc ¦