Arquivo da categoria ‘Pitada de sal’
20 Outubro, 2009 - 8:07 pm
“Os marqueteiros transformam Peter Pan em seu flautista de Hamelin, fingindo libertar os jovens das restrições da disciplina adulta para lhes impor a disciplina do mercado de consumo. O flautista de Hamelin atraiu para longe as crianças da vila porque seus pais não lhe pagavam para livrá-los dos ratos. O flautista de Hamelin do mercado atrai as crianças porque seus pais são ‘guardiões’ que ficam no caminho da indução das crianças ao hall dos consumidores. Assim como o flautista da história fez, o mercado hoje em dia finge capacitar as crianças que seduz dizendo-lhes que elas ficarão potentes com a descapacitação de seus pais. Libertadas de pais possessivos, elas estão, na verdade, encarceradas nos corredores do shopping da mente juvenil.”
Benjamin R. Barber dissecando o mundo do hiperconsumo em seu Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos (Rio de Janeiro: Record, 2009, p.131; na tradução de Bruno Casotti).
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7 Agosto, 2009 - 6:47 am
“Ele foi até a sala de estar balançando a garrafa como uma sineta e ligou a televisão. Ficou levemente solto no tempo, viu o filme da sessão coruja de trás para frente e depois normalmente. Era um filme sobre bombardeiros americanos na Segunda Guerra Mundial e os homens corajosos que os pilotavam. Vista de trás para frente por Billy, a história era assim:
Aviões americanos, cheios de buracos e homens feridos e cadáveres decolavam de costas de um campo de pouso na Inglaterra. Sobre a França, alguns caças alemães voaram na direção deles ao contrário e sugaram balas e fragmentos de bombas dos aviões e dos tripulantes. Fizeram o mesmo com bombardeiros americanos no solo, que decolaram de costas para se unirem à formação.
A formação voava de costas sobre uma cidade alemã em chamas. Os bombardeiros abriram os alçapões das bombas, empregaram um magnetismo milagroso que diminuiu as chamas, reunindo-as em recipientes cilíndricos de aço e atraiu os recipientes para os bojos das aeronaves. Os recipientes foram perfeitamente armazenados em prateleiras. Os alemães lá embaixo tinham seus próprios equipamentos milagrosos: longos tubos de aço que eram utilizados para sugar mais fragmentos dos tripulantes e aviões. Mas ainda havia alguns americanos feridos, e alguns dos bombardeiros estavam em más condições. Sobre a França, porém, os caças alemães reapareceram, tornando tudo e todos inteiros como novos.
Quando os bombardeiros voltaram à base, os cilindros foram tirados de suas prateleiras e despachados de volta para os Estados Unidos da América, onde as fábricas estavam funcionando noite e dia, desmontando os cilindros e separando o conteúdo perigoso em minerais. Um ponto tocante era o fato de que o trabalho era realizado principalmente por mulheres. Os minerais foram então enviados para especialistas em regiões remotas. A função deles era armazená-los no chão e escondê-los com cuidado, para que nunca mais voltassem a ferir alguém.
Os pilotos americanos devolveram seus uniformes e se tornaram garotos do secundário. E Hitler se transformou num bebê, supôs Billy Pilgrim. Isso não estava no filme. Billy estava extrapolando. Todo mundo virou bebê, e toda a humanidade, sem exceção, conspirou biologicamente para produzir duas pessoas perfeitas chamadas Adão e Eva, supôs também.”
Trecho de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut (Porto Alegre: L&PM, 2005, pp.81-83; na tradução de Cássia Zanon).
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21 Maio, 2009 - 11:57 am
“Por que não estou escrevendo este livro mais depressa? Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’? Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo — NÃO escrever. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais? As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”
Gay Talese refletindo com seus elegantes botões e alfinetando alguns de seus pares em Vida de escritor (São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.403; tradução de Donaldson M. Garschagen)
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14 Maio, 2009 - 8:54 am
“Penso muito no futuro dos livros. Podem continuar a competir com as formas rápidas, baratas, fáceis, que não exigem leitura nem pensamento? Devo dizer que sim, ou que alguns deles estão tentando. Muitos livros hoje são escritos tendo o cinema em mente. Dizem que alguns editores não publicarão um livro se não houver a possibilidade de vendê-lo para o cinema. E até o escritor em muitos casos se envolve, meio escritor e meio vendedor. Tem de ficar numa livraria rotulando seu produto com seu nome. Tem de ir a programas de televisão e tornar-se um macaco treinado. Deve sujeitar sua vida privada, sua vida sexual e seus músculos, até mesmo seu cabelo, ao olhar boçal de seus possíveis leitores. Dizem que está abandonando o livro caso não faça essas coisas. Estará sendo anti-social caso não permita que as revistas populares registrem seu café da manhã e sua esposa ou esposas em papel lustroso.
Não acredito que um livro possa competir com seus rivais nos termos deles. Por outro lado, eles não podem competir com o livro nos termos deste. Nenhum outro meio, exceto a música, pode como ele ‘atrair a mente e as emoções’. Não se pode conceber um filme como pessoal, como um livro amado é pessoal. Nenhum programa de televisão é amigo como um livro é amigo. E nenhum outra forma, exceto outra vez a música, convida à participação do receptor como um livro faz.”
John Steinbeck em texto da década de 1950 e que faz parte de A América e os americanos (Rio de Janeiro: Record, 2004, p.209; tradução de Maria Beatriz de Medina).
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29 Abril, 2009 - 5:42 am
“Em 1939, Jorge Luis Borges, famoso escritor argentino quase cego com genial pendor para uma fantasia literária obscura, escreveu um curto ensaio chamado ‘A Biblioteca de Babel’, prevendo os horrores da biblioteca infinita, sem centro, sem lógica [...] um caos de informação, ‘composta de um número indefinido e talvez infinito de galerias hexagonais’.
‘A Biblioteca de Babel’ de Borges é a internet de hoje — anônima, incorreta, caótica e esmagadora. É um lugar onde não há realidade concreta, não há certo e errado, nenhum código moral vigente. É um lugar onde a verdade é seletiva e está constantemente sujeita a mudança. A experiência de surfar na internet é análoga à de perambular pelas galerias hexagonais da biblioteca de Babel de Borges. A verdade é elusiva, sempre a um clique ou a um site de distância.”
O polêmico Andrew Keen em trecho de seu ainda mais polêmico e provocativo O culto do amador (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p.82). Para mais trechos do livro, visitem o blog do Jaime Mendes — aliás, excelente — Livros, livrarias e livreiros.
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22 Março, 2009 - 8:37 am
“A linguagem, precisamente por sua ambigüidade errática, tenta convencer os usuários de sua própria precisão e peso, declarando-se seu caráter absoluto, seu caráter de sistema capaz de congelar o mundo num modo fixo de ser. [...] Mas é claro que, apesar dessa visão corrente, cada uso singular da linguagem prova o contrário: que a linguagem se apossa da realidade não petrificando-a, mas reconstruindo-a por via imaginativa, por alusão, inferência e sugestão [...], tornando-a móvel e, em última instância, fugidia: tornando-a ‘transparente’. Assim, a linguagem não pode nunca servir aos ditames do poder, seja ele político, religioso ou comercial, a não ser sob a forma de um catecismo fixo de perguntas e respostas; por mais que queira, a linguagem é incapaz de fixar o que quer que seja. Nosso olhar ‘atravessa’ a realidade que a linguagem expõe, camada por camada, à maneira de um palimpsesto, de tal modo que, afinal, nossa leitura das histórias torna-se infinita, cada história aludindo a ou sugerindo outra mais abaixo, sem que nenhuma possa se afirmar como verdade última.”
Passagem de A cidade das palavras, de Alberto Manguel (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp.32-33), na tradução de Samuel Titan Jr.
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1 Janeiro, 2009 - 7:49 am

“O que acontecia, na verdade, era o que acontece em todas as revoluções, ou seja, que entre os dirigentes um pequeno grupo, que sempre acaba perdendo, se compõe de revolucionários convictos, enquanto o resto se compõe, de um lado, de homens influentes do governo anterior que mudam durante o processo e, de outro, de indivíduos que não estão nem com uns nem com outros e que se limitam a tirar proveito das circunstâncias inesperadas que os levaram ao poder.”
Passagem de As nuvens, de Juan José Saer (São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.34), na tradução de Heloisa Jahn.
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12 Dezembro, 2008 - 8:15 am
“Ele voltou para a floresta e se ajoelhou ao lado do pai. Ele estava envolvido por um cobertor como o homem tinha prometido e o menino não o descobriu mas se sentou ao seu lado e chorava e não conseguia parar. Chorou por muito tempo. Vou conversar com você todo dia, sussurrou. E não vou me esquecer. Não importa o que aconteça. Então ele se levantou e se virou e caminhou de volta para a estrada.”
Trecho do estupendo, do colossal A estrada, de Cormac McCarthy (Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p.233), na não menos brilhante tradução de Adriana Lisboa.
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11 Novembro, 2008 - 8:01 pm
“Ler — ele diz — é sempre isto: existe uma coisa que está ali, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; e por meio dele nos defrontamos com algo que não está presente, algo que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas concebível, imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é passado, perdido, inalcançável, na terra dos mortos [...] Ou talvez algo que não está presente porque não existe ainda, algo de desejado, temido, possível ou impossível [...] Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será…”
Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno (São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.78)
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28 Outubro, 2008 - 7:35 pm

“Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim.”
Clarice Lispector em Um sopro de vida (Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.18)
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20 Outubro, 2008 - 7:12 pm
“Certamente, ainda restam ‘países’, ‘culturas identitárias’, ‘oposições ideológicas’, guerras civis, ditaduras. Mas acreditamos nisso cada vez menos. São apenas signos de retardamento cultural. Em algumas décadas, no máximo um século, tudo isso terá desaparecido.”
Passagem de A conexão planetária, de Pierre Lévy (São Paulo: Editora 34, 2001, p.43), que, infelizmente, encontra-se esgotado (o livro, não o autor…).
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