Perambulando por bairros de Tóquio, em cidades vizinhas ou distantes, um homem, seu terno e sua fome — melhor: e sua vontade de comer. Poderíamos resumir Gourmet (São Paulo: Conrad, 2009, 202p., tradução de Drik Sada), de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, dessa forma. E estaríamos cometendo uma tremenda heresia — algo como cortar spaghetti, sabem?
Nas orelhas do livro, a editora se questiona sobre qual seria a melhor classificação para Gourmet: longe de ser um “simples” mangá, poderia funcionar como um guia para quem pretende conhecer o Japão, mas não causaria estranheza se fosse encarado como poesia visual. Eu tendo a concordar com a segunda opção, tamanha é a beleza desta obra de Taniguchi, mas ainda prefiro chamar os 18 capítulos de contos. De qualquer forma, é preciso encarar Gourmet como um prato que se saboreia com reverência e que somente aos poucos vai revelando seus ingre- dientes e temperos em insuspeitadas combinações. O que não se diz, mas apenas é insinuado pelos painéis que Taniguchi vai montando do espaço visitado por seu personagem, é tão ou mais importante do que aquilo que nos oferece em primeiro plano. Os silêncios, a incrível expressividade que imprime a seu gourmet solitário nos fazem parar, ao final de cada capítulo, e refletir.
Os traços limpos, precisos, contrastam com a total falta de definição dos roteiros do protagonista (do qual sequer ficamos sabendo o nome). O acaso, temperado pelas reuniões de negócios (sabemos apenas que se trata de um comerciante autônomo), é seu menu. Mas se estivermos atentos, veremos que o homem refaz um percurso marcado pela nostalgia: parques visitados em companhia de antigas namoradas, locais da infância, territórios da memória, transformados pela passagem do tempo.
Jiro Taniguchi por Jiro Taniguchi
O sabor é amargo em alguns desses “contos”. Como quando “o comerciante” presencia um dono de lanchonete humilhando um empregado — o que faz seu apetite cessar imediatamente —, ou quando busca quase com desespero um local em que havia comido muitos anos antes, e descobre que o crescimento vertiginoso do bairro riscou do mapa o restaurante que procurava. Resta-lhe a memória. Como um gostinho bom que fica na boca e que anos depois volta, trazendo consigo recordações preciosas…
É isso: o menu está aberto. A cada capítulo, uma iguaria e um local nos são ofertados pelo chef Jiro Taniguchi nesta deliciosa viagem gastronômica pelo Japão. Como cortesia da casa, saboreie o primeiro prato de Gourmet. Bom apetite!
Escrito por Ronoc ¦



Li em alguns lugares que um dos principais trunfos da trama de Larsson repousa no fato de ele subverter os papéis tradicionais nas tramas policialescas. E isso estaria evidente na pouco ortodoxa dupla de protagonistas da série Millennium. De um lado, o jornalista econômico Mikael Blomkvist, com uma carreira irretocável marcada por investigações profundas, denúncias corajosas e a consequente formação de uma legião de detratores e arquinimigos. Capaz de abalar impérios corrompidos com fatos inapeláveis e palavras contundentes, Blomkvist não desfere um soco ou dispara um tiro sequer durante todas as 522 páginas da história. Já Lisbeth Salander, que virá a se tornar sua colega, é uma jovem misantropa de vida nebulosa, com uma aparência frágil mas que se revela capaz de acessos de fúria incontrolável dignos de um lutador de UFC; acima de tudo, possui um raciocínio capaz de desnortear raposas. Ela ocupa, poderíamos dizer, o papel forte da dupla.
