
O menino e a Árvore
24 Maio, 2009 - 10:57 amCuriosos os caminhos que nos levam aos livros. Eu, que trabalho com eles, confesso que tinha prestado pouca atenção ao Tobias Lolness – A vida na Árvore (Rio de Janeiro: Rocco, 2009, 351 p.) quando foi lançado, uns dois meses atrás.
Semana passada, porém, graças ao apurado faro bibliotecário de minha esposa, redescobrimos a obra, espremida entre tantas outras numa pequena (a única, até prova em contrário) livraria na belíssima Paraty. Do toque na capa em alto-relevo, do rápido folheio de algumas páginas, que revelaram, além da história, as bonitas ilustrações de François Place, brotou o interesse. Como assim uma aventura de um menino de 13 anos e que não mede mais do que 1 milímetro e meio, e que habita uma árvore, aliás, a Árvore? Mesmo com a pulga, ou melhor, com o minúsculo menino atrás da orelha, não levamos o livro.
Mas assim que voltamos para São Paulo, foi uma das primeiras coisas que fiz.
A editora o apresenta como uma saga ecológica, ganhadora de inúmeros prêmios literários infanto-juvenis (como o Saint-Exupéry), e capaz de suscitar a reflexão sobre “os limites éticos da ciência, da indústria e da política”, levando ainda o leitor a “repensar o racismo e a intolerância em relação às diferenças sociais”.
Esqueça os prêmios (afinal, muitas vezes eles miram mais nas trajetórias políticas do que propriamente em qualidades literárias) e a apontada lista de nobres intenções do texto (que servem mais de isca para adoções escolares) e entregue-se — como eu fiz — à obra em si.
Timothée de Fombelle, criador de Tobias Lolness: falando da Árvore para falar de todos nós.
Contada num ritmo envolvente, alinhavando as frases aqui e ali com um quê de poesia, lançando mão de uma estrutura narrativa que esconde, revela, esconde, revela, o que mantém uma certa tensão e, sem dúvida, retém a atenção do leitor, a história do menino Tobias avança de forma prazerosa. Tem falhas, é óbvio, como apresentar personagens ou eventos que logo em seguida simplesmente são deixados de lado, o que nos faz duvidar se não seriam dispensáveis — e isso mesmo sabendo que falamos apenas da primeira parte de uma história dividida em duas (a continuação ainda não tem data para ser lançada no Brasil). Mas de uma maneira geral, Tobias Lolness surpreende positivamente sobretudo aqueles que à primeira vista o enquadram na restritiva (e muitas vezes injustiçada) categoria de “livro para criança”.
Filho do mais renomado cientista da Árvore, Tobias é um menino esperto, em certo sentido precoce, com uma sensibilidade aguçada, que lhe permite captar toda a beleza que seu mundo lhe oferece — e que muitas vezes escapa aos demais. Corajoso e dono de um espírito libertário, logo no início do livro ficamos sabendo que o menino encontra-se envolvido em uma perseguição que mobiliza toda a sociedade da Árvore. O perseguido? Sim, ele mesmo, Tobias. Por que todo um povo persegue, com uma sanha incontrolável, um menino de 13 anos de idade? É isso que Timothée de Fombelle vai revelando pouco a pouco, auxiliado a cada par de páginas, pelo ilustrador François Place.
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Trecho:
“Todavia o professor Lolness sabia que o conhecimento é um universo que não cessa de expandir os seus limites. Às vezes, ocorria-lhe comparar o conhecimento à própria Árvore.
Isso porque o pai de Tobias defendia a ideia louca de que a Árvore crescia.
Esse era um dos temas mais desconhecidos da ciência e a verdadeira paixão do professor. Todos os sábios se desentendiam a esse respeito. A Árvore se transforma? Ela é eterna? Qual é a sua origem? Haverá um fim do mundo? E, sobretudo: haverá vida fora Árvore? Essas questões provocavam intenso debate, e Sim Lolness não concordava com nenhuma das ideias de seus colegas.
Seu livro a respeito das origens da Árvore foi muito mal recebido. Ele tivera a ousadia de contar a história da Árvore como se ela fosse um ser vivo. Afirmava que as folhas não eram plantas independentes e sim as extremidades de uma imensa força viva.
O que mais chocou seus leitores foi o fato de um livro que era sobre as origens falar na verdade sobre o futuro. Se a Árvore era viva, como uma floresta de musgo, isso significava que era frágil e seria preciso tratar bem daquele grande ser que lhes abria os braços.” (p.68)

